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10/09/08

20/08/10

A cor da pele


Semana passada conheci um recenseador de verdade. Até então, só havia batido a porta gente querendo saber da administração de Micarla.  A quem sempre respondia não sei, não vi nem muito menos ouvi.
Juro por nossa-senhora-dos-linguarudos e dos políticos fichas-limpa que foi a primeira vez na vida que tive o prazer de estar com uma figura tão importante: sua excelência o recenseador. Pensei que ia morrer traumatizado sem ver um exemplar deste espécime.
Nunca antes na história deste país fui entrevistado por qualquer instituto de pesquisas. Traumatizado, buscava uma estratégia no livro a Arte do Marketing- versão do A Arte da Guerra, do famoso general chinês Sun Tzu-, capaz de convencer minha cunhada

a dá sua poupança para usá-la numa consulta ao meu analista. Felizmente o IBGE curou-me do trauma, salvou-me de cometer o pecado capital de passar a mão na poupança de minha cunhada.
Perguntas, perguntas e mais perguntas. Pensei com meus botões ou esse sujeito é mermo do CENSO ou é algum espião, um detetive particular a mando de alguém querendo pensão alimentícia.  Caminhava agradável a inquisição até o momento que o cabra quis saber minha raça. Virei macho, fiquei bufando. Respondi-lhe com devida contundência de um ofendido: “posso não parecer com Brad Pett, o Luan Santana nem muito menos tenho o rosto do Justin Bieber (aquele americano que não sabe se vai ou se fica, entende?), mas juro por Deus que quando nasci o médico atestou que eu era gente, portanto da raça humana”. Não contente o salafrário ainda tentou justificar dizendo que eu não tinha entendido, ele só queria saber a cor da minha pele.  Aí o cú-de-burro aumentou, parti pra cima com gosto de gás, ia parti-lo ao meio, ia dar-lhe um bufete no alto da sinagoga, no meio do cocuruto que o osso do pescoço iria tapar a tripa gaiteira do infeliz. Socorro ouvido o furdunço veio acudi-lo com um refrescante suco de limão e um cafezinho mais forte que sangue de percevejo que deixa os nervos do sujeito tinindo.
Ânimos calmos (meus), o rapaz educadamente me deu uma aula de história, geografia e biologia. Falou-me de genética, de nossa miscigenação e da diversidade de pigmentação em nossa pele, da melanina et cetera e tal. Por fim, leu o cardápio de cores e perguntou qual daquelas eu carregava sobre o couro. Como num truque de mágica do Mister M, me transportei ao passado, lembrei dos amigos de infância que quando ficavam aborrecidos me chamavam de...

...Seu Brito, seu Brito e então? Qual dessas cores marco? Aportou-me o recenseador.

- Amarelo cor de merda não, me respeite! Gritei.

O empregado do Lula se mandou.

José Brito e Silva - Publicitário e cartunista

20/08/10

DESEPERO DE MÃE

A avenida Rio Branco fervilhava de gente naquela manhã abafada, enquanto a hora fluía no rumo do almoço. Aflita em meio ao monte de problemas que enfrentava, Joana seguia em busca do seu futuro, com a filha novinha, Fátima, no braço. Era uma mulher jovem, com seus vinte e cinco anos, mas já muito marcada pela trajetória de vida sofrida, desde que saiu do interior, em busca de melhores dias, e se viu desabrigada pelas ruas da cidade grande, na flor da idade, com seus dezesseis anos. Viveu nas calçadas, dormindo ao relento, debaixo de papelões, e passou por todas as agressões, violências, privaçõese humilhações daquela vida. O companheiro que arranjara a deixou abandonada num quartinho de fundos, sem emprego, sem renda e endividada. Mesmo assim queria organizar aquela vida, em favor da filha, que passara a ser a sua maior razão de viver. Seu rosto, de beleza escondida pela falta de cuidados, mostrava, mesmo assim, uns traços que, outra sorte tivesse, estaria mundo afora em alguma passarela. E Fátima, a filhinha, talvez até figurasse em meio àqueles bebês das revistas especializadas. No entanto, a cada hora chorava de fome. O suor descia naquela semblante entristecido, enquanto seu olhar percorria a fachada dos grandes edifícios, em busca da repartição onde sonhava encontrar um lugar para morar, oferecido pela prefeitura. Amava a terra onde nasceu, mas uma seca a deixara na orfandade. Não estudou, embora tivesse adquirido uma visão natural do mundo, capaz de fazê-la consciente de direitos e deveres individuais e sociais. Além de aspirar um dia um cantinho para morar, no qual pudesse cuidar da família, onde tivesse o que comer e cultivasse algumas plantas. Havia cuidado de um pedacinho de roça e guardava consigo as imagens coloridas das roseiras. Ficava feliz sempre que sentia o cheiro da terra molhada e das plantas manipuladas pelos jardineiros, nas casas e nos canteiros da cidade. Esboçando a sua revolta com a própria miséria, chega ao birô no qual os funcionários demonstram solidariedade e interesse em resolver seu problema. Coisa comum
em serviços públicos, mas o que chega ao público normalmente são as reações dos que
atendem mal, o que não era o caso. É informada de que estão esgotadas as ofertas.
Desesperada, com a filhinha no braço, chora e faz um último apelo por uma casa própria.
Ao seu lado, uma mulher é contemplada e outra fica à espera. Joana segue com a filha pela calçada, enquanto na rua o trânsito flui loucamente naquela ambiente, caos crescente, de cidade grande. Mal sai para a rua, chega a notícia de que duas novas casas foram garantidas: uma para a mulher que ficara esperando e outra para aquela que se inscrevera naquela hora. O funcionário sai para chamar a pretendente e dar-lhe a boa notícia. Não consegue, porque Joana já havia se jogado debaixo de um carro com a filhinha. Era 21 de agosto; dia da habitação.

Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br

29/07/10

Esperando a morte, em nome da ética?

O Código de Ética Médica do Brasil entrou em vigor no dia 13 de abril deste ano e ao completar quatro meses deve ser usado em julgamento da mais alta importância para a medicina brasileira. Neste 13 de agosto deve sair uma decisão sobre o processo ético
profissional no qual o Dr. Luiz Moura, médico de 85 anos, com 60 de exercício de um verdadeiro sacerdócio, é acusado de divulgar a auto-hemoterapia. Trata-se de um procedimento que tem mais de 150 anos de uso no mundo inteiro e do qual só se tem
referências boas, mas que depois da divulgação o CFM resolveu dizer, em parecer incompleto, que não teria comprovação científica. A auto-hemoterapia eleva a imunidade da pessoa em quatro vezes.


