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Me respondam!
Bom, nós alunos da rede estadual de ensino, principalmente do 3° ano do Ensino Médio, estamos completamente perdidos e abandonados. Há sessenta dias, professores e Governo do Estado, travam uma queda de braço interminável e nós alunos ficamos no meio do fogo cruzado.
Sem respostas, e sem soluções das partes de quem pode decidir algo desta greve. Só escutamos falar de problemas e dúvidas da parte prejudicada, que é a nossa. Não que sejamos contra os professores cobrar seus direitos, eu pessoalmente acho justo, mas que isso, justíssimo as pessoas lutarem por seus direitos, por isso escrevo. Pergunto-me hoje, como vai ficar o ano letivo meu e de quem vai prestar vestibular?
Os que podem pagar cursinho para usufruir de um direito que temos "sem pagar", que é o ensino público, correm o risco de ter dois prejuízos: Perder o vestibular por causa da greve e perder o dinheiro pago no cursinho. Acredito que cursinho para ajudar o aluno a entrar na universidade não deveria existir, é uma imoralidade. Para mim é a mesma coisa que fazer cursinho para a prova da OAB. Tem lógica? Digam-me, você anos estudando somente com o propósito de passar naquela prova, e ainda ter que fazer cursinho para te ajudar? Ou você não estudou direito, ou meu amigo, está acontecendo com você o que acontece comigo, e com milhares de alunos: ter um ensino de péssima qualidade.
O ensino público não supre as nossas necessidades de conteúdo para poder cursar uma Universidade Federal, um sonho para uns e pesadelo para outros. Faço cursinho, assumo, e por isso minha preocupação com o desnível gigante entre cursinhos e escolas públicas do meu estado. Assuntos que eu deveria ter aprendido em três anos que gastei da minha vida, indo para a escola, gastando passagem, paciência, tempo, para não ter aula e todo ano ter uma greve nova, nunca é resolvida. No cursinho sou obrigada a aprender em nove meses, e pior e/ou melhor, aprendo.
O que os alunos têm que fazer para ser ouvidos, e auxiliados? Abandonados pelos governos e professores... A quem devemos recorrer? Fazer greve também?! Existem ainda milhões de perguntas a se fazer sobre o assunto, mas a principal é: Como ficaremos nesta situação? Tendo alunas aos sábados ou até fevereiro de 2012? Alguns perdendo até vagas em faculdades e tendo que mudar seus planos futuros por causa de irresponsabilidade alheia? Um ano perdido jamais será recuperado... Palavras de um professor meu, grevista.
Jade Brito e Silva - Aluna do Atheneu - Natal/RN
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Ponto de vista
Boas histórias sempre acabavam saindo da Turma das 5h, presedida pelo saudoso Ricardo Rogério, todas às tardes, de segunda a sábado, coalhava a calçada do jornal O Mossoroense, contribuindo com o rombo da camada de ozônio com suas baforadas de Hollyood sem filtro ou Plaza arranca pulmão, a turma não perdoava ninguém, nem mesmo o papa pop.
Cristão, de religião nenhuma, em sã consciência tinha a ousadia de cometer o "pecado" de permanecendo dentro do prédio do jornal enquanto a mundiça deliberava. Caso algum inocente desavisado infringisse a "regra" certamente teria seu nome na pauta e arrastado pela calçada. Inevitavelmente uma “história” do "infiel" seria revelada ou inventada para saciar a leal platéia, sempre ávida por uma boa fofoca, se possível, bem cabeluda. Talvez, aí o motivo, de invariavelmente nunca ter deixado de acontecer uma única sessão por falta de quórum.
Saboreando minha dose diária de viagra mental do Santa Clara, que Socorro faz com a maestria de um chefe francês e o serve ritualisticamente, como uma gueixa serveria saquê ao seu samurai, me veio outra história do genial Nequinho Fotógrafo.
Apesar de ser verídica, atestada, carimbada e autenticada no cartório do Joca Bruno, esta pequena diferença do ver e registrar as coisas, também serviu de objeto para muitas versões atribuídas à Turma das 5h, eis a minha:
Nos anos 80 um bandido de alta periculosidade causava terror aos potiguares da Região Oeste. Conhecido como João Baraúna, o meliante desafiava a polícia e as forças de combate ao crime. Dia sim o outro também João Baraúna era ator principal das manchetes de rádios e jornais da região.
Num dia desses, em que o silêncio é o senhor do ambiente, da sala de diagramação eu via repórteres e editores coçando a cabeça por falta de acontecimentos que gerasse notícia, a cada toque do telefone se renovava a esperança de uma boa nova ser anunciada ao som da campanhia do aparelho, e, foi isso mesmo que aconteceu. O telefone do editor-chefe tocou, era um delegado dizendo que acabara de prender João Baraúna. Mais alegre que pinto em cisqueiro o serelepe editor manda Nequinho Fotógrafo correr para o Batalhão de Polícia de Mossoró esperar a chegada do famoso preso e consequentemente fazer as melhores fotos para manchete de capa.
Com o espelho da primeira página na mão, matéria sobre o caso finalizada, copydeskada e diagramada o editor convoca Nequinho para escolher a foto que seria estampada na capa do matutino mossoroense. Uma foto, duas fotos, três fotos, quatro fotos, vinte fotos... a gente só via a Veraneio-camburão da Polícia.
Meio aflito o editor pergunta:
- Nequinho pelo amor Deus, onde está João Baraúna?
Em cima da bucha, parecendo ter roubado a serenidade e firmeza de Dom Hélder Câmara, Nequinho responde:
- Tá aí dentro do camburão, ora!
Por um fio o Nequinho não virou manchete do centenário matutino.
José Brito e Silva - Cartunista e publicitário
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Tempo rei
“Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo...”
(Gilberto Gil)
O tempo não para! Cazuza nos alertou; Renato Russo, idem: “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou...”. Tempo, que Santo Agostinho dizia que sabia o que era, mas se alguém lhe perguntasse e ele tivesse que explicar, aí ele já não sabia do que se tratava.
Tempo, que é o maior professor de todos: “O tempo é escola dos sábios”. Por isso, há professores de vários tipos: “Há tempo de tudo debaixo do sol; há tempo de plantar, há tempo de colher...”. Há tempo em que é preciso entender que “viver é negocio muito perigoso”. Pois é no homem, este ser cambiante e multiforme, que reside o mal. Mal capaz de entrar numa escola e disparar várias vezes contra crianças inocentes... Pobre homem que não sabe valorizar o seu livre arbítrio! Pobre mundo! Pobre de nós...
Há tempo de entender que não basta apenas ir para as ruas, protestar, cruzar os braços por 24 horas, contra os absurdos e desmantelos que somos submetidos na nossa labuta, se este protesto não vier acompanhado de uma profunda e enorme mudança ética nas nossas ações...
Há tempo de entender que a amizade tem o seu preço e a cobrança vem através da lealdade, honestidade, parceria... de olhar, não um para o outro, mas sim, de olhar na mesma direção, como queria Saint-Exupéry.
Há tempo de entender que a ingratidão é o mais certo prêmio da dedicação... Você é 100% fiel ao individuo, mas é só dar-lhes as costas para ser apunhalado: “Até tu, Brutus?!”.
No entanto, há tempo de entender que se desculpar, não é um sentimento de inferioridade, mas sim de nobreza... e que somente nas verdadeiras amizades é que cresceremos, que nos tornaremos melhores pessoas...
Há tempo de entender que a inveja faz parte da condição humana. E que aquele cara, que você acredita que tem tudo - dinheiro, posição social, mulher famosa, etc. etc.-, na verdade ele não tem nada, a não ser uma enorme e profunda inveja. Sua alma é infinitamente menor do que o seu tamanho...
Há tempo em que é preciso entender que o silêncio é um barulho muito maior do que qualquer grito. Que o calar e a falta de palavras não representam um consentimento, mas sim, uma enorme e grandiosa dor, que talvez nem o tempo – o maior cicatrizante de todos -, seja capaz de curar...
Há tempo de entender que é preciso se libertar do passado. Seguir os ensinamentos do maior poeta português de todos os tempos: “Há tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo... e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares... É o tempo da travessia... E se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos...”.
Há tempo de entender que tudo acaba. Tudo passa. E que isso é bom, pois senão ficaríamos nos lamentando como Fernando Pessoa: “Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo; tenho dó delas. Não há um cansaço das coisas? Um cansaço de existir?”... Mas, é preciso lembrar de que “só o que passa, permanece...”
Há tempo que é preciso entender que a maior característica do ser humano é a sua capacidade de recomeçar. Afinal se a coisa não me mata; imediatamente ela me fortalece, sentenciou Nietzsche. É preciso entender, portanto, que o caminhar é sempre em frente: “Não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo”...
Há tempo de entender que “sem a música, a vida seria um erro”. Por isso, vou terminar - por hora apenas, pois compreendi que a dor é território sagrado da poesia... -, cantando a canção de Guilherme Arantes: “Amanhã! Mesmo que uns não queiram, será de outros que esperam ver o dia raiar. Amanhã! Ódios aplacados, temores abrandados,/ Será pleno! Será pleno!”
Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Professor, médico e escritor
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IDEOLOGISMO E FISIOLOGISMO: O RIO GRAVE DO NORTE
Nosso estado está paralizado. Quase todas as categorias de servidores públicos estão em greve ou com indicativos de fazê-la. Ingovernabilidade? Talvez. Mas essa sinalização já estava delineada antes das greves, no momento em que a nossa governante, à míngua de soluções criativas e diante dos problemas financeiros preexistentes, decidiu usar a estratégia do pára-brisa: culpar o governo anterior por todas as dificuldades que encontrou. E logo ela, a dinâmica senadora e competente ex-prefeita de Mossoró, que trouxe alento à boa parte da população, inclusive a mim, que não votei nela, nem me alinho com a sua doutrina partidária.
Estou convencido que a questão de fundo da nossa política é a desindexação da ideologia nas propostas de governo. E, em alguns casos não existe nem mesmo uma proposta, ainda que inconsistente. Escolhemos os governantes e os nossos representantes como se estivéssemos num divertido pastoril - pelas cores, ou beleza das pastorinhas. Quando não nos vendemos por trinta moedas, deixando de ganhar obras e serviços públicos que nos beneficiaria a todos, sobretudo os menos afortunados.
Acostumamo-nos à histórica herança patriarcal em que os habitantes das capitanias, dos coronelados e, no caso do Nordeste, os flagelados da seca (entendidos extensivamente) sempre recebíamos esmolas e legados para a nossa sobrevivência. Um cala-te boca para nos mantermos quietos e escravos.
Os três últimos governos do nosso país, em que pese as inúmeras contradições e ações questionáveis, definiu-se ideológicamente por uma opção em favor da pobreza. E deu no que deu: além de reduzir drásticamente a pobreza, provou que essa estória de liberalismo econômico é um engodo para engordar os já cevados ricos. E que esse modelo vitorioso - de emergência social - é também responsável pelo desenvolvimento do país, já que cria novas frentes de consumo.
É evidente que não se pode minimizar nem simplificar grosseiramente como estou fazendo. O estímulo à educação, de longe o maior vetor para o desenvolvimento sócio-econômico, os investimentos públicos na habitação, na agricultura e na pesca, etc, etc.
Por muito menos que se perceba, há indícios do "ideologismo" nos governos a que me referi. Quem votou nos candidatos dos partidos ditos "de esquerda", sabiam porque o estavam fazendo. Havia uma clara definição de propósitos e um modelo que balizavam a opção de preferência pelos candidatos do bloco.
No caso do RN, votamos na oposição, numa candidata bafejada pelos sucesso na gestão pública municipal e nas ações legislativa. E na manutenção de um sistema de forças conservadoras que fundiu o verde e o vermelho criando o cor-de-rosa. Só.
Ninguém teve o cuidado de interpelar o sistema híbrido se havia uma proposta política, um modelo de gestão, planos e projetos inovadores. Nada. Até mesmo porque a candidata, hoje governadora, acomodou-se em atirar pedras na vidraça situacionista, jogando areia nos olhos dos observadores políticos. Por isso não se pode tributar responsabilidades a ela. Não prometeu nada nem lhe cobraram coisa alguma.
Responsáveis são os que votaram nela, sem procurar saber a que ela viria, quais as propostas iniovadoras e salvacionistas, encantados que estavam pelas cores e pela virulência do discurso oposicionista. Deu no que deu.
Que tal se nós pensássemos duas vezes antes de escolher os nossos candidatos, e ultrapassássemos esse primarismo de fascinio pelas cores e discursos, o fisiologismo, e avançãssemos até a investigação dos propósitos estruturantes dos candidatos, definindo a sua ideologia?
Quem sabe, deixaríamos de ser o Rio Grave do Norte, ou Rio Greve do Norte e seríamos "Grandes" do Norte?
Pedro Simões - Professor
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Sinônimo de amar é sofrer...
“Quanto tempo o coração leva prá saber,
Que sinônimo de amar é sofrer...”
Chitãozinho e Chororó
O destino de um homem depende do seu caráter, alertava Heráclito. Afinal, é através do caráter, que fazemos as nossas escolhas; podemos viver na retidão ou podemos vender a nossa alma ao diabo, como fez o Dr. Fausto... Enfim, são as nossas escolhas que irão nos conduzir ao longo da nossa caminhada.