O referido Código de Ética diz, em suas justificativas, que foi editado ?considerando a
busca de melhor relacionamento com o paciente e a garantia de maior autonomia à sua
vontade?. Até hoje não se viu nenhuma pessoa fora da categoria dos médicos que tenha sido
ouvida para saber o que considera melhor para a sua saúde, onde se inclui a liberdade de
utilizar a auto-hemoterapia. Da mesma forma que parece inócuo o que reza, no Capítulo I,
o item VIII dos Princípios Fundamentais do código, segundo o qual ?O médico não pode, em
nenhuma circunstância ou sob nenhum pretexto, renunciar à sua liberdade profissional, nem
permitir quaisquer restrições ou imposições que possam prejudicar a eficiência e a
correção de seu trabalho?.

Pode ser argumentado que o Item XXI do mesmo Capítulo está prevista uma restrição, quando
diz ?XXI - No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de
consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes,
relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que
adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas?. Está prevista, sim, mas o seu teor só
pode ter duas características distintas: ou é contraditório ou é injusto. Contraditório,
porque retira a liberdade que havia reconhecido ao paciente anteriormente; injusto, se
reconheceu a referida liberdade e neste outro ponto a nega.

Quanto trata dos direitos dos médicos, o código garante ?exercer a Medicina sem ser
discriminado por questões de (...) opinião política ou de qualquer natureza? e ?Indicar o
procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas cientificamente reconhecidas e
respeitada a legislação vigente?. Por um lado, não proíbe o uso de práticas não
reconhecidas cientificamente. Por outro, sabemos que não existe nenhuma lei proibindo o
uso da auto-hemoterapia.

Encontramos muitos outros pontos, mas existe um que mostra com todos os elementos a
gravidade do posicionamento dos órgãos fiscalizadores. No item XXII dos Princípios
Fundamentais, está escrito que ?Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o
médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e
propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados?. Na
realidade atual, nem mesmo nestes casos o CFM, a ANVISA e, portanto, o Ministério da
Saúde, admitem o uso da auto-hemoterapia, preferindo ver o doente morrer, a deixá-lo
tentar a cura ou sobrevida usando um meio que funciona há mais de 150 anos, que era
permitido até 2007 ? quando foi confusamente proibido - e vem dando certo na
clandestinidade. Ou seja, quando as práticas cientificamente comprovadas não dão
resultado, o único caminho, para aquelas instituições, é o paciente esperar a morte
chegar.

Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br

29/07/10

Certas coisas...

Como foram felizes Nelson Motta e Lulu Santos ao dizerem: “Não existiria som, se não houvesse o silêncio/ Não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim/ Dia e noite, não e sim...”. Pois é meu caro, a vida é mesmo assim: uma enorme contradição. Vida, morte; alegria, tristeza; casamento, separação; inteligência, ignorância; delicadeza, brutalidade; amizade, inimizade; rico, pobre; sonho, realidade; verdade, mentira; guerra, paz; amor, indiferença; e por aí vai.
            Ah! Pensas que o contrário do amor é o ódio? Engana-se. No ódio, ainda existe um energia, que emquestão de segundos, pode-se transformar em amor.Mas, na indiferença não há nada.Nenhuma troca. Tudo frio.  
            Eu sei que é difícil entender tudo isso: a vida, os homens, suas contradições. E é por isso que muitas vezes: “Têm certas coisas que eu não sei dizer...”. Muitas vezes, têm certas coisas que não compreendo... Gostaria sim, meu caro, de já ter a maturidade de um Rilker, para entender que: “Talvez todos os nossos dragões de nossa vida sejam princesas que guardam apenas o momento de nos ver um dia, belos e corajosos. Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio”.
            Ultimamente tenho me horrorizado muito com as pessoas. Chego até a pensar que elas são más. Que não tem coração. Que não têm espelhos em suas casas. Que não tem alma, nem sentimentos. Que são puras máquinas automatizadas. Meu Deus, quanta ignorância minha! Afinal, o que é o homem, senão “uma alma infante que carrega um cadáver...”, como lembra Marco Aurélio, nas suas meditações.
“Nós somos medo e desejo”, meu caro, “Somos feitos de silêncio e sons...”. E eu poderia neste momento calar, até por que: “Cada voz que canta o amor não diz/ Tudo que quer dizer,/ Tudo que cala fala/ Mais alto ao coração”. Mas, acredite, meu caro, silenciosamente eu vou te falar com paixão, carinho e respeito. Respeito pelo passado. Respeito pelo meu presente. Pela função de professor, que exerço, há mais de 18 anos. E na função de professor, isto sim, aprendi com Guimarães Rosa: “Aquilo que a gente mais ensina, é o que a gente mais precisa aprender...”.  
            Então é preciso apreender que ética, nada mais é do que AMOR. Sim, esqueceu os ensinamentos de Kant? “Não fazer ao outro, o que não gostaria que fizessem a nós mesmos... aja como se sua ação pudesse ser uma lei universal”, não são os princípios kantianos tão ensinados dentro da sala de aula, que se não ganharem as ruas, todo esse ensinamento fica vazio, sem sentido? Aliás, quer coisa mais vazia e sem sentindo do que aquilo que eu ensino, só serve para os outros e não para mim? O mestre é o exemplo, meu caro. O exemplo. Aprenda isso.
            Aprenda também o que certa vez, foi ensinado por Albert Camus, que ao ser indagado como escreveria um livro sobre Ética, respondeu: “As primeiras noventa e nove páginas, eu deixaria em branco. E na última, escreveria apenas uma palavra: AMOR”. Então, se ainda tinha dúvidas, meu caro, de que ética é AMOR, aprenda mais isto.
Aprenda, também, o que disse Aristóteles, na sua “Ética a Nicômaco”: “Qualquer um pode zangar-se – isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa – não é fácil”. Por isso, é preciso, de vez em quando, voltar a Rilker e entender que certos horrores não passam de um desamparo que implora o nosso auxílio...  e olhando bem, o seu erro pode nem ter sido tão grande e grave assim. Afinal, como dizia Karl Popper: “Somente os grandes homens cometem grandes erros”.
Pois bem! Agora eu me calo. Pois, “Tudo o que cala fala mais alto ao coração”, não é mesmo?