Dizem que Aquiles, quando jovem, recebeu das Parcas o privilégio de escolher a duração e o resultado da própria vida: poderia viver num palácio, ficar velho e morrer pacificamente, mas nunca seria lembrado; ou poderia ser lembrado para sempre, desde que morresse cedo. Escolheu a segunda alternativa, e parece-me que foi a correta, afinal concordo com Nelson Rodrigues: “Pior do que a morte é o esquecimento!”.
A Ulisses foi dada a oportunidade de conquistar a vida eterna, bastaria que ele aceitasse as oferendas da deusa Calipso. Mas, ele rejeitou uma vida paradisíaca, onde tudo seria previsível e seguro, para se lançar de volta a sua casa e a um futuro “no qual ele pudesse se atirar de corpo e alma”...
Robert Frost, poeta americano, certa manhã teve que fazer a sua escolha: “É com um suspiro que conto isso, tanto, tanto tempo já passado: Duas estradas separavam-se num bosque e eu – Eu segui pela menos viajada, E isso fez toda a diferença”.
Eu, Edilson Pinto, em 1993, tive que fazer também a minha escolha. Poderia ter ficado no Rio de Janeiro, muito provavelmente trabalhando no INCA (Instituto Nacional de Câncer) ou teria que voltar para o meu Estado, e assumir a vaga de professor na UFRN. Escolhi a segunda alternativa e não me arrependi!
Não tenho dúvida que nesta escolha, teve a enorme influência da minha mãe, professora alguns anos do Atheneu e depois do curso de letras da UFRN. Toda vez que ela falava da sua atividade docente, do seu entusiasmo, do seu carinho e amizade pelos alunos, etc. etc. seus olhos brilhavam e eu sentia uma enorme vontade de ser como ela: um professor.
Lembro-me, hoje, da minha primeira aula. Que tema árido para um iniciante, falar sobre “Choque e as suas repercussões hemodinâmicas”. Foram noites e noites sem dormir. Mas, toda aquela ansiedade terminou quando entrei na sala de aula. Naquele dia, percebi que tinha feito a escolha correta. Escolhi a estrada menos viajada e isso tem feito toda a diferença.
No dia 25 de março de 2011, fiz 18 anos de magistério. Pois bem, caro leitor, “Quem ama nunca sente medo de contar o seu segredo”: Eu amo ser professor! Adoro ensinar. Adoro o contato com os alunos. É como se eles a cada aula realizassem uma transfusão sanguínea em mim, evitando que o meu sangue vire pó... O que eu sou - e o que eu serei-, devo ao fato de ser professor.
Mas, nessa relação de amor, nem tudo são flores. Drummond, na sua eterna simplicidade, descobriu isso de uma forma curiosa: “Atirei um limão n’agua, como faço todo ano. Senti que os peixes diziam: todo amor vive de engano”. O meu grande mestre, professor Ernani Rosado, no dia da minha formatura, proferindo a sua oração para a minha turma, parece que estava me alertando: “O professor universitário, perdido em um emaranhado contínuo de leis, decretos e regulamentos que lhe tolhem, lhe desestimulam e lhe decepcionam, alvo freqüente de incompreensões...”.
Alvo freqüente de incompreensões e, o que pior, de ingratidões. Volto ao Drummond e os seus peixinhos (“Atirei um limão n’agua, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente”), para compreender que mesmo amando e sofrendo este é o destino de todo Professor. Afinal, há algo muito maior do que tudo isso: incompreensões e ingratidões. Há a ilusão de que um Professor pode moldar o caráter de um homem e mudar o seu destino...
Então, caro leitor, tem razão o cancioneiro na sua trova: “No aroma de amores, Pode ter espinhos... Quem tem amor na vida, Tem sorte. Quem na fraqueza sabe ser bem mais forte”...
Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Professor (UFRN e UnP), médico e escritor
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Pés Femininos
Sem dinheiro trabalhei como um pé de boi, fiz meu pé de meia, tirei o pé da lama e botei o pé na estrada.Voltei com a certeza, que no extremo sul do corpo feminino, nenhuma mulher chega as pés das brasileiras, é fato não raro tal fixação ,que me faz sofrer, mais do que pé de cego.
Recordo de uma festa em Petrópoles, era verão , caía um daqueles pé d’água que quase nos obriga a usar pé de pato, percebi um par de pés esculturais evoluindo no salão, eles sofriam atropelados por um pé de cana, que mal se agüentava em pé, aguardei o intervalo e rápido como um busca pé tirei-a para dançar, mesmo não sendo um pé de valsa, de cara tive ímpeto de implorar dá o pé loura, mas preferi perguntar se era casada ao pé do ouvido, tinha que tomar pé da situação, ela respondeu que era solteira e isso nos deixava em pé de igualdade, emocionado passei a dizer coisas sem pé nem cabeça e creio que meti os pés pelas mãos, porque ela disse que minha conversa estava um pé no saco, por um momento perdi o pé , quando ela se afastou súbito mais recomposto fui atrás, decidido a ficar no pé dela, que me disse que precisava ir para casa, seu pai estava mal, com o pé na cova, não acreditei, ela jurou de pé junto,não resisti e declarei o meu amor aos seu pés, ela me olhou com o pé atrás, então disfarcei disse que ela não precisa levar a declaração ao pé da letra, disse que não era louco, que tinha os pés na terra e sugeri leva-la em casa, iríamos num pé e voltaríamos no outro, ela delicada pediu para eu largar de seu pé, mais insisti sem arredar o pé, se tivesse que cair cairia de pé, ela saiu apressada apertando o pé poderia alcança-la com o pé nas costas, mas preferi não assusta-la e a segui pé ante pé, ela mora numa casa antiga dessas de pé direito alto, depois que entrou toquei a campainha e como não apareceu ninguém, pensei em usar um pé de cabra, resolvi enfiar o pé na porta, ela surgiu no alto da escada numa expressão de mulher ao pé de guerra, e apontou-me o olho da rua, bati o pé, disse que não saia, que não era um pé frio, ela não poderia me tratar como um pé de chinelo e que gostaria de tê-la ao meu lado ao pé do altar, tomando pé das minhas intenções,ela sorriu e foi descendo sedutora degrau por degrau parou quase ao pé da escada, estendeu-me o pé direitopeguei-o carinhoso com as duas mãos, a quando ia começa-lo a beija-lo percebi a presença daquela micose conhecida como pé de atleta, recuei, olhei nos seus olhos observei seus pés de galinhas e sem saber o que fazer ofereci um pé de moleque, girei meus calcanhares dei no pé mais disse antes SEJA FELIZ!!!"
Carlos Eduardo Novaes - Advogado e escritor
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Moscas
Entre gavetas, papeis amassados, “digitações” ensurdecedoras de dedógrafos em suas magníficas Olivettis nas redações de jornais, eram escritas boas histórias e fatos que nunca tiveram seus 15 minutos de fama ou foram manchetes de primeira página, se quer aspiraram uma menção em um canto de qualquer de página par, passaram longe dos arquivos do cotidiano, dos back ups, HDs e jamais chegaram a ser número nos amontoados das salas úmidas e poeirentas dos chamados “arquivos mortos.” Ainda assim, por suas originalidades eram (são) oxigênios aos ambientes tensos das redações, muitas vezes espreitados pelos homens de verde-oliva. Pesquisando uma foto na internet me dei conta de umas dessas histórias.
Um cafezinho bem quentinho e forte, um comprimido de memoriol, me pus a abrir as gavetas dos anos 80, soprando afastei a poeira e as teias de aranhas do meu menso pensamento que insistentemente não me permitiam ver com a nitidez necessária para lhes contar. Vali-me do meu arquivo e secretária particular: Socorro.
Nas noites do jornal O Mossoroense, feita O Fantasma da Ópera, vagueia uma “lenda” (verídica atestada, comprovada e carimbada por Vovó - funcionário mais antigo do jornal, segundo as más línguas ele teria ajudado Gutenberg com a primeira prensa.) por entres corredores sombrios e cantos das mesas de retoques do laboratório fotográfico às bocas sedentas dos linguarudos das redações loucos por aumentarem um ponto ao conto. Não sei se aqui será o caso.
Certa vez Dorian Jorge Freire, editor-chefe do jornal O Mossoroense incumbiu a Nequinho uma missão nada impossível no Mercado Central de Mossoró: fazer fotos para uma matéria especial sobre a falta da higiene nos quiosques que vendiam comidas.
À tarde Nequinho entrega as fotos, o editor confere...:
- Nequinho cadê as moscas? Não tem nenhuma uma mosca aqui? - De sobrancelha esquerada arqueada indaga Dorian Jorge Freire.
Cabisbaixo e desconfiado Nequinho pega às fotos desce ao laboratório. Duas horas depois soube serelepe sorridente e joga as fotos na mesa, olhando atentamente uma a uma Dorian quase tem um infarto quando percebe que Neguinho tinha desenhado a lápis grafite várias moscas nas fotos.
Contei a minha, quem quiser que conte outra.
José Brito e Silva - Cartunista e publicitário
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O punk Sever
Finalzinho do dia, lá no horizonte entre uma insistente nuvem negra que teimava em sair da chaminé, a sofrida Maria-Fumaça entre um gemido e outro tenta romper o serrote para mostrar às funças à bela Baixa do Chico, cidadezinha encravada nos cafundós do sopé da Serra dos Cotós. Torrão avermelhado castigado pelo sol, quando aplacado pelas chuvas de verão que o embebece forma lagos de profundo azul celeste e faz esparrar cores de invariável beleza pelas campinas, capazes de encher os olhos do cego do Aderaldo e fazer o Henri-Émile-Benoît Matisse se revirar de inveja.
Sentado num banco da estação, de pernas cruzadas, vestindo cáqui bem cintado e puxando um cigarrinho de palha, Bill esperava seu irmão caçula vindo da capital, aonde teria ido à busca de uma vida melhor. Sujeito de gestos lentos, precisos, amável, olhar de profunda sabedoria jamais andava sem a companhia de sua Marigota - uma faca-peixeira de 18 polegadas que mais parecia a espado de Conan. Porém, Bill nunca mostrou sua lambedeira para cabra que não merecesse vê-la ou senti-la.
Meia légua pequena depois, a fumaça e o trem esbarram na estação. Bill joga a piúba no caixão de areia, levanta-se e procura seu irmão entre os passageiros. Alguém grita na multidão:
-mano, mano, aqui boy! – Eis o Severino.
Sem delongas, em cima da bucha Bill pergunta: Que roupa afeminada é essa Severino?
- Boy eu sou Punk e meu nome agora é Sever, tá ligado mano?
Com sutileza de Rambo, Bill enfiou o dedo pelo alargador da orelha esquerda do Sever arrastando até um banco da estação, puxou a reluzente peixeira quando todo mijado o frouxo cosmopolita contestou:
- Que trêta é essa boy? Tu vai cortar meu moicano de faca mano?
- E a tua língua também se me chamar de boy de novamente, seu cabra afrescaiado!
Depois do serviço capilar terminado foram ao Armazém do Jubileu, quer dizer, no Armazém do Manoel - O Jubileu se deu por causa dos convites que Seo Manoel fez nas bodas de ouro dele com dona Zefa, sua esposa. A meninada achou o nome bonito e passou a chamá-lo de Jubileu. Seo Manoel até contratou um renomado pintor para escrever em grandes letras garrafais na fachada “NÃO É ARMAZÉM DO JUBILEU”, dias depois apareceu no lugar do NÃO um retângulo vertical com os cantos de cima arredondas e duas bolas de cada lado na base. Quando questionando porque só apagou o desenho, estufa o peito com ar de superioridade: ”pois, pois gajo, então eis tu que não sabes que no lugar do Jubileu é Manoel? Depois de uma longa e barulhenta risada vem o desfecho: “ainda dizem que português é burro, pois, pois! “.
Com os olhos quase saltando da caixa, o portuga indaga sobre a figura a tiracolo de Bill, este responde perguntando se tem roupa para homem. Com o dedo em riste para o fundo do armazém o Seo Manoel indica o lugar onde o apressado cliente encontrará a mercadoria. Pegando alguns peças de roupas manda o irmão vestir, sentencia: “Agora tá parecido com homem”.
A lua cheia e o mormaço da neblina noturna esbranquiça becos e ruelas da nanica Baixa do Chico criando uma penumbra romena vladineana, projetando nos casebres de taipas sombras fantasmagóricas dos irmãos Silva. Antes de enfrentarem as veredas que os levaria ao Sítio Mata Seca bateram a porta da casa paroquial para receber às bênçãos do padre Modesto, devidamente acompanhada de uma gota de água benta para purificar a faca do Bill, em caso de aparecimento de assombração, lobisomem mula-sem-cabeça, caipora ou qualquer outra coisa do outro mundo estaria pronta para peleja.
A primeira hora de trote do jumento foram suportável, mas logo na segunda metade, da segunda hora com o mucumbu em carne viva de tanto saltitar no lombo do jegue Severino quebra o silencio sugerindo apearem um tiquinho para um breve e devido descanso do rego. Todo escambichado andando de ou lado para outro, indaga:
- Bill você não gostou de minha volta não?
- Irmão esperei por esse momento desde o dia que você pegou aquele trem com destino a capital, você é nosso caçula. Respondeu Bill com os zóios marejando d’água.
- E por que tu fizeste isso comigo?
- Ora, Severino tu me sai daqui com jeito de macho, me volta com as zunha do dedo pintada de vermelho, brinco, cabelos espichados pra cima, falando um palavreado esquisito e me chamando de boy. Que que tu queria?
- Tens razão Bill. Lá na capital têm várias gangues, tribos, turmas, galeras e você tem que fazer parte de uma delas, se não quiser ser discriminado.
- Aqui tem disso não, você é apenas Severino.
José Brito e Silva - Cartunista e publicitário
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Nunca desânimo...
Estamos aqui reunidos para tratar de um assunto de extrema importância e máxima urgência! Um verdadeiro escolho aos nossos legítimos interesses. – Havia apenas mais três integrantes nessa reunião. Por isso, a altiloquência da mediadora era um tanto desnecessária.
- Eu detesto quando ela começa com essa “ladainha ufanista”. – Comentava
Marte com o parceiro da direita e a baixa voz.
- Ora, ora... Desde o último embate entre vocês, lá em Tróia, que você detesta
tudo o que diga respeito a Minerva. – Respondia Ares, o seu equipotente grego, nomesmo tom e com picardia, relembrando ao deus da guerra sangrenta a derrota dos seus protegidos, face à epopeica vitória dos exércitos resguardados pela deusa da guerra justa.
- Quietos! A hora é de somarmos forças e não de nos dividirmos. – Cariocecus, o deus lusitano da guerra, interveio e pôs fim à quase celeuma. Minerva continuou:
- A humanidade cada vez mais se une em torno do pacifismo... E isso tem que
ser revertido. Onde, o nosso proveito? Onde, o nosso prazer? – E a camarilha
concordava em uníssono.
- É notório que os movimentos a favor da paz estão se organizando dia a dia e
por toda a Terra. E, o que é pior, ampliam os seus tentáculos por meio das mais variadas formas, indo de discursos empolgantes, passando pelas passeatas e chegando à solta de balões brancos. – Prosseguia Minerva, em seu introito.
- Ora, não sei por que tanto alarido – desdenhava a divindade lusitânica. Quero recordá-la de que nunca abandonamos os nossos postos. Aliás, lembra de Heráclito? Pois não foi você, Ares, que bem soube deturpar a Luta dos Contrários, levando os contemporâneos do filósofo e os que se lhes seguiram a justificarem a guerra, pois dela resultariam a harmonia e a justiça?
- E olha que nem precisei de sacrifícios humanos para me estimular. – E os três riram a breve tempo, lembrando os prisioneiros que, volta e meia, eram ofertados a Cariocecus.
- Não questiono, aqui, os nossos feitos pretéritos – intervinha Minerva –, mas
coloco à prova o nosso futuro, a nossa sobrevivência! – De repente, o silêncio se sobrepôs aos gracejos... e a circunspecção tomava conta das mentes beligerantes. Passados alguns segundos, Marte questionou:
- E o que mais poderíamos fazer para atacar essa onda pacifista? O que sugere?
- “Uma grande parte dos males que atormentam o mundo deriva das palavras”,
disse Burke certa vez. Ora, lembrando que, na atualidade, praticamente não há mais fronteiras para a literatura, já pensaram no malefício que faríamos se conseguíssemos minar os espíritos de quantos tentam usar a palavra escrita em prol da paz? Ataquemos os escritores, e o estrago se multiplicará.
- E por acaso essa ideia é original? Também quero lembrá-la, oh querida irmã,
de que jamais negligenciamos essa área do pensamento humano; tanto que bem soubemos inspirar muitos autores. Aliás, já que hoje estamos para as citações, recordo o americano Oliver Wendell Holmes: “A guerra é a cirurgia do crime. Por má que ela seja, significa sempre a extirpação de qualquer coisa pior.” – Marte não perdia nenhuma oportunidade de alfinetar a rival.
- E eu, o brasileiro Tobias Barreto: “Cada guerreiro que por nós combate é a ira
de Deus que se faz homem.” – complementou Ares, aderindo à zombaria.
- Sempre a impulsividade sobrepondo-se à racionalidade... Não quis fazer alusão a esse ou àquele escritor, propriamente dito. Referia-me ao Concurso Mundial de Cuento y Poesía Pacifista, e que, pelo que fui informada, ganha adesões a cada minuto.
- Esclareça melhor o seu plano, Minerva. O que você pretende realmente? –
Carioceus falava por todos.
- Eu explico: é notório que as palavras, sobretudo as escritas, sempre foram mais fortes do que as espadas ou canhões. Chegam a milhões e se perpetuam na história. Ora, indaguei a mim mesma, como contra-atacar os nossos inimigos e conseguir com que sejam derrotados? - Como?! – Perguntaram, a uma só voz, os três armipotentes.
- O segredo está em convencer-lhes os espíritos de que são incapazes de mudar o ser humano. De que seus esforços, suas palavras serão sempre inúteis; uma luta em vão, uma tola utopia. – Um leve sorriso, misto de maquiavelismo e prazer, formava-se espontâneo nas fácies bestiais.
- Agora entendo aonde quer chegar, Minerva. Tratemos de convencer os
participantes de que são impotentes diante da beligerância inata dos mortais e esse concurso será o maior fiasco de todos os tempos! – Era a primeira vez que Marte concordava com a parenta.
- É claro!... Com isso, toda a Terra reconhecerá que, se até seus poetas e
prosadores deixaram-se levar pelo desânimo, do que valeria ao povo que os toma como exemplos perseverar no ideal pacifista? – Ares somava-se em entusiasmo.
- Brilhante, oh deusa da guerra diplomática! É como eu sempre digo: as boas
ideias se revelam simples e eficazes. Sendo assim, proponho um brinde – e a potestade lusitana levantava a taça –: ao malogro desse concurso!
- Ao malogro! – E beberam, e riram, e celebraram por toda a noite.
Era preciso agir rápido. Cada divindade ficou encarregada de atuar em uma parte do globo. Marte, por exemplo, não abriu mão das Américas; Cariocecus, de toda a Europa... Minerva e Ares não se opuseram e dividiram o restante de comum acordo.
No dia seguinte ao refestelo, e mesmo sob a viva lembrança de Baco que bem
lhes pesava ao raciocínio, os potentados partiram com seus exércitos rumo às casas dos concursandos. E o cerco teve início, implacável, impiedoso...
- Ah, como é nobre a sua intenção. E quão bela a sua veia artística! – Comentava Ares, consigo, junto a uma promissora poetisa. – Pena que tudo farei para tolher-lhe o ânimo. Que tal...? as últimas investidas da Coréia do Norte? Lançam uns mísseis aqui, outros ali... e a boa e velha Guerra Fria está mais viva do que nunca.
- Vejo que seu conto está prestes a acabar, pretenso aprendiz de best-seller. –
Sussurrou Marte, em tom desdenhoso, a um romancista consagrado. – Quem sabe eu possa desencorajá-lo, enfatizando que o homem continuará a não dar ouvidos à história, pois os campos de concentração, que pensavam estar para sempre enterrados, ainda ardem nos corações bósnios, face ao extermínio perpetrado em Srebrenica?
- Nada como reinar aquém da Taprobana... – Cariocecus deleitava-se ao
regressar a Lisboa. Nunca se desapegara do seu antigo Condado Portucalense... – Percebo vigor e idealismo neste jovem ensaísta. Seu currículo só tende a florescer. Bem... que tal se eu o lembrar do comércio escravagista que os nossos patrícios desenvolveram? Ou então... Dos arbítrios que seu avô salazarista cometeu? Certamente essa breve retrospectiva o envergonhará e o desalentará, pois o levará a crer que os
mortais continuarão a se chafurdar no erro, século após século, mesmo que admitam a história como uma espiral ascensional.
- Que otimismo na terceira idade! Não pensei que chegando aos oitenta e dois
anos ainda houvesse esperança dentro desse coração velho e cansado. Quer dizer que a literatura infantil é o seu passatempo? Curiosa coincidência... pois o meu é, justamente, desvirtuar a juventude! – Nunca viram Minerva tão pérfida! – Vejamos... Idade provecta, vida sofrida...
Pois eu pergunto, senhora, se tem tão pouco tempo de vida; se viu guerras e até viveu comoções intestinas... será que ainda há tempo para ensinar algo de bom aos pequeninos, pois, mais cedo ou mais tarde, engrossarão as fileiras de soldados, revolucionários ou terroristas? E os meses foram passando... A cada dia, os comandantes divinais eram informados por seus generais sobre as investidas aos participantes do concurso. Romancistas, poetas, contistas, sonetistas, ensaístas, novelistas... todos os que, com sua
arte, procuravam contribuir para a prosa ou para poesia pacifistas eram acossados das mais variadas formas; nunca olvidando dos objetivos e dos meios traçados por Minerva.
E toda vez que o quarteto divino se reunia para avaliar a ofensiva, era difícil saber qual deles cantava maior vantagem sobre o outro. Os semblantes, no entanto, camuflavam a realidade dos fatos, escamoteando-os nos torreões do orgulho...
E o concurso continuava... e por mais que os deuses guerreiros afirmassem que os resultados que obtinham eram satisfatórios, ou que os relatórios apresentados por seus comandados fossem, como diziam, positivos, o número dos participantes não diminuía; pelo contrário, mais e mais escritores se inscreviam!
- Eu não consigo entender o que aconteceu! – bradou Marte num arroubo de
cólera, pois que encantoado pela angústia. Mas antes que algum dos demais ousasse uma justificativa, um general se aproximou e disse:
- Oh altipotentes, um nosso espião conseguiu uma cópia de um dos poemas
finalistas. Tentará nos enviar o outro, bem como o conto selecionado, assim que a oportunidade lhe for favorável. – E o entregou à mentora belicosa.
Minerva estava trêmula e envergonhada; muito distante da genialidade que um
dia inspirara Odisseu a imaginar um grande cavalo de madeira... Ares, então, tomou-lhe o papel e, em voz alta e pausada, começou a ler um soneto.
E a cada verso, em que se entrosavam perfeitamente decassílabos e alexandrinos,mais um quê de originalidade, revelava aos demais que o esforço que tanto despenderam, esse, sim, tinha sido em vão:
Um só caminho.
Em meu reino, de onde posso tudo ver,
conta bendita a que me doei,
só vejo a luz que de mim criei,
nunca desânimo, em que não quero crer.
E se muitos há que te levam a arder,
pecadores por quem sempre roguei,
avatares alhures enviei.
Segue-lhes os passos! Isso, sim, é viver.
Mas o homem insiste em se desviar...
e não se detém. Conquista; mata; erra.
Enloda-se no poder que o faz cegar.
Destarte, retorna ao pó pela guerra...
Mas, não duvides, nasceste para amar.
Faze, pois, o que te cabe! Paz na Terra!
Dias Campos
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Tsunami
Para aonde vai a Terra,
Com seu eixo desviado,
Seu povo submergido,
Suas urbes destruídas,
Governos desnorteados
Nesse imenso padecer?
Acho que vai passear,
Andando pelo universo
Feito a rês desgarrada
Que meu sogro procurou
Há mais de oitenta anos
Nos aceiros do sertão.
Ou vai expiar as bombas
Jogadas de aviões,
Navios, carros, canhões,
Nas cabeças inocentes
Por belicoso inimigo
Que despreza compaixão.
Neste dia da Poesia,
O que houver de lirismo
Está ligado ao Japão:
Pelos olhos da emoção,
Amor, solidariedade
E saudade no coração
Walter Medeiros - Jornalista
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A música e a vida
Se Deus tiver um idioma para sua expressão, certamente essa língua bendita e divina há de ser a música. Todavia, embora tenha a música exercido especial fascínio sobre mim, desde quando me lembro, fiquei na nobilíssima função de mero apreciador dos ritmos, instrumentais, cantores, coristas, cantadores, compositores e intérpretes, dos safados aos sublimes. Inicialmente, coube embrenhar-me pela leitura de muita coisa que se escreveu na literatura de cordel (os antigos, de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, João Melchíades Ferreira - autor do "Romance do Pavão Mysteriozo", "Roldão no Leão de Ouro" e a "História do Valente Zé Garcia" - , José Costa Leite, entre outros), depois vieram os gibis de toda natureza e, finalmente, os livros, livros a mancheias, para lembrar um trecho do poema "O livro e a América” de Castro Alves (“Oh bendito o que semeia, livros, livros a mancheias e manda o povo pensar..."). Livros pela vida afora; música, somente para ouvir, dançar... Paciência, cada qual no seu quadrado. Nada daquele besteirol figurado da letra do samba "Assobiar ou chupar cana", de Benito de Paula, naquele trechinho que diz: "Seria muito bom/Seria muito legal/Se cantor ou compositor/Pudesse ser ator ou jogador de futebol..." Nada impede alguém de assobiar e chupar cana, a um só tempo. É apenas uma questão de especial talento e dedicação.