Francisco Edilson Leite Pinto Junior

Professor, médico e escritor.

04/07/10

Aprenda a chamar a polícia...

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não
fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranqüilamente.
Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa.
Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por
perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois, liguei de novo e disse com a voz calma:

— Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:

— Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:

— Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.

Luís Fernando Veríssimo

04/0/10

Por que bebem

Um dos aspectos mais citados nos ambientes de tratamento do alcoolismo é que os
dependentes do álcool bebem por qualquer motivo. Bebem porque estão felizes, bebem porque
estão tristes, bebem porque o time ganhou, bebem porque o time perdeu, bebem porque
tiveram uma raiva, bebem porque tiveram uma conquista, e assim por diante. Ao que parece,
trata-se, na verdade, de um indicador que pode ser estudado e certamente resultará em
resposta muito interessante sobre o comportamento dos bebedores-problemas.
Vale lembrar aqui o Capítulo XII do livro O Pequeno,de Antoine de Saint-Exupery, no qual o principezinho, como chamam os portugueses, dialoga com um bêbado que encontrou em um dos planetas que visitou, após o que mergulhou numa profunda melancolia: ?- Que fazes ai? perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias. - Eu bebo, respondeu o
bêbado, com ar lúgubre. - Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho. - Para esquecer, respondeu o beberrão. - Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena. - Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça. - Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo. Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.

E o principezinho foi-se embora, perplexo. As pessoas grandes são decididamente muito bizarras?, dizia de si para si, durante a viagem, o principezinho.
Pois para esquecer ou para lembrar, observamos nesta sexta-feira os bares, botecos, restaurantes, quiosques e calçadas por aonde passamos, duas horas depois do fim do jogo do Brasil com a Holanda e tivemos uma forte impressão de vazio. Houvesse o Brasil ganho o jogo,certamente aqueles espaços estariam ocupados com pessoas festejando e bebendo.

Seriam pessoas que têm e pessoas que não têm (os que não têm são a maioria, cerca de 80%) problema com a bebida alcoólica. Estariam festejando justamente o que teria sido uma
grande conquista. A conquista não veio e a maioria ficou em casa ou foi para casa, se estava fora. O fato é que a bebedeira ficou por conta somente de quem já tinha começado a beber ou aqueles que realmente bebem por qualquer motivo e até os cria, se não os têm.

O infortúnio brasileiro na Copa do Mundo parece que foi um baque nos ?guerreiros? (Principalmente Dunga e Luiz Fabiano), que faziam propaganda de bebida alcoólica, bebida esta que, aliás, anunciava como patrocinadora oficial da Seleção Brasileira. Ao que parece, a bebida alcoólica por eles anunciada não teve o condão de levar a nossa seleção mais adiante. E assim os bares e demais ambientes festivos ficaram meio vazios, aguardando o fim do verdadeiro luto que se abateu sobre a nação inteira, que sofre, mesmo não tendo sido esta a primeira vez que se frustra tanto sonho. Na parede da memória, como diz Belquior, estão certos jogos nos quais o Brasil deu adeus antecipado às copas do mundo.
Não pretendo estudar esse assunto especificamente, mas acredito que pode ser uma boa sugestão para quem estuda o comportamento humano, o alcoolismo, a saúde mental e outros temas, verificar quem é esse universo que fica no bar num dia como este de hoje. Para tanto, poderia até começar com aquelas inocentes perguntas do principezinho, feliz abordagem daquele grande escritor francês, para documentar essa realidade tão visível, mas ainda pouco registrada. Um trabalho desses pode tornar-se uma importante contribuição para o tratamento do alcoolismo e outras dependências químicas que se alastram Brasil e Mundo afora, tratados até como algo engraçado pelo repórter da TV Globo, conforme vimos nas participações que tiveram de Amsterdã. Naquela capital européia, pelo menos, sabe-se muito bem por que as pessoas beberam neste dia 2 de julho de 2010.

Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br

23/06/10

Boletim de ocorrência

Experiente, o delegado jamais se daria ao luxo de parar num bar em pleno expediente e raciocinar tomando conhaque para resolver um crime indecifrável. Não, ele não era o Inspetor Maigret, lendário detetive dos romances do belga Georges Simenon. O delegado não respirava, por uma alergia crônica, que avançava pelos inquéritos mofados tomando sua mesa simples.
Calejado em batidas policiais, interrogatórios e tiros em bandidos de todos os tipos, pensava já ter visto tudo antes do prêmio da aposentadoria. A experiência o levara a uma delegacia de delitos nem tão violentos quanto os homicídios mas nem por isso menos torpes e vis. . Todo crime é crime, costuma dizer o policial de verdade.

Naquele dia, da semana que vai terminando, ele foi mais psicólogo do que tira. E todo polícia com sensibilidade mínima sabe que vez por outra seu ambiente de trabalho vira um divã. Os humildes, especialmente eles, muitas vezes querem o privilégio gratuito do confessionário do seu cotidiano, o que significa oficializá-los como seres humanos.

Pois naquele dia, fim da rotina que voltaria amanhã, o delegado começa a escutar uma senhorita, muito educada, sofrimento de placar eletrônico em sua pele. Nem por isso, tornava-se indigna. O que havia, segundo o policial relataria após a conversa, era cansaço naquele verdadeiro objeto que um dia guardou traços femininos.

- O que a senhora deseja, por favor?
-Primeiro quero deixar claro ao senhor que não sou nenhuma prostituta.

O delegado ajeitou os óculos e foi duro:

- Eu não insinuei isso minha senhora!

No que foi prontamente esclarecido:

-Mas vai pensar que sou, depois do que vou lhe dizer.

Pois conte, disse o policial, cofiando a bigodeira:

A denunciante começou afirmando que apanha, seguidamente, de homens estrangeiros insensíveis, sem que precise viajar, o que deixou o delegado imaginando tratar-se de mais uma louca desocupada.

A queixosa detalhou chutes grosseiros, caneladas, cabeçadas dadas com os ouvidos, relações passageiras vividas sem qualquer sentimento ou afeto. Era uma vítima de maus-tratos e clamava punição aos seus algozes.
E pôs-se a falar, como se ligada por um interruptor incessante:

- Gosto de amor, preciso de carinho, sou ávida por toques de sensualidade no meu corpo, confesso-me uma dama sem pudores quando conquistada. Gosto de sexo, minha relação aparente não é de luxúria, mas é puramente o que desejo. Mas só recebo agressões.