Na infância/adolescência, era muito pobre para ter um instrumento musical de verdade para iniciar-me na música. Estranho era um vizinho nosso, mais velho que eu um pouco, que vinha pedir que lhe emprestasse uma humilde gaita de baquelite (o avô dos materiais petroquímicos plásticos atuais), com a qual tocava magistralmente todas as músicas executadas pelo serviço de alto falantes mantido pela Prefeitura. As partir daí passei a desconfiar que aquele fulano tinha bem mais talento para música que eu, cuja função, naquele caso, resumia-se à de apreciar e ser o dono da gaita que, quando a mim retornava, era outra vez inoperante, estúpida a emitir sons desconexos ou, para o alívio geral, ficava muda e esquecida num canto. Depois vieram os violões, os teclados e... nada! Na vida agitada e multitarefa jamais coube aquele tempo de dedicação ao domínio de um instrumento musical nobre. Digo nobre porque nesse rol não entram zabumba, triângulo, pandeiro ou reco-reco, coisas de povos primitivos, embora possam, também, ajudar em muito na parte rítmica, naquilo que seria mesmo o "molho" da música.
Quando pensei já estar perdida a interface musical, eis que li a interessante história de um exímio pianista austríaco que, perdendo um dos braços na frente de batalha, na I Guerra Mundial, posteriormente ao fim do conflito pediu a bons compositores europeus que compusessem peças musicais que ele pudesse tocar apenas com a mão esquerda.esquerda. O compositor Maurice Ravel (aquele do famoso "Bolero de Ravel"...) acudiu-o e compôs o "Concerto para a mão esquerda" e foi utilíssimo para o pianista Paul Wittgenstein, irmão do filósofo Ludwig Wittgenstein, o do pomposo Tractatus Logico- Philosophicus. E Paul - meu xara! - deu-se bem com a ideia, além das diversas composições de músicos famosos que passou a executar apenas com a mão esquerda, feitinhas para ele.
Cá com meus botões tive a impressão aquela era a vez, a minha vez. Ora, minha dificuldade nos teclados e harmônicas de todos os naipes (as sanfonas, gaitas, foles etc.) era justo por não saber usar as duas mãos; conseguindo apenas solar, sem qualquer acompanhamento. Foi ai que conheci a música de Ravel para manetas e com isso a grande decepção: era muito mais difícil executá-la, pois com uma só mão deveria fazer o que os gênios fazem com duas... Desisto. Vou de zabumba, timba, reco-reco ou mesmo quero me ver "de frigideira numa batucada brasileira", para lembrar do genial, Jackson do Pandeiro. E criar vergonha aprendendo a tocar os teclados e afins com-as-duas-mãos; é só ter vontade de realizar que a coisa já fica um pouco feita. E a música tem essa magia de acontecer, quando se incorpora à vida. A descoberta do que pode "dizer" nessa língua divina, cada voz, cada instrumento, revela uma infinita possibilidade de combinações sonoras. Sem os atalhos ou as facilidades, como tantos pensam. Ela se incorpora, acontece.
Paulo Afonso Linhares - Jurista e Jornalista
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Jornalista garante que ganhou uma nova vida com a auto-hemoterapia
O jornalista Leonardo Sodré, de Natal/RN é usuário da auto-hemoterapia. Desde agosto de 2010 ele faz uso da técnica e nunca mais adoeceu, tampouco teve gripes ou qualquer outro problema de saúde. Seu peso voltou ao normal, ele sente-se disposto para o trabalho e afirma que a sua pele parece estar rejuvenescendo a cada dia. Nesta semana ele contou a sua história para o nosso site – Auto-hemoterapia, meu sangue me cura.
Sodré passou a fazer auto-hemoterapia por sugestão de um médico, amigo de infância e de colégio, que estava visitando outro amigo no hospital onde estava sendo tratado e quanto o viu foi conversar com ele. Na ocasião o jornalista relatou tudo o que já havia passado com doenças e o médico recomendou o uso da auto-hemoterapia, prática que aquele profissional de saúde utilizava havia cinco anos.
UTI
“No ano de 2003 fui vítima da dengue. Passei quase um mês muito mal e quase morri porque minhas defesas caíram muito. Depois disso, emagreci bastante e nunca mais tive saúde. Qualquer gripe virava uma pneumonia e fui acometido várias vezes por infecções”, conta o jornalista em seu depoimento, acrescentando que “No sábado de Carnaval de 2010 eu estava com minha mulher na praia de Pititinga. Tínhamos acabado de chegar à casa do irmão dela e ficamos conversando no terraço, depois que arrumamos nossas coisas, para passar todo o período de momo por lá. De repente comecei a ficar febril”.
Continuando, Leonardo explica que era “Uma febre que evoluiu muito e comecei a passar mal até a manhã do dia seguinte, quando, sem que nenhum remédio fizesse efeito, fui para o Hospital São Lucas”. Como diagnóstico, acrescenta que “No hospital foi constatado um quadro de infecção gravíssimo. Eu estava, naquela momento, com 30 mil leucócitos, e pneumonia grave. Fui imediatamente levado à Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), onde fiquei durante seis dias, correndo risco de morte. Depois, durante a recuperação, ainda passei quase 30 dias em um apartamento daquele hospital”.
AUTO-HEMOTERAPIA
Depois que passou a usar a auto-hemoterapia, em agosto de 2010, o jornalista afirma que nunca mais adoeceu. Sua mulher também aderiu, como forma de manter a saúde preventivamente e vários amigos e parentes também estão fazendo auto-hemoterapia preventiva ou para curar diversos males. A maioria dos meus vizinhos também fazem o tratamento, que ele considera “milagroso”.
Segundo Leonardo Sodré, “As pessoas que reprovam a prática fazem de forma preconceituosa e sem nenhum embasamento, inclusive alguns médicos que diante da indagação ‘por que você reprova?’ titubeiam e batem na mesma tecla do risco de infecção por causa das agulhas das seringas. Se fosse assim ninguém poderia tomar remédio via injeção”, reage. “Entrementes, conheço alguns médicos que usam a auto-hemoterapia normalmente. São os que entendem a importância do aumento dos macrófogos no organismo e querem se proteger de infecções nos hospitais. Médicos de mente aberta que não se deixam seduzir pelos argumentos da indústria farmacêutica e pelo preconceito dos conselhos de medicina. Vou continuar sempre com a auto-hemoterapia, que meu proporcionou uma nova vida”, conclui.
Jornalista Walter Medeiros* – waltermedeiros@supercabo.com.br
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A Vergonha
crônica de Luiz Fernando Veríssimo sobre o BBB
Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 10 é arealidade em busca do IBOPE.
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível.
Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados..
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.
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A história de um filho da puta
Estava sentado no meu escritório quando lembrei de uma chamada telefônica que tinha que fazer. Encontrei o número e disquei.
Atendeu-me um cara mal humorado dizendo:
- Fale!
- Bom dia. Poderia falar com Andréa?
O cara do outro lado resmungou algo que não entendi e desligou na minha cara. Não podia acreditar que existia alguém tão grosso. Depois disso, procurei a minha agenda o número correto da Andréa e liguei. O problema era que eu tinha invertido os dois últimos dígitos do seu número.
Depois de falar com a Andréa, observei o número errado ainda anotado sobre a minha mesa. Decidi ligar de novo. Quando a mesma pessoa atendeu, falei:
- Você é um Filho da puta!
Desliguei imediatamente e anotei ao lado do número a expressão ‘Filho da puta’ e deixei o papel sobre a minha agenda.
Assim, quando estava nervoso com alguém, ou em um mau momento do Dia, ligava prá ele, e quando atendia, lhe dizia ‘Você é um Filho da puta’ e desligava sem esperar resposta.
Isto me fazia sentir realmente muito melhor.
Ocorre que a operadora de telefonia introduziu o novo serviço ‘bina’ de identificação de chamadas, que me deixou preocupado e triste porque teria que deixar de ligar para o ‘Filho da puta’.
Então, tive uma idéia: disquei o seu número de telefone, ouvi a sua voz dizendo ‘Alô ‘ e mudei de identidade:
- Boa tarde, estou ligando da área de vendas, para saber se o senhor conhece o nosso serviço de identificador de chamadas ‘bina’.
- Não estou interessado! – disse ele, e desligou na minha cara.
O cara era mesmo mal-educado. Rapidamente, disquei novamente:
- Alô?
- É por isso que você é um Filho da puta! e desliguei.
Aqui vale até uma sugestão: se existe algo que realmente está lhe incomodando, você sempre pode fazer alguma coisa para se sentir melhor: simplesmente disque um número de algum outro Filho da puta que você conheça, e diga para ele o que ele realmente é.
Acontece que eu fui até o shopping, no centro da cidade, comprar umas camisas. Uma senhora estava demorando muito tempo para tirar o carro de uma vaga no estacionamento. Cheguei a pensar que nunca fosse sair. Finalmente seu carro começou a mover-se e a sair lentamente do seu espaço.
Dadas às circunstâncias, decidi retroceder meu carro um pouco para dar à senhora todo o espaço que fosse necessário:
‘Grande!’ pensei, ‘finalmente vai embora’.
Imediatamente, apareceu um Vectra preto vindo do outro lado do estacionamento e entrou de frente na vaga da senhora que eu estava esperando. Comecei a tocar a buzina e a gritar:
- Ei, amigo. Não pode fazer isso! Eu estava aqui primeiro!
O fulano do Vectra simplesmente desceu do carro, fechou a porta, ativou o alarme e caminhou no sentido do shopping, ignorando a minha presença, como se não estivesse ouvindo. Diante da sua atitude, pensei:
‘Esse cara é um grande Filho da puta! Com toda certeza tem uma grande quantidade de Filhos da puta neste mundo!’. Foi aí que percebi que o cara tinha um aviso de ‘VENDE-SE’ no vidro do Vectra. Então, anotei o seu número telefônico e procurei outra vaga para estacionar.
Depois de alguns dias, estava sentado no meu escritório e acabara de desligar o telefone – após ter discado o numero do meu velho amigo e dizer ‘Você é um Filho da puta’ (agora já é muito fácil discar pois tenho o seu número na memória do telefone), quando vi o número que havia anotado do cara do Vectra preto e pensei:
‘Deveria ligar para esse cara também’.
E foi o que fiz. Depois de um par de toques alguém atendeu:
- Alô.
- Falo com o senhor que está vendendo um Vectra preto?
- Sim, é ele.
- Poderia me dizer onde posso ver o carro?
- Sim, eu moro na Rua XV, n° 527. É uma casa amarela e o Vectra está estacionado na frente.
- Qual e o seu nome?- Meu nome e Eduardo Cerqueira Marques – diz o cara.
- Qual a hora é mais apropriada para encontrar com você, Eduardo?
- Pode me encontrar em casa à noite e nos finais de semana.
- É o seguinte Eduardo, posso te dizer uma coisa?
- Sim.
- Eduardo, você é um grande Filho da puta!!! – e desliguei o telefone.
Depois de desligar, coloquei o número do telefone do Eduardo (que parecia não ter ‘bina’, pois não fui importunado depois que falei com ele) na memória do meu telefone. Agora eu tinha um problema: eram dois ‘Filhos da puta’ para ligar.
Após algumas ligações ao par de ‘Filhos da puta’ e desligar-lhes, a coisa não era tão divertida como antes. Este problema me parecia muito sério e pensei em uma solução: em primeiro lugar, liguei para o ‘Filho da puta 1′.
O cara, mal-educado como sempre, atendeu:
- Alô – e então falei:
- Você é um Filho da puta! – mas desta vez não desliguei. O ‘Filho da puta 1′ diz:
- Ainda está aí, desgraçado?
- Siiimmmmmmmm, amorrrrrr!!! – respondi rindo.
- Pare de me ligar, seu filho da mãe – disse ele, irritadíssimo.
- Não paro não, Filho da putinha querido!
- Qual é o teu nome, lazarento? – berrou ele, descontrolado!
Eu, com voz séria de quem também está bravo, respondi:
- Meu nome é Eduardo Cerqueira Marques, seu Filho da Puta. Porquê???
- Onde você mora, que eu vou aí te pegar, desgraçado? – gritou ele.
- Você acha que eu tenho medo de um Filho da puta? Eu moro na Rua XV, n°527, em uma casa amarela, e o meu Vectra preto está estacionado na frente, seu palhaço filho da puta. E agora, vai fazer o quê???? – gritei eu.
- Eu vou até aí agora mesmo, cara. É bom que comece a rezar, porque você já era. – rosnou ele.
Diego Mazaaah
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O óbvio que ignoramos
“Nada é mais nocivo do que enxergar com os olhos”
Edilson Pinto
Diferentemente do poeta Manoel de Barros que, certa vez, escreveu: “gosto de ver o que não aparece...”, eu, talvez, muito mais pretensioso, gostaria de ver mesmo é o que aparece. Sim, caro leitor, não tenha dúvida de que a coisa mais difícil é ver o que está na nossa frente. Duvida? Então, leia o conto “A carta roubada”, do fantástico escritor Edgar Allan Poe: Um documento extremamente comprometedor foi roubado dos aposentos reais. Todos sabem que foi o Ministro D. quem roubou. E todos sabem que ele escondeu em seus aposentos num quarto do hotel onde morava. Todas as noites a polícia entrava e vasculhava todos os recantos e nunca encontravam a bendita carta. Chegaram até a examinar o edifício inteiro, quarto por quarto, todos os móveis dos aposentos, e nada. A carta nunca era enc ontrada. Após dezoito meses, o Sr. Dupin sabendo da história, e interessado na recompensa de cinco mil francos, entrou nos aposentos do Ministro, e em segundos encontrou um vistoso porta-cartas e estava exatamente lá, onde deveria está, a carta com o selo real.
Portanto, é isto mesmo, caro leitor: “nada é mais oculto do que o visível”. Por isso, tem razão Saint-Exupéry ao nos lembrar de que os olhos são cegos. Só enxergamos mesmo com o coração: “O essencial é invisível aos olhos”.
A nossa profissão há muito se encontra cega - e diferentemente da justiça que cega os seus olhos, para ver se consegue enxergar melhor a verdade-, a medicina cegou, não os seus olhos, mas sim, o seu coração... e este pequeno detalhe, está fazendo toda a diferença e sendo responsável por toda a nossa miséria.
Se hoje, somos mal remunerados, trabalhando em condições desumanas, enfrentando uma enxurrada de processos na justiça civil e nos próprios Conselhos Regionais de Medicina (CRM’S), sem termos uma lei ainda que regulamente a profissão médica, etc. etc. tudo isso, é culpa única e exclusivamente nossa. Nós não nos respeitamos! Parece tão óbvio isto, que chega a ser até cômico, se não fosse trágica, a constatação deste pequeno detalhe: somos os únicos e verdadeiramente culpados pela nossa própria miséria!
Ora, veja só caro leitor, quantas e quantas vezes, não culpamos os nossos “digníssimos” representantes políticos por não valorizarem a saúde, por nos remunerarem de forma aviltante e não nos darem condições dignas de trabalho? Sempre! A culpa é sempre deles. Esquecemos de que inúmeras vezes esses cargos máximos do poder público são ocupados por médicos: a bancada da medicina, no poder legislativo, sempre teve número suficiente para poder defender a dignidade da nossa profissão... e o que vemos é exatamente o contrário: médico não gosta de médico.
Chego a rir quando nos chamam de corporativista. Disse em 2003, num artigo, que nenhuma classe é mais desunida do que a nossa e o preço que pagamos por isso – pela desunião (muitas vezes, chegamos atrasados ou nem chegamos ao plantão, deixando o nosso colega tocando o serviço sozinho...) - é estarmos sempre e sempre no fundo do poço... o que deveria ser um exército de amantes e amados, como preconizava Fedro, no seu discurso no “Banquete de Plantão”, transformou-se - pela nossa cegueira miocárdica- em um exército de desunidos. Estão aí as pesquisas feitas, em vários CRM’S, mostrando que sempre por trás de uma denúncia contra um médico, há um outro “médico” instigando o paciente..
Mudemos agora, caro leitor, o nosso olhar para outro lado: o que é que quer um médico se submetendo a humilhação de fazer parte de um plano de saúde? Quem ganha com esta relação de promiscuidade entre os planos de saúde e os médicos? Essa resposta é muito fácil, por isso eu mesmo vou responder: só não somos nós! Perdemos a nossa autonomia; agora, somos escolhidos por constarmos num catálogo de convênio. A relação, que era próxima, pessoal e amiga, transformou-se em distante, impessoal e hostil. Ficamos a mercê, não mais apenas do Código de Ética Médica, mas sim do código de defesa do consumidor. Até o PROCON quer determinar, agora, o número de atendimentos médicos como também o tempo de retorno e espera dos pacientes, nos nossos consultórios. Nós não nos respeitamos! E o PROCON tem conhecimento disto...
Veja este triste relato do escritor Rubem Alves: “O médico de antigamente era um herói romântico, vestido de branco. As jovens donzelas e as mulheres casadas suspiravam ao vê-lo passar... ele era um cavaleiro solitário que lutava contra a morte. Quem jamais ousaria pensar qualquer coisa de mal contra o médico? Hoje são comuns os processos por erros médicos por imperícia. Ser médico transformou-se num risco. Porque ninguém mais acredita na sua santidade... um dia fui ouvir uma palestra do Diretor do hospital da cidade de Princeton, nos EUA. Ele começou sua preleção com esta afirmação: ‘O hospital de Princeton é uma empresa que vende serviços’. Meu Deus! Eu pensei: ‘aquele médico não exist e mais’. E percebi que, agora, os médicos se encontram lado a lado com prestadores de serviço, os encanadores, os eletricistas, os vendedores de seguros, os agentes funerários, os motoristas de táxi. É só procurar na lista de classificados. A presença mágica já não existe. O médico é um profissional como os outros. Perdeu sua aura sagrada. E me veio, então, uma definição do médico compatível com a definição do diretor de Princeton: ‘um médico é uma unidade biopsicológica móvel, portadora de conhecimentos especializados, e que vende serviços’... acho que os médicos, hoje, são infelizes por causa disto: eles resolveram ser médicos por desejarem ser belos como o cavaleiro solitário, puros como o santo, e admirados como o feiticeiro. Era isso que estava dentro deles, ao tomarem a decisão de estudar medicina. E é isso que continua a viver na sua alma, como saudade... os médicos sofrem por saudade d e uma imagem que não existe mais”.
Caro leitor, parece tão obvio que mudar tudo isso só depende de nós, que fica difícil, talvez, de enxergarmos. Tenho certeza de que se nos uníssemos; se buscássemos o caminho da ética; se procurássemos crescer sem tentar destruir o outro... conseguiríamos, sem dúvida, resgatar esse médico de antigamente. A verdade é que nós somos o único obstáculo a ser vencido, na busca de resgatar a dignidade da nossa profissão.
Conta uma Lenda que, certo dia, um ardil estudante querendo colocar o seu mestre em apuros, bolou um plano: tomaria nas mãos um passarinho e quando o mestre estivesse a ensinar os outros discípulos, ele formularia a seguinte pergunta: “Mestre, esse pássaro que tenho aqui atrás, está vivo ou morto?”. Se o mestre dissesse que estava vivo, ele o esmagaria com as mãos e mostraria o corpo do pobre pássaro; se dissesse que estava morto, ele o deixaria voar livremente. Qualquer resposta, colocaria o mestre em apuros. No entanto, quando a pergunta foi feita ao mestre, na sua simplicidade, respondeu: “o destino desse pássaro, meu amigo, está em suas mãos!”.
Pois bem, caro leitor, é assim, como o mestre, que eu termino: O destino de mudar os tristes caminhos da medicina só depende de nós! Única e exclusivamente de nós!
Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Professor, médico, escritor e conselheiro do CREMERN (edilsonpinto@uol.com.br)
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A primeira a gente nunca esquece
- Que musga é essa que o senhor tá uvindo? – Indagou-me Dona Marinhia
- Baticum, de Chico.
- Chico Sordado? Com cara de incrédula insistiu à figura.
- Não! É Chico Buarque.
- Logo vi. Uma musga rim assim meu ídulu num cantanão!
Esse diálogo aconteceu comigo e já contei aqui. Esta semana quase se repetiu, com menos veemência do protagonista. Mas, serviu para bater a poeira da cachola, baldear as lembranças e trazer-me à memória a viagem-aventura que fizemos eu e Socorro para Rio Branca/AC.
No final dos anos 80, eu e Socorro fomos convidados para trabalhar na TV e jornal O Rio Branco/AC. Socorro matuta de dá dó, nascida lá dos cafundós de Almino Afonso/RN. Eu que tinha botado os olhos em cima de avião só no filme “Se segurem que o piloto sumiu”, pensei com meus botões que a negrada iria mandar nossas passagens de avião. Dito e feito. Socorro amarrou o burro dizendo que de avião não ia nem por cem e uma cocada de coco.
Pra não perde a mulher e o emprego, de mala e cuia imburaquei no buzão. Até que o bicho era ajeitadinho. Bocó é uma desgraça mesmo. Escolhemos a empresa do pai do Oscar Schmidt - na época era o “cara” do basquete-, não sei por que cargas d’águas. Que diferença fazia? Enfim. Logo no primeiro dia na Serra de Tiangua/CE, o ônibus perdeu o freio e desceu a serra freando na marcha e apegado na Ave Maria e Pai Nosso que a mulherada chorando e confessando os pecados cantavam. Juro por nossa-senhora-dos-linguarudos que ouvi uma mulher, logo atrás da minha poltrona, confessar que tinha botado um chapéu de touro no bestunto do marido e o “manso” perdoá-la em riba da bucha.
No terceiro dia, no sul do Maranhão, Socorro com cara de ressaca de quarta-feira de cinzas me dizia do erro em não ter aceitado as passagens de avião. Com ar superior estufei o peito e sapequei: “Eu avisei.” Socorro me olhou com um olhar 43 apontando para um olho e para o outro dizendo: “esse é irmão desse, você estava se pelando de medo”. É verdade. Tava mermo.
No quinto dia, já puto com os dois motoristas que pareceriam uma dupla sertaneja, os filhos das putas além só ouvirem a gasguita música sertaneja, cantavam tão ou mais desafinados que um peido dentro ”água, e noventa por cento dos passageiros cantavam juntos, botavam suas fitas-cassetes de Milionário e Zé Rico e o diabo a quatro. Influenciado por Socorro, que estava em eta para lê na Constituição as garantias dos direitos individuais e coletivos. Lá se vai eu, com minha bem cuidada fita (gravada na Disco-Fitas) em direção ao Roadstar do motorista. Pensando com meus botões: “enfim uma música boa para os zuvidos.”
Quando Raimundo Fagner e Paco de Lucia abriram o bico cantando Verde, foi a primeira e maior vaia que já recebi, todo mundo por uma só boca. Acredito que até os pneus do ônibus vaiaram. Ainda hoje, desconfio que Socorro também fez coro. Botei minha vila saco, voltei para poltrona mais desconfiado que menino que faz traquinagem escondido. Fiquei surdo, mudo e cego durante o restante da viagem. A primeira vaia a gente nunca esquece, como diz o Sérgio Ricardo. UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU.
José Brito e Silva - Cartunista e publicitário
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O SENHOR TRAZ A CHÁVENA?
O gosto deste líquido quente, escuro, ora brilhoso ora fosco, que domina a boca e traz a sensação de prazer tem um alcance imenso, no espaço, no tempo e na vida. Quero falar de café, mas não tenho intenção de apresentar sua história, influência ou importância para o mundo nem particularmente para o nosso país, que por sinal tem muito o que contar a respeito. Apenas quero viajar no tempo e resgatar alguns momentos inesquecíveis do meu contato com esse companheiro, do qual cheguei a tomar umas trinta pequenas xícaras por dia em certa época.
As primeiras lembranças fortes do meu café vêm de Mata Grande, onde, com meus oito anos assistia dona Maria Sabiá torrar o café no caco para enviar a minha mãe. Era o café no seu estado mais natural e puro, com aquele cheiro que ainda circula tão forte em minha mente. Depois achava interessante aquele ritual nas casas que freqüentava em Natal, Tangará ou Nova Cruz, onde serviam o café em xícaras brancas decoradas com flores coloridas, o açucareiro ao lado, de onde se tirava aqueles grãos derivados da cana. Eram momentos únicos, de um tempo tão tranqüilo.
Naquela mesma época, lá por volta de 1966, fiz uma viagem de trem de Nova Cruz até Natal. Meu cunhado, Nivaldo Dantas, colocou-me, menino de treze anos, pela janela do vagão restaurante, para garantir melhor lugar. Ali saboreei, para não perder o costume, um café daqueles, cujo gosto dava prá aproveitar completamente, já que ainda estava longe de virar um fumante compulsivo. Hoje já faz mais de dez anos que deixei de fumar, quero apressar-me em explicar.
Ainda naquelas minhas manhãs frias da infância, via a colher de pau da minha avó, que mexia naquela bule, adoçando o café comprado na torrefação. De longe ouvia-se aquele som ritmado, forte e decidido, enquanto no ar passava o cheiro, tão inesquecível, tão marcante, da nossa saborosa refeição. Ah! Aquele sorriso quase tímido, da sertaneja que a tantos acolhia, aquela voz que ainda me ressoa, aquele olhar de rara confiança e o totó amarrando o cabelo.
Ali já estava sem jeito. Tinha toda curiosidade sobre o café São Luiz, onde ia comprar café moído na hora; o café Vencedor, ali na Avenida Dez da qual também temos tanta saudade, a exemplo de Babau com sua música; e tantos outros cafés que foram chegando e ocupando seus espaços. Até que chegamos no tempo das cafeterias.
Lembro bem que o primeiro café expresso que realmente me atraiu completamente – apesar daqueles quiosques dos shoppings – foi o cafezinho da Casa do Pão de Queijo do Carrefour. Sempre no ponto, aquele estabelecimento faz por onde receber a certificação de qualidade, pois o café servido tem de estar na temperatura padrão. Para não deixar passar outras coisas boas, chego a provar vez por outra o café de outros lugares, mas nenhum ainda me convenceu.
Quando puder tomarei com mais freqüência um cafezinho de Stuttgart, ali atrás do Kauf Hof Bat Cannstatt. Mas a última experiência forte que tive ao tomar café foi naquela viagem a Lisboa, ano passado. Fui tomar um cafezinho numa cafeteria do Shopping Colombo. Ainda meio tonto com a velocidade da fala dos portugueses, pedi um cafezinho e paguei. No momento apenas uma moça (rapariga, no caso, já que estávamos lá) bela e atenciosa, inagou: “Você traz a chávena?”. Não entendi. Graça, minha mulher, sempre acudindo, lembrou das suas aulas de culinária, entendeu e respondeu por mim: “traz.” Ainda sem entender, fui sentar olhando aquela bela movimentação. Aí esclareci imediatamente. “O que foi que ela parguntou?” – indaguei. E Graça, em meio àquela cena idiomática engraçada, me explica o que é chávena. Nada mais, nada menos que a xícara.
Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br
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Music for Dogs
Certa vez mandei um bilhete para meu amigo caba da peste Cid Augusto, então editor do bravio jornal O Mossoroense. Com a generosidade que só os puros de alma e os poetas têm e, tanto lhe é peculiar, ele resolveu publicar.
No “biêti”, como diz Vovó (funcionário do jornal O Mossoroense que ajudou Gutenberg a imprimir a primeira Bíblia), falava do dia que fui à Casa do Criador, lá em Mossoró, comprar um CD de músicas para minha cachorra vira-lata Baleia e, sem querer provoquei o maior cú-de-burro. O vendedor achou estranho meu pedido, pensei que o sujeito estava me gozando ou me discriminando. Eu com cara de pobre, cabelo de pobre, roupa de pobre, fala de pobre, carro de pobre, com uma cadela com nome de pobre e pobre, pensei: “este fi d’uma égua rampeira tá com preconceito, dito já meus direitos constitucionais pra ele”. Com calma de monge tibetano o paciente vendedor me fez entender.
- Senhor essa música “só as cachorras, as popozudas...” não é música canina. Isto é o Funk das Popozudas, o novo hits do momento. Cantou o balconista.
Com cara de boi lambido pedi desculpas ao cabra, botei o rabo entre as pernas e sartei fora.
Alguns dezembros depois, olhando figuras na internet descobri uma notícia que deixou meu ego mais inflado que o bucho do Ronaldo Fenômeno. Descobri que não estava muito errado em procurar música para cachorro, estava no tempo errado, isto nos anos 90 era mesmo impossível e talvez naquela ocasião eu só estivesse usando meus dotes herdados de Mãe Diná.
Lula diz que “nóis” se sentia como povo de segunda classe, sem auto-estima, só dava valor ao que vinha de fora. Eu ainda me sinto de terceira, ah! me sinto sim. Ainda não estou preparado pra enfrentar os “poderosos”. Não sei se é porque me cortaram do Bolsa Família, mas ainda não tenho coragem de encarar a gringada olho no olho. Aqui no Brasil a gente ainda faz as coisas com muitos arrudeios, muitas voltas, ainda somos cheios de nove horas, muitos nós pelas costas nunca vamos direto ao ponto G.
Nos anos 90, um intelectual fez uma música (como disse aquele ministro que cachorro também é gente) que pensei ser para os caninos, não era. O Funk das Cachorras é uma homenagem as meninas da favela onde o músico morava. Agora veja isto: Music for dogs. Sentiu o drama?
O Music For Dogs é um concerto com duração de vinte minutos escrito pela performática Laurie Anderson, mãe da música eletrônica. Segundo a artista a inspiração veio de sua cadela Lollabelle, que não agüentava mais ouvir o falcão cantar “I me not dog no” e pediu-lhe que criasse uma opereta de câmara. A cachorrada que late em inglês se deu bem com um show nas dependências externas do Sidney Opera House, em Sidney, na Autrália. A música para cachorros foi tocada em freqüências audíveis aos cultos zuvidos da platéia canina.
Viu aí Lula? Diga se num é pra gente se sentir de terceira? Enquanto por lá eles latem Music For Dogs, por essas bandas obrigo Baleia a ouvir Waldick Soriano cantar “Eu não sou cachorro não”. Quem nasce pra vira-lata nunca chega a Dólar. Né Não?
José Brito e Silva - Cartunista e publicitário
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Mate um nordestino
Difícil compreender a humanidade. Mesmo o cronista, devotada à observação das pessoas, sente dificuldade em decifrar certas criaturas. A estudante de Direito Mayara Petruso complica essa tarefa ao alardear a ideia de que nós, nordestinos, não somos gente e que devemos ser afogados para o bem de São Paulo. Tudo porque, no entendimento dela, o Nordeste elegeu Dilma Rousseff (PT) presidenta.
As seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Pernambuco e do Ceará querem que a moça responda pelos crimes de racismo e de incitação ao crime. A OAB de São Paulo, onde a dita cuja se inscreverá, caso termine o curso e passe no exame específico para aquele fim, endossa o pleito das coirmãs, afirmando que não se pode tolerar racismo, xenofobia, preconceito nem intolerância.
Mais importante do que as opiniões institucionais é a reprovação social a gestos medonhos dessa natureza. Os brasileiros, exceto os partidários do neonazismo, repudiaram em peso a atitude. Daí, acossada por críticas oriundas de todos os recantos do País, a própria autora apagou as mensagens ofensivas, que estavam no Twitter e no Facebook, excluindo seus perfis dos brinquedos virtuais da moda.
Pobre moça que nos odeia sem ao menos conhecer-nos. Talvez até seja descendente de um de nós e se afogue conosco na limpeza étnica sugerida. Francamente, sinto muita pena, porque na juventude todos cometemos erros e alguns nos marcam para a vida inteira. Quando amadurecer, Mayara Petruso ainda carregará no rosto, como que tatuado na testa a ferro e fogo, o eco das palavras irrefletidas.
Sou nordestino da cabeça chata, do pé rachado e de sotaque carregado, nascido no sertão de Mossoró-RN à margem setentrional de um rio seco. Votei em Dilma nos dois turnos, sem medo de ser feliz nem de ser assassinado por lunáticos separatistas. Gosto de São Paulo, onde estive por várias vezes; de sua noite, que sacia meus desejos; e de seu povo, que sempre me acolheu com todo carinho.
Não mudo de opinião nem que a jovem “tucana” ou qualquer outra criatura de mentalidade xenófoba volte a escrever baboseiras, afirmando que devo ser morto por minha origem e meu pensamento político. Essa gente faz parte de uma minoria que se nutre de raivas idealizadas, sem perceber que, assim como diz o poeta Jorge Luís Borges, odiar alguém é se tornar “de algum modo o seu escravo”.
Cid Augusto - Jornalista e poeta
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Danni Carlos de calcinha
Dizem que é melhor matar o homem, que trocar seu nome. Prefiro a segunda hipótese. Troquem, mudem, confundam desde que me deixem vivinho da Silva. já fizeram isso comigo mais de uma centena de vezes: Brito com dois Tês, Brito Guerra, Brito da Silva, Brito Júnior entre outros menos ou mais abaitolados e pornofônicos proibidos para menores de 18 anos.
Fui convidado pelo professor de informática Alexsandro Dantas de Araújo Silva, para fazer uma palestra sobre Animações em Flash, por ocasião do DESIGN DAY. Ao chegar à escola trupiquei com meu nome no cartaz grafado como Britto Júnior. Fiquei bufando, virei bicho, rodei a baiana, minha porção Incrível Hulk esbrugalhou à pele, estava quase navegando na “onda do elefante cor de rosa” quando Socorro me obrigou a sossegar o facho. Porra, escreveram Brito com dois tês e ainda colocaram o Júnior. Nada contra os dois tês, apesar de achar meio “mamãe tô com frio”, mas cada um tem o “T” que pode carregar. Além do mais sou nordestino e não gaúcho. Vôts.
Esta é a segunda vez que sou confundido com o apresentador da Record, Britto Júnior (este sim é com dois tês e gaúcho). Na primeira edição do reality show A Fazenda, o pai da Danny Carlos também misturou alhos com bugalhos. Crente e abafando que eu era o humorista e apresentador Britto Júnior, o papai da Danni enviou toda vida pregressa da cantora para meu e-mail. Um baú esborrotando de fotos da cantante com o próprio, a mãe, os amigos, na rua, na chuva, na fazenda, em Miami Beach e na piscina. O que me chamou atenção e, talvez eu não fosse à pessoa que sou hoje, se não tivesse lido a frase escrita pela filósofa Danni Carlos, que agora compartilho com vocês, de graça. Juro pelo bispo. Aliás, espero que a Dilma também leia e assim conduza o Brasil para um “nunca antes na história desse País”. Ei-la: “Fui com a cara de Jesus, de Gandhi, de Buda, como fui com a cara de São Francisco. Me inspiro na vida deles”, diz a bela roqueira.
Cá pra nós: meus dois neurônios até hoje não chegaram a uma conclusão satisfatória sobre esta semelhança que leva tanta gente a me dar pelo Britto Júnior. Às vezes quero crer que sejam sádicos tirando “uma” com minha cara ou então amigos (da onça) tentando elevar minha auto-estima, que é nada mais nada menos do meu tope. Como não sou nenhum jogador de vôlei, eles fazem isso por caridade. Tento crer.
Resolvi abrir o jogo de uma vez por todas: juro por nossa-senhora-das-emissoras-de-tvs que não sou Britto Júnior, não ganho R$ 350.000,00 por mês, não trabalho da Record e não tenho trejeitos de gaúcho. Êpa, êpa, êpa, êpa... De uma coisa fiquem certos: sou o único cabeça-chata, comedor de camarão a ter fotos da Danni Carlos de calcinha, cedidas pelo próprio pai da beldade. Ora, eu sou é macho! Tchê.
José Brito e Silva - Cartunista e publicitário
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E daí?
“A vida é muito curta para ser pequena”
(Benjamim Disrael
É sempre a mesma história. Basta a Mega-Sena acumular para que os telefonemas não parem de tocar: “Edilson, já fez a sua fezinha?”. E a resposta não poderia ser diferente: “Claro que não. Já viu um raio cair duas vezes no mesmo lugar?! Minha ‘Mega-Sena’, eu tirei em 1994... Portanto, duvido que ganhe novamente”.
Pois é caro leitor, só conheço uma pessoa que ganha na Mega-Sena todos os dias, desde 1994, faça chuva ou faça sol: Viviane, minha esposa. Pense numa mulher de sorte. Pensou? Multiplique por mil e eleve a décima quinta potência, aí você terá o resultado de apenas 0,1% da sorte de Viviane.
Dizem que quem tem sorte nasce com “aquilo” virado para a lua, então, acredito que Viviane nasceu mesmo toda virada para a lua. Pois, não acredito que exista mulher mais sortuda do que ela.
Mas, a verdade é que nós dois temos sorte – ela muito mais do que eu, é claro... e muito dessa sorte vem do fato de termos um filho maravilhoso. Lucas é uma criança bela, tanto por fora (é a cara do pai), como por dentro. Não é à toa que o considero como o meu sensor anti-vaidade.
O ano era 2005. Estávamos nós três, em Recife. Eu e Viviane brindávamos a defesa de minha tese de doutorado em cirurgia, pela UFPE. Aí Lucas me saiu com essa: “O que vocês estão brindando?”; “Meu filho, seu pai é agora um Doutor de fato!”, respondi cheio de empáfia. Ele olhou-me com espanto e disse: “E daí ser um Doutor?! Você nem sabe falar japonês...”. As palavras de Lucas penetraram, como uma lâmina fria de um bisturi, cortando a catarata de minha alma, que teimava em me manter cego.
Por favor, caro leitor, não me condene. Entenda que como professor de uma instituição de ensino superior, não poderia ter tido um comportamento diferente, afinal, não é lá mesmo, nas universidades, que encontramos as maiores vaidades de vaidades?
Se você acha que o meu caso é único, veja o que aconteceu com o professor João Batista Pinheiro Cabral, quando lecionava na UnB. Certo dia, chegando ao Departamento de história, encontra em todas as portas as mais diversas placas de identificação: “Professor fulano de tal - PHD pela Harvard University; Professor beltrano - Doutor pela University Paris-Sorbonne, etc. etc.” Cada um que colocasse uma titulação maior. Então, o estimado conterrâneo nosso, para não ficar atrás, - já que ele tinha pós-doutorado-, resolveu também fazer a sua placa: “João Batista Pinheiro Cabral – A-L-F-A-B-E-T-I-Z-A-D-O”...
Pois é, meu caro leitor, as universidades estão cheias de “doutores”, mas que são completamente analfabetos para a vida (E o danado é que o MEC considera este aspecto – número de doutores – como o fator mais importante para pontuar uma escola de ensino superior, como excelente ou péssima. Ainda bem que Cristo, e nem Deus, quiseram ser pesquisadores do CNPq, pois seriam reprovados: o primeiro, por nunca ter escrito nada em revista Qualis A - parece nome de margarina, não é mesmo?; O segundo, por só ter uma publicação, a bíblia, e o MEC quer que o professor publique e muito, todos os anos. Coitado do Cervantes se fosse professor da Universidade Brasileira, teria que publicar um “Dom Quixote”, a cada dois anos...).
“Doutores”, preocupados com provas, notas, chamadas, etc. etc., mas, esquecem o que ensinava o magnífico Paulo Freire: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou sua construção... Quem ensina, aprende ao ensinar e quem aprende, ensina ao aprender”.
Portanto, ser professor é antes de tudo ser humilde - (Cristo, o mestre dos mestres, andou de jegue) – que não quer dizer subserviente-, mas sim, alguém capaz de aprender a aprender. “Quem se contamina com o vírus da auto-suficiência diminui a sua produção intelectual. Quem se embriaga com o orgulho está condenado a infantilidade emocional”.