Excitado, o delegado lamentou não encontrar qualquer item no Código Penal que pudesse ajudá-la. Nem a Lei Maria da Penha poderia ser aplicada à visitante que, conformada, assinou sem sobrenome :

- Meu nome é Jabulani, fui batizada por algum sujeito sem coração, só com o bolso no peito. Eu sou uma bola, redonda ou oval, porém charmosa à procura de um craque, de um amante que me sustente. Sabendo me tratar bem, eu recompenso.

O delegado lamentou ser, também ele, um perna-de-pau de futebol.

Ela , então, foi embora, rolando, com sua dor impune e saudade de velhos namorados

Rubens Lemos Filho - Jornalista e escritor

15/07/10

A copa do humor involuntário

Nos próximos dias, um exército de comentaristas esportivos toma de assalto, em definitivo, a programação de TV no Brasil.

O direito de dizer ao vivo o que lhes vem à telha a qualquer hora do dia e da noite torna muito mais divertida a cobertura jornalística das copas.

Seguem algumas pérolas capturadas nas transmissões de 2006, direto da Alemanha:

* “A torcida grita Deutschland, ou seja, Alemanha em alemão”, Cléber Machado (Globo).

* “Traduzindo para o português, ‘toco e me voy’ quer dizer não tá mais comigo”, Maurício Noriega (Sportv);

* “Hoje, o Felipão é tão adorado em Portugal quanto Pedro Álvares Cabral”, Marinho Peres (Sportv);

* “A Alemanha lembra o Rio Grande do Sul!” – Luciano do Valle (Band);

* “A Copa é um ser vivo”, Paulo Calçades (ESPN);

* “O que Gana tem de bom na frente, tem de ruim atrás”, Falcão (Globo);

* “Se caprichar a coisa entra”, Casagrande (Globo);

* “A tomada por trás é mortal para o árbitro”, José Roberto Wright (Sportv);

* “Para apitar, tem que soprar o apito”, Arnaldo César Coelho (Globo);

* “Sou contra blog, mas esse negócio de palestra motivacional também é dose”, José Trajano (ESPN);

* “ Nós, aqui, estamos em busca de Passárgada”, Márcio Guedes (ESPN);

* “Lugar de mulher não é na cozinha, é na Copa”, Carlos Alberto (Sportv);

* “Se macumba fosse coisa boa, o nome não seria macumba, seria boacumba”, Muller (Band);

* “Ninguém joga bem tão mal quanto o Brasil”, Renato Maurício Prado (Sportv);

* “Faltou liderança e insubordinação”, Marcelo Barreto (Sportv);

* “Eu concordo com tudo que a Fátima Bernardes diz”, Galvão Bueno (Globo);

* “É nós na Fifa”, Edu Elias (ESPN);

* “Hexa doeu, Brasil!”, Turma do Casseta & Planeta (Globo).

Tutty Vasques - Jornalista


02/06/10

Um tiro no foot


O Brasil envereda a cada dia por um caminho perigoso e de perda do controle moral. O fato
mais novo é a Seleção Brasileira de Futebol patrocinada por bebida alcoólica. E o pior,
tendo o técnico e jogadores como garotos-propagandas. Podem até alegar que se trata de
propaganda permitida por lei. Mas porque é permitido não tem de ser feito. O prejuízo para a Nação poderá ser muito grande, muitas vezes maior que a renda auferida por este injustificável patrocínio. Gasta-se sempre mais para reparar os males provocados pelo alcoolismo, através de justiça, polícia, bombeiros, através de justiça, polícia, bombeiros, hospitais e muitos outros serviços
públicos.
A princípio, o Governo Federal deveria assegurar outra postura da Seleção Brasileira,
pois cabe ao Ministério do Esporte construir uma Política Nacional de Esporte,
trabalhando ações de inclusão social e garantindo à população brasileira o acesso
gratuito à prática esportiva, qualidade de vida e desenvolvimento humano. Já que somos
considerados e alardeamos que somos o país do futebol, nada mais era de se esperar que
não o melhor exemplo dado pelos atletas da CBF, a qual, apesar de tratar-se de entidade
de direito privado, deve enquadrar-se aos preceitos das políticas públicas brasileiras.
Não dá para entender a Seleção Brasileira patrocinada por bebida alcoólica, enquanto o
Ministério da Saúde tem, desde 2009 um Plano Emergencial de Ampliação de Acesso ao
Tratamento e Prevenção em Álcool voltado a crianças, adolescentes e jovens em situação de
grave vulnerabilidade social. Onde encontraremos situação de grave vulnerabilidade social
maior que o bombardeio da mídia anunciando que a Seleção Brasileira é patrocinada por
bebida alcoólica e vendo o técnico Dunga e os jogadores, a começar por Luiz Fabiano,
empunhando aquela garrafa de bebida que tem o escudo da CBF no gargalo?
Desta forma, parece que de nada teria valido o Ministério da Saúde ter lançado em junho
de 2009 o Plano Emergencial de Ampliação de Acesso ao Tratamento e Prevenção em Álcool e outras Drogas (PEAD) voltado aos 100 maiores municípios brasileiros (com mais de 250 mil
habitantes), todas as capitais e 7 municípios de fronteira selecionados, totalizando 108
municípios. Essas cidades somam cerca de 78 milhões de habitantes, corresponde a cerca de
41% da população nacional. O plano busca alcançar sua clientela por meio das ações de
prevenção, promoção e tratamento dos riscos e danos associados ao consumo prejudicial de
substâncias psicoativas.
A Portaria Nº 1.190, de 4 de junho de 2009, que instituiu o citado plano emergencial,
levava em consideração, entre inúmeros outros pontos, o ?cenário epidemiológico recente,
que mostra a expansão no Brasil do consumo de algumas substâncias, especialmente álcool,
cocaína (pasta-base, crack, merla) e inalantes, que se associa ao contexto de
vulnerabilidade de crianças, adolescentes e jovens; e ?a necessidade de intensificar,
ampliar e diversificar as ações orientadas para prevenção, promoção da saúde, tratamento
e redução dos riscos e danos associados ao consumo prejudicial de substâncias
psicoativas?.
Ao instituir o Plano Emergencial de Ampliação do Acesso ao Tratamento e Prevenção em
Álcool e outras Drogas no Sistema Único de Saúde - SUS (PEAD 2009 -2010), foi citada,
entre as finalidades, ?construir respostas intersetoriais efetivas, sensíveis ao ambiente
cultural, aos direitos humanos e às peculiaridades da clínica do álcool e outras drogas,
e capazes de enfrentar, de modo sustentável, a situação de vulnerabilidade e exclusão
social dos usuários?. Mas o estímulo que a nossa Seleção de Futebol leva aos brasileiros
pelo uso de bebida alcoólica é capaz de pôr por terra todo esse trabalho e, pior ainda,
agravar esse quadro que já é preocupante.
Para deixar a situação mais embaraçosa ainda, na semana passada foi publicado o Decreto
Nº 7.179, de 20 de maio de 2010, que ?Institui o Plano Integrado de Enfrentamento ao
Crack e outras Drogas, cria o seu Comitê Gestor, e dá outras providências?, tendo como
fundamento ?a integração e a articulação permanente entre as políticas e ações de saúde,
assistência social, segurança pública, educação, desporto, cultura, direitos humanos,
juventude, entre outras, em consonância com os pressupostos, diretrizes e objetivos da
Política Nacional sobre Drogas?. No mesmo dia assistíamos a notícia da edição do Decreto
e a propaganda de bebida alcoólica feita pelos membros da Seleção Canarinho. Podemos
dizer que se trata do que constumou-se chamar de ?tiro no pé?. No caso, em vista da
origem do esporte em questão, ?um tiro no foot?.

Walter Medeiros
- Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br

26/05/10

No cabaré, com Cabrito

As putas ficaram putas – pensei lá com meus botões, enquanto assistia ao show de Cabrito, sábado passado, dia do trabalho e do trabalhador – e nada mais justo que comemorar a data junto às meninas da mais antiga profissão do mundo.Mas estou me adiantando, botando o carro na frente dos bois – ou das vacas, galinhas, tal, só pra manter o clima rural e machista –, chegando a uma conclusão à qual não poderia atinar apenas lendo o convite, manifesto, panfleto, dépliant, email, enfim, que me chegou virtualmente ainda idos de abril e que descrevia o artista como um “supersucesso”, com composições “conhecidas por jovens de todo o país e até na Europa e nos Estados Unidos”Como assim? Cabrito, aquele do Sebo Vermelho e do Beco da Lama?

Nenhum preconceito, crianças: que o cabra era um letrista fescenino e dos bons já sabiam as traças do sebo de Abimael e as baratas do beco, mas que tinha essa legião de fãs, só assistindo ao show, primeiro, único e imperdível, intitulado – comedidamente, como se verá – Neste o trabalhador goza.

O público, mais para estudante universitário do que working class hero, gozou, com certeza. Antes de o show começar, já lotavam a calçada, a rua quase insuspeita e as mesas do carrinho de lanches da esquina onde se ubíqua o Veros Bar, BR-101, “atrás do Sam’s Club”. Nove entre dez eram homens, todos na faixa da vacinação contra a H1N1, perfil classe média, camisa arrochadinha e musclinhos saltitantes.

Na entrada, enquanto a bilheteria improvisada preparava o troco – dez real o ingresso, com direito ao CD Os nominhos que ela tem – uma loira estalava um sonoro tapa com a mão aberta nas ventas de um que, suponho, passou-lhe a mão na bunda, mal coberta (ou bem descoberta) por um minúsculo short branco. Embora as moças “das elite” nativa gostem de se exibir nos bares da moda com a mesma indumentária, não dava pra confundir: aquela era uma legítima Puta com pê maiúsculo e outras hipérboles, todas mui graciosas, devo confessar. E pra entrar no clima do show, sem meias-palavras, assumo: eu comia, sim, com muito gosto.

Pois bem, eis cá, sétimo parágrafo, as putas do primeiro: deu pra contar umas dez, entre comíveis e não comíveis, que o Veros é lugar de responsa.

A turma do Beco, pra minha surpresa, era minoria. Os boys, já falei, aumentavam em número, gritos e animação e eu percebi definitivamente que havia algo estranho no ar quando os aplausos com a entrada de Cabrito e banda superaram em muito a saída da loira platinada que fez o clássico strip-tease minutos antes.

Pra resumir, os versinhos abaixo foram todos cantados em uníssono pelos rapazes e por quase todas as moças (força de expressão) do recinto, também:

Eu queria ser vaqueiro/ Do gado da minha tia/ Só pra poder ficar brechando/ Minha prima todo dia/ Ela só caga de coca/ Em cima de um jirau/ E também só limpa o cu/ Com um pedaço de pau [A cagada da minha prima]

Quando cheguei na casa dela/ Eu descobri que tinha outro em meu lugar/ O ricardão tava chupando seu tabaco/ Na cama nova que eu comprei pra nós casar/ O negão era aloprado/ Meteu a pomba na priquita da neguinha/ A sua espada tava toda na bainha/ E a rapariga ainda ficou querendo mais/ Eu não caso com você/ Você tá toda arrombada/ A minha pomba é pequena e bem fininha/ E comparada com a do nego não é nada [Corno pescada]

Eu vou botar meia sola no pau/ Eu quero é cair na putaria/ Na festa do Carnatal/ Comer dois priquitos todo dia [Meia sola]

Papai tinha uma cabrita/ O nome dela era Fulô/ Foi minha primeira foda/ Foi o meu primeiro amor/ Os meninos da fazenda chafurdavam em seu priquito/ E por mais me apelidaram/ Com esse nome de Cabrito [Minha história]

Mulher malvada é a Zefinha/ Que chupa rola/ Não chupa a minha/ Interesseira, dá o furico/ Só quer fuder com homem rico [Reggae safado]

Te conheci na Romualdo/ Chupei seus peitos na Prudente/ No Machadinho eu lambi o seu pinguelinho quente/ Quando voltei à passarela meu pau levantou de novo/ Mas não encontrei você no meio daquele povo [Carnatal]

Tempero de buceta é rola/ Disse o poeta do Assu/ A buceta fede tanto/ Porque mora perto do cu [Sacanear]

Nossa. Até eu, como diz uma amiga, rubrei, copiando esses versos. Mas, vos asseguro, tem coisa pior: uma mistura de Pasolini com Marquês de Sade e pitadinhas de Pierre Louys (vamos intelectualizar a putaria), tudo transposto pro sertão do Caicó, de onde, pelo que percebi, vinha a maioria da plebe mais alvoroçada – explica-se: Cabrito é convidado especial e freqüente do carnaval caicoense, puxando o bloco “Eu quero é gozar”.