Os romanos tanto sabiam disso - que o orgulho, a vaidade, a soberba eram sentimento extremamente danosos para os homens-, que quando um general retornava de uma dura batalha, com uma retumbante vitória, ele deixava o seu exército fora da cidade de Roma, subia numa biga (carro de combate com dois cavalos) e, dirigindo-se ao Senado, a cada quinhentas jardas, um escravo lhe soprava no ouvido: “lembra-te que és mortal!”... “lembra-te que és mortal!”...
Então é isso, caro leitor: mesmo com doutorado - e falando até japonês-, o homem nunca deixará de ser um cadáver adiado, como lembrava Fernando Pessoa.
Sorte minha – e mais ainda de Viviane -, ter o meu Lucas, para me ensinar que o buraco é mais em baixo.
Francisco Edilson Leite Pinto Junior - Professor, médico e escritor
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A vitória do riso
Quatros décadas depois, ainda na memória aquela frase marcante de Hermann Hesse, no magnífico Lobo da Estepe, para quem "... o humor é sempre um pouco burguês, embora o verdadeiro burguês seja incapaz de compreendê-lo". No Brasil, ao que parece, parafraseando Hesse, é possível dizer que o humor é um pouco vinculado à atividade política e aos políticos, embora estes, quando transvestidos de representantes do povo, detestam os humoristas e o humor que tem como matéria-prima políticos e atividade política. Por isto foi que, matreiramente, trouxeram a lume o inciso II, artigo 45, da Lei das Eleições (Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997), que atenta contra a liberdadede expressão quando proíbe as emissoras de rádio e televisão, na sua programação normal e noticiários, a partir de 1º de julho do ano das eleições, “usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação”. Sem dúvida um enorme retrocesso no conjunto das instituições democráticas nacionais. Ora, no inciso IX do artigo 5º da Constituição da República está expressa a garantia fundamental de que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença", que se choca inapelavelmente com aquele dispositivo constitucional.
Nem tudo, todavia, está perdido, pois ainda há juízes em Brasília. Sim, por decisão liminar do ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal (STF), foram liberadas, no último dia 26, as emissoras de rádio e televisão para fazer humor com os candidatos, partidos e coligações envolvidos nas eleições, tendo como pressuposto a inconstitucionalidade do referido inciso II, artigo 45, da Lei nº 9.504/97 que, pela decisão proferida, teve a sua eficácia suspensa imediatamente, até final julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adi) ajuizada pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). De quebra, o ministro Ayres Brito igualmente suspendeu, por vício de desconformidade com o espírito da Constituição, o dispositivo da mesma Lei nº 9.504/97 (inciso III, art. 45) que proíbe as emissoras de rádio e televisão, depois de 1º de julho do ano das eleições, “difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes”. Ambas disposições são incompatíveis com o princípio democrático, no qual se funda o Estado brasileiro.
Claro que o exercício legítimo da liberdade de expressão, na atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, a despeito de independer de censura ou licença de qualquer natureza, também tem limitações na própria Constituição que, no inciso X do artigo 5º, assegura que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação". Assim, quem se sentir agredido na sua imagem ou na sua honra, inclusive aqueles que são candidatos a postos eletivos, podem buscar judicialmente medidas que façam cessar a violação ou, se for o caso, promover a devida reparação. Absurdo mesmo é a censura velada ou explícita, o amordaçamento das emissoras da rádio e televisão. Esse filme triste para a democracia já foi visto neste país e os estragos que causou. O importante é acreditar que os diversos atores sociais - inclusive os humoristas - devem agir com responsabilidade, mesmo quando ácida for a crítica ou escrachado o deboche. O imprescindível é que sejam livres nossos pensamentos e suas expressões no mundo fenomênico. Liberae enim sunt cogitationes nostrae. Para lembrar as palavras de Cícero, em trecho de sua oração Pro Milone (29,79), sobre a liberdade de pensamento. E que o engenho, a arte e o riso sempre vençam a opressão e o obscurantismo.
Paulo Afonso Linhares - Jornalista e Jurista
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A cor da pele
Semana passada conheci um recenseador de verdade. Até então, só havia batido a porta gente querendo saber da administração de Micarla. A quem sempre respondia não sei, não vi nem muito menos ouvi.
Juro por nossa-senhoras-dos-linguarudos e dos políticos fichas-limpa que foi a primeira vez na vida que tive o prazer de estar diante de uma figura tão importante: sua excelência o recenseador. Pensei que ia morrer traumatizado sem ver um exemplar deste espécime.
Nunca antes na história deste país fui entrevistado por qualquer instituto de pesquisas. Traumatizado, buscava uma estratégia no livro a Arte do Marketing- versão do A Arte da Guerra, do famoso general chinês Sun Tzu-, capaz de convencer minha cunhada a dá sua poupança para usá-la numa consulta ao meu analista. Felizmente o IBGE curou-me do trauma, salvou-me de cometer o pecado capital de passar a mão na poupança de minha cunhada.
Perguntas, perguntas e mais perguntas. Pensei com meus botões ou esse sujeito é mermo do CENSO ou é algum espião, um detetive particular a mando de alguém querendo pensão alimentícia.
Caminhava agradável a inquisição até o momento que o cabra quis saber minha raça. Virei macho, fiquei bufando. Respondi-lhe com devida contundência de um ofendido: “posso não parecer com Brad Pett, o Luan Santana nem muito menos tenho o rosto do Justin Bieber (aquele americano que não sabe se vai ou se fica, entende?), mas juro por Deus que quando nasci o médico atestou que eu era gente, portanto da raça humana”. Não contente o salafrário ainda tentou justificar dizendo que eu não tinha entendido, ele só queria saber a cor da minha pele. Aí o cú-de-burro aumento, parti pra cima com gosto de gás, ia parti-lo ao meio, ia dar-lhe um bufete no meio do cocuruto que o osso do pescoço iria tapar a tripa gaiteira do infeliz. Socorro ouvido o furdunço veio acudi-lo com um refrescante suco de limão e um cafezinho mais forte que sangue de percevejo.
Ânimos calmos (meus), o rapaz educadamente me deu uma aula de história, geografia e biologia, falou-me de genética, de nossa miscigenação e da diversidade de pigmentação em nossa pele, da melanina et cetera e tal. Por fim, leu o cardápio de cores e perguntou qual daquelas eu carregava sobre o couro. Como num truque de mágica do Mister M, me transportei ao passado, lembrei dos amigos de infância que quando ficavam aborrecidos me chamavam de...
...Seu Brito, seu Brito e então? Qual dessas cores marco? Aportou-me o recenseador.
- Amarelo cor de merda não, me respeite! Gritei
O empregado do Lula se mandou.
José Brito e Silva - Cartunista e publicitario
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Aprenda a chamar a polícia...
Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não
fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranqüilamente.
Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa.
Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por
perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.
Um minuto depois, liguei de novo e disse com a voz calma:
— Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!
Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.
Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.
No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
— Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.
Eu respondi:
— Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.
Luís Fernando Veríssimo
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Desespero de mãe
A avenida Rio Branco fervilhava de gente naquela manhã abafada, enquanto a hora fluía no rumo do almoço. Aflita em meio ao monte de problemas que enfrentava, Joana seguia em busca do seu futuro, com a filha novinha, Fátima, no braço. Era uma mulher jovem, com seus vinte e cinco anos, mas já muito marcada pela trajetória de vida sofrida, desde que saiu do interior, em busca de melhores dias, e se viu desabrigada pelas ruas da cidade grande, na flor da idade, com seus dezesseis anos. Viveu nas calçadas, dormindo ao relento, debaixo de papelões, e passou por todas as agressões, violências, privaçõese humilhações daquela vida. O companheiro que arranjara a deixou abandonada num quartinho de fundos, sem emprego, sem renda e endividada. Mesmo assim queria organizar aquela vida, em favor da filha, que passara a ser a sua maior razão de viver. Seu rosto, de beleza escondida pela falta de cuidados, mostrava, mesmo assim, uns traços que, outra sorte tivesse, estaria mundo afora em alguma passarela. E Fátima, a filhinha, talvez até figurasse em meio àqueles bebês das revistas especializadas. No entanto, a cada hora chorava de fome. O suor descia naquela semblante entristecido, enquanto seu olhar percorria a fachada dos grandes edifícios, em busca da repartição onde sonhava encontrar um lugar para morar, oferecido pela prefeitura. Amava a terra onde nasceu, mas uma seca a deixara na orfandade. Não estudou, embora tivesse adquirido uma visão natural do mundo, capaz de fazê-la consciente de direitos e deveres individuais e sociais. Além de aspirar um dia um cantinho para morar, no qual pudesse cuidar da família, onde tivesse o que comer e cultivasse algumas plantas. Havia cuidado de um pedacinho de roça e guardava consigo as imagens coloridas das roseiras. Ficava feliz sempre que sentia o cheiro da terra molhada e das plantas manipuladas pelos jardineiros, nas casas e nos canteiros da cidade. Esboçando a sua revolta com a própria miséria, chega ao birô no qual os funcionários demonstram solidariedade e interesse em resolver seu problema. Coisa comum
em serviços públicos, mas o que chega ao público normalmente são as reações dos que
atendem mal, o que não era o caso. É informada de que estão esgotadas as ofertas.
Desesperada, com a filhinha no braço, chora e faz um último apelo por uma casa própria.
Ao seu lado, uma mulher é contemplada e outra fica à espera. Joana segue com a filha pela calçada, enquanto na rua o trânsito flui loucamente naquela ambiente, caos crescente, de cidade grande. Mal sai para a rua, chega a notícia de que duas novas casas foram garantidas: uma para a mulher que ficara esperando e outra para aquela que se inscrevera naquela hora. O funcionário sai para chamar a pretendente e dar-lhe a boa notícia. Não consegue, porque Joana já havia se jogado debaixo de um carro com a filhinha. Era 21 de agosto; dia da habitação.
Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br
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No cabaré, com Cabrito
As putas ficaram putas – pensei lá com meus botões, enquanto assistia ao show de Cabrito, sábado passado, dia do trabalho e do trabalhador – e nada mais justo que comemorar a data junto às meninas da mais antiga profissão do mundo.Mas estou me adiantando, botando o carro na frente dos bois – ou das vacas, galinhas, tal, só pra manter o clima rural e machista –, chegando a uma conclusão à qual não poderia atinar apenas lendo o convite, manifesto, panfleto, dépliant, email, enfim, que me chegou virtualmente ainda idos de abril e que descrevia o artista como um “supersucesso”, com composições “conhecidas por jovens de todo o país e até na Europa e nos Estados Unidos”Como assim? Cabrito, aquele do Sebo Vermelho e do Beco da Lama?
Nenhum preconceito, crianças: que o cabra era um letrista fescenino e dos bons já sabiam as traças do sebo de Abimael e as baratas do beco, mas que tinha essa legião de fãs, só assistindo ao show, primeiro, único e imperdível, intitulado – comedidamente, como se verá – Neste o trabalhador goza.
O público, mais para estudante universitário do que working class hero, gozou, com certeza. Antes de o show começar, já lotavam a calçada, a rua quase insuspeita e as mesas do carrinho de lanches da esquina onde se ubíqua o Veros Bar, BR-101, “atrás do Sam’s Club”. Nove entre dez eram homens, todos na faixa da vacinação contra a H1N1, perfil classe média, camisa arrochadinha e musclinhos saltitantes.
Na entrada, enquanto a bilheteria improvisada preparava o troco – dez real o ingresso, com direito ao CD Os nominhos que ela tem – uma loira estalava um sonoro tapa com a mão aberta nas ventas de um que, suponho, passou-lhe a mão na bunda, mal coberta (ou bem descoberta) por um minúsculo short branco. Embora as moças “das elite” nativa gostem de se exibir nos bares da moda com a mesma indumentária, não dava pra confundir: aquela era uma legítima Puta com pê maiúsculo e outras hipérboles, todas mui graciosas, devo confessar. E pra entrar no clima do show, sem meias-palavras, assumo: eu comia, sim, com muito gosto.
Pois bem, eis cá, sétimo parágrafo, as putas do primeiro: deu pra contar umas dez, entre comíveis e não comíveis, que o Veros é lugar de responsa.
A turma do Beco, pra minha surpresa, era minoria. Os boys, já falei, aumentavam em número, gritos e animação e eu percebi definitivamente que havia algo estranho no ar quando os aplausos com a entrada de Cabrito e banda superaram em muito a saída da loira platinada que fez o clássico strip-tease minutos antes.