Da metade em diante do show, o “palco” foi tomado por rapazes com mais testosterona que álcool nas veias. Um deles ainda se agarrou numa pilastra, as mãos e as pernas simulando um coito vertical.

Depois, todos pra casa, correndo, que o lance estava mais pra sexo oral ou auditivo, mesmo, todos fãs do supersucesso e suas letras impudicas.

Daí eu concluir que as raparigas (stricto sensu) ficaram pês da vida.

Mas o show foi do caralho.

Mário Ivo - Escritor

27/04/10

Cachorro quente ou hot dog?

Receoso de ferir os brios patrióticos dos amigos e amigas do país de Mossoró, resisti bravamente a escrever o texto que se seguirá. Temia que ele colocasse mais lenha na centenária rixa entre natalenses e mossroenses, com os primeiros geralmente tecendo piadas ferinas e comentários maldosos a respeito do comportamento das gentes de Mossoró.
Contudo, durante recente confraternização cultural (e etílica) na 1ª Feirinha de Livros de Currais Novos, o comandante em chefe da Revista Papangu, Tulio Ratto, garantiu não somente a publicação de tal texto sem censuras como minha integridade física (tendoem vista a pouco hercúlea compleição física de Tulio, não estou certo que sua garantia de segurança me valerá de muita coisa...). Ainda assim ganhei coragem para escrever sobre uma aventura gastronômica que vivi na terra de Santa Luzia. Que os amigos Cid Augusto e Kydelmir Dantas, pacatos e bons companheiros, que viram gladiadores na hora de defender Mossoró, me perdoem.
Bem, vamos à história. O episódio aconteceu nos idos de 1992, quando eu acabava de ter o prazer de entrar na redação da Gazeta do Oeste, nos bons tempos em que Canindé Queiroz comandava uma equipe de até hoje bons amigos como Carlos Santos, Cesar Santos, Gutemberg Moura, Augusto Paiva, Emerson Linhares, e outros. Mas, deixemos de nostalgia. O fato é que eu acabava de chegar a Mossoró, cidade que conhecia apenas superficialmente, e ainda não havia me detido na vida cotidiana e nas particularidades mossoroenmses.
Na minha primeira semana, lanchava (e almoçava, diga-se) baurus no treiller de Titi, ao lado da Gazeta. Em uma bela tarde, o trailler se encontrava fechado e resolvi sair a esmo pelo centro à procura de uma lanchonete. Numa rua, cujo nome não recordo, lá perto do legendário Restaurante do Mathu, descobri uma lanchonetezinha. Estava vazia e parecia agradável, apesar de simples. Senti ao balcão caçando o cardápio ou coisa que o valasse. Inútil.
Por fim, surgiu da cozinha um rapaz resmungando um boa noite que mais parecia um convite para me retirar. Resolvi ficar, e perguntei se tinha algum salgado, tipo pastel ou empada. Secamente, ele respondeu que não. Perguntei então se tinha cachorro quente... O cidadão coçou a barba por fazer e disparou: “Amigo, você quer cachorro quente ou hot dog?”. Senti no momento um vazio mental, tal a irrealidade da pergunta.
“Mas, qual a diferença entre um e outro?”, perguntei, inocentemente. O cara me olhou como se eu fosse imbecil – talvez o fosse, naquele instante – e respondeu, todo senhor de sua secura: “Cachorro quente é com carne moída, hot dog é com salsicha!”. “Ah, é claro...”, concordei, como se respaldando uma verdade absoluta. Acostumado que era a comer os tradicionais cachorros-quentes com salsicha, à moda americana, lá no jurássico Passport, na Praça Cívica, em Natal, desde a mais tenra infância, deveria ter optado pelo que conhecia. Mas, a vontade de desbravar culinárias estrangeiras falou mais alto. “Me veja um cachorro quente aí”, pedi.
O camarada foi para a cozinha. Retornou logo trazendo em um prato azul, um pão cheio de carne e verduras, fumegante e cheiroso. Contudo, um detalhe: no prato, garfo e faca! Educadamente, peguei os talheres e coloquei-os no balcão. “Obrigado, mas não vou precisar”. O rapaz nada falou. Empolgado, com o aroma, puxei dois guardanapos de papel e avancei as mãos para o prato, dando início à minha tragédia. Mal levantei o pão á boca, o bicho começou a se liquefazer. Nervoso, inclinei o pão, derramando um caldo marrom em minha calça jeans. Ainda mais nervoso, coloquei o pão no prato e ele – já mais liquido do que sólido – praticamente se desmanchou. Olhei para a calça e parte da camisa, todas sujas e pensei em protestar, quando reparei na expressão impassível do cidadão, me olhando com a superioridade natural que um nativo de Mossoró encara forasteiros de culturas primitivas. Concluí que era inútil reclamar. O culpado, afinal de contas, era eu. Olhei para o cachorro quente que havia pedido, na verdade quase uma sopa, e não um sanduíche. Não havia como resistir àquele caldo onde boiavam pão molhado, carne, cebola, tomate e pimentão. Recolhido à minha insignificância, olhei com humildade para o sujeito, que esboçava um sutil sorriso nos cantos da boca e pedi: “Amigo, por favor, me veja garfo, faca e uma colher...”

Cefas Carvalho - Jornalista e escritor

Antes que algum engraçadinho imagine que estou traindo a confraria dos cafajestes, o clube dos canalhas ou aderindo à baitolagem esquerdofrênica, aviso logo que estou falando da conquista alvinegra no Rio de Janeiro. E que isto aqui é um desaforo.
A história do jogo eu conto em pedaços que não seguem a sequência cronológica administrada pelo árbitro. Eu vi o goleiro Jefferson com um olhar confiante e Adriano sem querer encará-lo, olhando de lado e abaixando a vista antes do chute.
O chefe do tal império do amor parece que tinha na testa o peso de um desastre amoroso. Adriano olhou e não viu Jefferson; o semblante debaixo das traves era o do policial “Ricardão”, talvez naquele instante batendo uma pelada em seus lençóis.
Não se coloca um jogador que mais parece um caminhão de problemas para bater um pênalti decisivo. Apesar de temer a conversão do gol e a possível reação rubronegra depois, ainda mais com a expulsão do grande guerreiro Herrera, eu confiei no destino.
Assim como o goleiro Bruno entrou em campo com os nervos nas luvas, por causa da agressão ao Petkovic, em Santiago, o atacante Adriano era o mais desequilibrado do Flamengo. Sobre ele despencara uma avalanche de confusões e angústias.

Não foi apenas uma contusão que o tirou do jogo anterior; nada a ver com poupá-lo para enfrentar o Fogão. Adriano quer dinheiro atrasado; Adriano ainda está enrolado nas favelas; Adriano foi trocado por um musculoso da Polícia Civil, dizem as revistas.

Mas, eu sou BOTAFOGUENSE, não tenho porra nenhuma a ver com os "cachimblemas" de flamenguista, ainda mais de um jogador mediano que há anos engana a urubuzada – com ajuda da mídia rubronegra – com seu ar de craque de bola.

O Botafogo invadiu o “império do amor” com um ataque acostumado a botar o ódio na ponta das chuteiras, uma dupla de área formada na mandinga e raça de uruguaios e argentinos. A presença de Loco Abreu e Herrera afugentou a covardia tupi que existia no time da Estrela Solitária.

Tenho uma dúzia de grandes amigos que torcem pelo Flamengo. A eles não dirijo este comentário, preservo-os do desaforo que me toma nesta hora e o lanço sobre o resto da torcida mais besta e imbecil de um Brasil também imbecil.

Meu desejo na tarde deste domingo, gritando pela vitória, sozinho em casa, era sair voando pelas imediações do Maracanã, de megafone em punho e berrando para a mundiça lá embaixo, cabisbaixa e com o ego ferido pelas bolas de Herrera e Loco Abreu.

Vão pra casa sem fazer merda pelo caminho! Não descontem em lojas e ônibus a frustração de não ter um tetra como o Botafogo! Subam o morro sem materializar a raiva, guarde um pouco para a futura desclassificação na Copa Libertadores!

Hoje foi o dia de botar fogo na bastilha da choldra rubronegra, como numa revolução de raça e ódio os jogadores do Botafogo encarnaram os deuses da guerra e todos os seus craques que eram impiedosos com os adversários. O amor se fodeu no Maracanã.

Deitado na frente da TV, carregado da mais raivosa energia que possa mover uma paixão clubística, eu via Heleno de Freitas cuspir na cara do Wagner Love, fazendo descer o falso sangue da ridícula pintura de cabelo. E eu quase cuspia na tela.

Quando Leo Moura avançava sobre Somália, como um caçador criminoso em filmes de Tarzan atacando um guerreiro Nagasu, eu pensava em Marinho Chagas fazendo a cobertura e humilhando o lateral com um drible da vaca e um sorriso de lobo.

Muitos urubus ainda estão dizendo que o juiz ajudou. Reconheço que o Botafogo contou com uma puta ajuda durante o jogo inteiro. Mas esta veio dos seus ídolos; todos estavam ali, em fluídos e energia. Joel montou uma parede com tijolos e massa de Nilton Santos.

O famigerado “império do amor” foi invadido e tomado pelas hordas gloriosas de um passado que há de ser respeitado. Jogo é batalha e batalha é pra ser vencida e glorificada. O Flamengo é vice, o time mais vezes “VICE” do Rio de Janeiro.

Não digam, rubronegros, que estou tripudiando sobre a vítima, porque estou mesmo. Saibam que no ano 2010 ninguém foi mais que o Botafogo; vencemos todos os “grandes”, com duas porradas em vocês. Vencer só presta humilhando, como fazia Garrincha.

Saiam da frente e engulam a derrota. O Império da Raiva pede passagem.

Alex Medeiros - Jornalista

13/04/10

Diante do clamor

Ao completar hoje 300 artigos publicados neste JH toda segunda-feira, surgiu a idéia de marcar esta data com a seleção daquele que de alguma forma possa ter mais contribuído para reflexão do leitor. Se nesses textos os mais diferentes temas foram abordados e alguns repercutidos através de e-mails recebidos, um deles, paradoxalmente, que gostaria de ver reproduzido e avaliado foi o primeiro de 2007 e não foi no todo escrito por mim. Tratava-se de uma mensagem de autoria da escritora gaúcha Sara Maria Binatti dos Anjos. Se há três anos, denominava "Prece do Povo", hoje pode ser considerada um exercício essencial de memória e alerta diante do clamor provocado pela permissividade, licenciosidade e até mesmo do culto - ou é missa - aos maus costumes.
                  - Fui criado com princípios morais comuns. Quando criança, ladrão tinha a aparência de ladrão e nossa única preocupação em relação à segurança era a de que os "lanterninhas" dos cinemas nos advertissem devido às batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo. Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder grosseiramente a policiais, mestres, aos mais idosos e autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.
                  Hoje me bateu uma tristeza infinita por tudo que perdemos, por tudo que meus filhos um dia temerão, pelo medo no olhar de crianças, jovens, velhos e adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidade de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial. Agentes de trânsito multando infratores são exploradores funcionários de indústrias de multas. Policiais em blitz é abuso de autoridade. Regalias em presídios é matéria votada em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos.
                  O que aconteceu conosco? Professores surrados em salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Crianças morrendo de fome. Que valores são esses? Carros que valem mais que abraço; filhos querendo-os como brindes por passar de ano. Celulares nas mochilas dos recém saídos das fraldas. TV, DVD, vídeo-game, o que vai querer em troca desse abraço, meu filho? Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais valem dois vinténs do que um gosto. Que lares são esses? Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente e o presente um droga. Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando foi que fechei a janela do meu carro? Quando foi que me fechei?...
                  Quero de volta a minha dignidade, a minha paz. Quero de volta a lei e a ordem, a liberdade com segurança. Tirar as grades da minha janela para tocar as flores. Sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho. A retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho. Quero a vergonha, a solidariedade. Quero a esperança, a alegria. Teto para todos, comida na mesa, saúde...
                  Não quero listas de animais em extinção. Não quero clone de gente, quero cópia das letras de músicas, cultura e ciência. Quero voltar a ser feliz! E dizer basta a esta inversão de valores e ideais. Calar a boca de quem diz: "a nível de", "enquanto pessoa"... Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba, quem ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não dignifica meu/seu voto. Rir de quem acha que precisa de silicone, lipoaspiração, dieta, cirurgia plástica, carro zero, laptop, bolsa XYZ, calça ZYX para se sentir inserido no contexto ou ser "normal".
                  Abaixo o "ter", viva o "ser". E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da manhã!. Vamos voltar a ser "gente"? Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade como base. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito... Discordar do absurdo. Construir sempre um mundo melhor, mais justo, mais humano. Todos estão vendo a necessidade.
                 