Pra resumir, os versinhos abaixo foram todos cantados em uníssono pelos rapazes e por quase todas as moças (força de expressão) do recinto, também:
Eu queria ser vaqueiro/ Do gado da minha tia/ Só pra poder ficar brechando/ Minha prima todo dia/ Ela só caga de coca/ Em cima de um jirau/ E também só limpa o cu/ Com um pedaço de pau [A cagada da minha prima]
Quando cheguei na casa dela/ Eu descobri que tinha outro em meu lugar/ O ricardão tava chupando seu tabaco/ Na cama nova que eu comprei pra nós casar/ O negão era aloprado/ Meteu a pomba na priquita da neguinha/ A sua espada tava toda na bainha/ E a rapariga ainda ficou querendo mais/ Eu não caso com você/ Você tá toda arrombada/ A minha pomba é pequena e bem fininha/ E comparada com a do nego não é nada [Corno pescada]
Eu vou botar meia sola no pau/ Eu quero é cair na putaria/ Na festa do Carnatal/ Comer dois priquitos todo dia [Meia sola]
Papai tinha uma cabrita/ O nome dela era Fulô/ Foi minha primeira foda/ Foi o meu primeiro amor/ Os meninos da fazenda chafurdavam em seu priquito/ E por mais me apelidaram/ Com esse nome de Cabrito [Minha história]
Mulher malvada é a Zefinha/ Que chupa rola/ Não chupa a minha/ Interesseira, dá o furico/ Só quer fuder com homem rico [Reggae safado]
Te conheci na Romualdo/ Chupei seus peitos na Prudente/ No Machadinho eu lambi o seu pinguelinho quente/ Quando voltei à passarela meu pau levantou de novo/ Mas não encontrei você no meio daquele povo [Carnatal]
Tempero de buceta é rola/ Disse o poeta do Assu/ A buceta fede tanto/ Porque mora perto do cu [Sacanear]
Nossa. Até eu, como diz uma amiga, rubrei, copiando esses versos. Mas, vos asseguro, tem coisa pior: uma mistura de Pasolini com Marquês de Sade e pitadinhas de Pierre Louys (vamos intelectualizar a putaria), tudo transposto pro sertão do Caicó, de onde, pelo que percebi, vinha a maioria da plebe mais alvoroçada – explica-se: Cabrito é convidado especial e freqüente do carnaval caicoense, puxando o bloco “Eu quero é gozar”.
Da metade em diante do show, o “palco” foi tomado por rapazes com mais testosterona que álcool nas veias. Um deles ainda se agarrou numa pilastra, as mãos e as pernas simulando um coito vertical.
Depois, todos pra casa, correndo, que o lance estava mais pra sexo oral ou auditivo, mesmo, todos fãs do supersucesso e suas letras impudicas.
Daí eu concluir que as raparigas (stricto sensu) ficaram pês da vida.
Mas o show foi do caralho.
Mário Ivo - Escritor
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A cura indesejada
“Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure”
(Vinícius de Morais)
Penso que São Paulo se equivocou ao dizer que o amor tudo crê, tudo espera e tudo suporta. Não é bem assim. Afinal, o amor, como alertava Drummond, é bicho instruído. Portanto, ele pode pular o muro, subir na árvore em tempo de se estrepar: “Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que escore do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca/ às vezes sara amanhã”.
E o danado é que às vezes sara mesmo. Mas, e o amor é doença para sarar? Claro que é. Se não fosse, Camões não teria dito: “Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente”.
Padre Antônio Vieira (duvido que alguém escreva melhor do que ele) também considerava o amor uma doença - que deveria ser incurável, mas, infelizmente, tem cura. E quais são os remédios do amor, segundo Padre Vieira? São apenas quatro, mas com um poder de curar extremamente potente...
O primeiro remédio é o tempo. Por isso que Cupido, deus do amor, é pintado como criança, pois “não há amor tão robusto que chegue a ser velho”. O passar das horas faz com que as flechas de Cupido percam a potência; que o amor que é cego passe a enxergar; que suas asas cresçam e ele voe para bem longe... o tempo gasta o ferro com o uso, diz Vieira, que dirá o amor! “O tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto...”.
O segundo remédio, para curar o amor, é a ausência. Ora, se com a proximidade as flechas de Cupido correm o risco de não nos atingirem, que dirá com a distância... “A ausência tem os efeitos da morte: aparta, e depois esfria... tudo esquecido, tudo frieza”. E o fogo que arde sem se ver, com a distância, vira um deserto polar.
O terceiro remédio é ainda muito mais poderoso do que os dois anteriores. O seu poder de ação é quase instantâneo: a ingratidão é mortal para o amor. “Se o tempo tira do amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo”. E o danado é que só os amigos são ingratos. Era por isso que Nelson Rodrigues dizia que “só os inimigos são fiéis”, já que estes nunca serão ingratos e nem nos trairão. Não foi a toa que Cristo se queixava de que semeando grandes benefícios nos corações dos homens, se colhia maiores ingratidões...
Por fim, se o amor foi capaz de resistir até aqui - embora duvido que exista amor que consiga vencer: o tempo, a ausência e a ingratidão-, chegou a vez do mais eficaz de todos os remédios, o que até hoje, ninguém deixou de sarar: o melhorar de objeto, que nada mais é do que conseguir um outro amor. “Dizem que um amor com um outro se paga”, alerta Vieira, “mas o certo é que um amor com um outro se apaga”... as estrelas conseguem brilhar nas trevas, no entanto, numa luz ainda maior que é o Sol, elas desaparecem, deixam de brilhar...
Infelizmente, o mundo está se curando do amor. Hoje, os relacionamentos são pelos celulares e internet, ou seja, ausentes e distantes. E com o passar do tempo serão tão frios que as terminações nervosas, que os unem, ficarão anestesiadas, e “o amor que não é intenso”, adverte Vieira, “não é amor”... Triste humanidade que não consegue debelar um vírus de uma gripe suína, mas que é extremamente “competente” para destruir o vírus do amor...
Francisco Edilson Leite Pinto Junior - Professor, médico e escritor
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A cura desejada
Com minha ignorância polida, esmerilada, devidamente materializada pelo Certificado do primário do Mobral - Movimento Brasileiro de Alfabetização -, que com a devida simetria entre o teto e o piso enfeita a parede do lado direito do meu escritório.
Com esse salvo-conduto mobraliano e as bênçãos de nossa senhora dos poucos neurônios segui usando a habilidade de um açougueiro, a sutileza de um elefante numa loja de cristais, a frieza de um desossador e com firmeza e precisão de um neuro cirurgião arvorei-me em minha busca do meu santo graal. Procura vã, inutilmente inútil.Tentei dissecar cada parágrafo, cada sentença, cada oração, cada frase, cada letra e cada sílaba, nas entrelinhas. Buscando o sentido, o objetivo, a causa que levou meu amigo Francisco Edilson Pinto escrever “Cura Indesejada”. Cansado, exausto, desisti. Meus neurônios miravam a festa de Momo.
Cinco horas da tarde, calcei meu tênis Nike do alecrim, minha camisa da Adiddas da 25 de março e meu calção da Cyclone. Aqueci-me, voluntariamente sob livre espontânea pressão de Socorro, dirigi-me à caminhada rotineira de final de tarde. Na metade da ladeira do sol, encontrei meu amigo Delegado, “porteiro e filósofo”, me fitando perguntou o que estava havendo comigo. Constrangido não quis responde-lo.
Meu bom amigo, para me dá uma força, teve uma boa idéia, (afinal, amigo é pra essas coisas,) convidou-me para tomar uma meiota, resisti uma eternidade: 2 segundos.
O mundo girando sobre nossas cabeças e, nós ali, naquele final de tarde tomando cachaça e discutindo futebol. Se o espírito não engana e a verdade não me mente ainda tínhamos tempo para filosofar: “Mais vale uma pinga no bucho que um canavial inteiro no terreno alheio”, sabiamente assim falou Delegado (porteiro e filósofo).
Entre um gole e outro, um espetinho, um punhado de farinha seca e lá surgia a causa de minha angústia: a razão do texto do Dr. Edlson Pinto, a moral da história.
Como um corisco, meu amigo num cochilo quase se estabacando no chão deu um pulo por cima da ligeireza, ficou de pé olhando-me firmemente pediu para eu lê o texto. Com ar zombeteiro perguntou para qual time meu amigo torcia. respondi usando linguagem de sinais) F-L-A-M-E-N-G-O. O cabra arreganhou os dentes num sorriso de deixar Gal Costa com vergonha, sapecou:
Cumpadi Brito, tu tá abestado mermo. Esse seu amigo aí não é mais Framengo ele alinhavou tudo bunitin nesse papel, só pra dizer num ama mais Framengo e tá procurando um novo amô. Falou e disse Delegado.
Como campeões da Taça Guanabara, nós botafoguenses estamos de braços e peito abertos para recebê-lo. Afinal, como dizem por aí: amigo é pra essas coisas. Saudações alvinegras meu bom Edilson Pinto.
José Brito e Silva - Publicitário e cartunista
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Boite Star
Hoje, 11 de agosto, de 2009, escascaviando meu baú de memórias, dei de cara com uma história já empoeirada, com vestígios de teia de aranha, algumas cenas sem muita nitidez, amareladas, outras corroídas, bolorentas pelo implacável tempo. Bati-lhe o pó, hei-lha:
Lá pelos idos dos anos 80, todas às sextas-feiras era prego batido e ponta virada: eu, Laércio Eugênio, Sandro, Marcelino, Galdino, Júnior Barba e Marcos Papel fazíamos motim, numa tentativa de avexar o editor, (Nilo Santos/Kléber Barros) no fechamento da capa do jornal Gazeta do Oeste. A estas alturas, nossas solitárias já estavam de bico aberto, pedindo desesperadamente uma dose de cana, devidamente acompanhada de um bom e suculento prato de mão-de-vaca, lá do Ponto Frio.
Em passos de tartaruga, com zelo metódico que lhe era peculiar, o velho Kléber (in memória) entregava a capa do jornal, na velocidade da luz, as palavras que podiam mudar opiniões, rumos políticos, sociais ou apenas informar o placar do jogo Barrigudos da Gazeta x Pingunços da Astecam, passavam por minha sala, sem a maior importância, rumo ao laboratório de fotolito. Enquanto o “cão” esfregava o zóio, nós, no mínimo, já tínhamos bebido umas 10 de meiotas. Chovesse ou fizesse lua, nossa pontualidade era inglesa: Ponto Frio-O Sujeito, O Sujeito-Ponto Frio.
Num belo, 20 de julho, dia do meu aniversário, soubemos de um “inferninho”, chamado Boite Star, que seria inaugurado, lá pras bandas do Alto de São Manoel. A caninga foi tão grande que o Nilão (Nilo Santos) não agüentou, decidiu fazer a capa, estilo jornal europeu: uma foto ocupando toda metade superior da página, uma manchete com letras garrafais e duas ou três manchetinhas. Pé na tabúa, lá fomos nós.
Gente saindo pelo ladrão, em frente a “boiti”, mundiça toda reunida, hora de enfrentar o porteiro. Laércio Eugênio Cavalcanti encabeça a lista indiana, dá uma carteirada: “imprensa”. O porteiro pega a carteira põe na mão espalmada e aperta com a outra:
- Pronto, imprensei. Agora, a bilheteria é daquele lado! Diz o sujeito com o poder de um soldado, pensando ser coronel.
- Amigo, eu trabalho na Gazeta do Oeste, sou da imprensa! Argumenta o teimoso Laércio.
- Eu trabalho no Brasão e hoje sou porteiro dessa boiti! – Disse o porteiro zombando.
Sem saída, tivemos que gastar nosso rico dinheiro com os ingressos. Corriola junta, feito a cota, a soma não dava nem pra tomar um burrin com coca-cola. Cambada meia desanimada, quando Laércio Eugênio Cavalcanti chama o garçom, manda juntar três mesas, se senta na cabeceira e pergunta se tem cerveja gelada, afirmativamente o prestativo senhor responde que sim:
- Então, bote cerveja como quem bota milho pra jumento, hoje eu pago. Disse o endinheirado Laércio!
O garçom escancarou uma risada de orelha-a-orelha, olhando aquela ruma de papudim, pensou em se dá bem.
Entre uma beiçada e outra saíamos a “caça” de uma “lebre” para balançar o esqueleto. Laércio em uma dessas arrudiadas, em torno do salão, viu um casal encangado no canto da parede, num “sarro” que não passava um fio de cabelo entre os dois:
- Com licença. Disse Laércio Eugênio, batendo nas costa do rapaz.
- Que é isso bicho, cê é doido? Num tá vendo que a gente tá namorado? Falou o incrédulo rapaz.
- Tô vendo sim. Eu só quero dançar com sua namorada! – Insiste Laércio.
- Ô bicho, assim vou ter lhe que dar umas porradas, tu tá abusando! – Disse o valentão.
- Eu não quero briga. Só quero dançar com sua namorada – Persistiu Laércio Eugênio Cavalcanti.
Fuzuê formado, a turma do deixa-disso entra em ação, a paz volta a reinar novamente.
O Garçom pegando piaba num canto, em um desses cochilos cai da cadeira, com cara de pouco amigos, diz não ter mais bebida. Laércio Eugênio Cavalcanti pede a conta, prontamente atendido pelo dono do estabelecimento.
- Aqui, deu R$ 500,00, vai pagar em cheque ou dinheiro? – Indagou o prestativo senhor.
- Em dinheiro! Tome R$ 5,00 depois eu pago resto – Falou o liso Laércio Eugênio Cavalcanti.
- É o quê seu cabra safado? Ou paga tim tim por tim tim ou leva uma camada de pau, depois mando todos vocês pro xilindró. Ameaçou o dono da boate.
Neste momento chega Abel Rodrigues (irmão do Advogado Olímpio Rodrigues) acalma o dono do estabelecimento, se comprometendo em pagar a devida e dividida dívida, logo à tardinha. Garçons, seguranças e até o cozinheiro, já estavam em prontos pra arriar umas boas cipoadas nos boêmios. Fomos salvos pelo hetero Abel.
José Brito e Silva - Publicitário e Cartunista
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