(*) Wellington Medeiros é Jornalista - RN Sites

08/04/10

"Para o inferno"

Entrou no táxi apressado – os olhos injetados e doentios - e instalou-se no banco traseiro. O taxista, envolto em suor e tédio perguntou: “O senhor quer ir para onde?” "Para o inferno", respondeu o passageiro. O taxista virou-se. Percebeu no olhar do estranho passageiro - um homem maduro, corpulento e de modos sombrios - um desespero mesclado com uma inusitada serenidade. O homem sustentou o olhar do taxista e implorou: "Por favor, siga em frente". O taxista suspirou e obedeceu.Esperou que alguns segundos se passassem para perguntar novamente: "Para onde o senhor vai?". "Se eu soubesse...", suspirou o passageiro, para completar: "Quem sabe para onde vai? Você sabe para onde vai?". O taxista hesitou: "Eu vou para onde o senhor disser que iremos". "Se eu não sei para onde vou, como pode dizer isso?". "Preciso que o senhor diga para onde quer ir, ou vou ter que parar o carro para não gastar gasolina". "Eu entrei no seu táxi dizendo para onde queria ir: para o inferno.". "Não posso te levar para o inferno". "Então me leve para algum lugar parecido". O taxista hesitou novamente. Que lugar lhe assemelharia mais aos mundos infernais? Sua própria casa, com sua esposa que mal lhe dirigia a palavra havia anos e os filhos adolescentes que não o respeitavam? O clube no domingo com os amigos interesseiros e as brigas que fatalmente aconteciam? Os encontros semanais com o dono do táxi, que lhe cobrava impiedosamente o aluguel do veículo e sempre reclamava de alguma coisa? De repente todos os aspectos de sua vida lhe pareceram infernais, e em uma questão de segundos se perguntou se valia a pena estar vivo. Mais: se queria ainda continuar vivendo. Realmente vivera ao longo daqueles anos todos de necessidades e humilhações. Freou o carro, subitamente. "O que houve?", perguntou o passageiro. "Que houve?". "Não posso te levar para o inferno. Descobri que já vivo nele". "Então, faça o que tem que fazer". "É o que o senhor quer?". "Com certeza. Vamos, homem, resolva tudo por nós dois". O taxista então deu partida e rumou para a ponte quebrada e abandonada na zona noroeste da cidade. Sempre quis passar direto pelos cones que alertavam os motoristas do perigo. Sempre quis saber se a água do rio era realmente gelada e lodosa, como diziam. Sempre quis descansar de sua própria vida. Ainda que fosse no inferno.

Cefas Carvalho - Jornalista e escritor

25/03/10

O que você tem feito para mudar o Brasil...para melhor?

Está reclamando do Lula? do Serra? da Dilma? do Arrruda? do Sarney? do Collor? Do Renan? do Palocci? do Delubio? Da Roseanne Sarney? Dos políticos distritais de Brasília? do Jucá? do Kassab? dos mais 300 picaretas do Congresso? E você?
Brasileiro reclama de quê?
O brasileiro é assim:

1. - Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas.
2. - Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas.
3. - Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração.
4. - Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura.
5. - Fala no celular enquanto dirige.
6. -Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento.
7. - Para em filas duplas, triplas em frente às escolas.
8. - Viola a lei do silêncio.
9. - Dirige após consumir bebida alcoólica.
10. - Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas.
11. - Espalha mesas, churrasqueira nas calçadas.
12. - Pega atestados médicos sem estar doente, só para faltar ao trabalho.
13. - Faz " gato " de luz, de água e de TV a cabo.
14. - Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos.
15. - Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda para pagar menos imposto.
16. - Muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas.
17. - Quando viaja a serviço pela empresa, se o almoço custou 10 pede nota fiscal de 20.
18. - Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes.
19. - Estaciona em vagas exclusivas para deficientes.
20. - Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado.
21. - Compra produtos pirata com a plena consciência de que são pirata.
22. - Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca.
23. - Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem.
24. - Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA.
25. - Freqüenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho.
26. - Leva das empresas onde trabalha, pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis.... como se isso não fosse roubo.
27. - Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe das empresas onde trabalha.
28. - Falsifica tudo, tudo mesmo... só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado.
29. - Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem.
30. - Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve.

E quer que os políticos sejam honestos...
Escandaliza- se com a farra das passagens aéreas...
Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo ou não?
Brasileiro reclama de quê, afinal?
E é a mais pura verdade, isso que é o pior! Então sugiro adotarmos uma
mudança de comportamento, começando por nós mesmos, onde for necessário!
Vamos dar o bom exemplo!
Espalhe essa idéia!
"Fala-se tanto da necessidade deixar um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores
(educados, honestos, dignos, éticos, responsáveis) para o nosso planeta, através dos nossos exemplos.

Anônimo

10/03/10

A cura desejada

Com minha ignorância polida, esmerilada, devidamente materializada pelo Certificado do primário do Mobral - Movimento Brasileiro de Alfabetização -, que com a devida simetria entre o teto e o piso enfeita a parede do lado direito do meu escritório.
Com esse salvo-conduto mobraliano e as bênçãos de nossa senhora dos poucos neurônios segui usando a habilidade de um açougueiro, a sutileza de um elefante numa loja de cristais, a frieza de um desossador e com firmeza e precisão de um neuro cirurgião arvorei-me em minha busca do meu santo graal. Procura vã, inutilmente inútil.Tentei dissecar cada parágrafo, cada sentença, cada oração, cada frase, cada letra e cada sílaba, nas entrelinhas. Buscando o sentido, o objetivo, a causa que levou meu amigo Francisco Edilson Pinto escrever “Cura Indesejada”.  Cansado, exausto, desisti. Meus neurônios miravam a festa de Momo.
Cinco horas da tarde, calcei meu tênis Nike do alecrim, minha camisa da Adiddas da 25 de março e meu calção da Cyclone. Aqueci-me, voluntariamente sob livre espontânea pressão de Socorro, dirigi-me à caminhada rotineira de final de tarde. Na metade da ladeira do sol, encontrei meu amigo Delegado, “porteiro e filósofo”, me fitando perguntou o que estava havendo comigo. Constrangido não quis responde-lo.
Meu bom amigo, para me dá uma força, teve uma boa idéia, (afinal, amigo é pra essas coisas,) convidou-me para tomar uma meiota, resisti uma eternidade: 2 segundos.
O mundo girando sobre nossas cabeças e, nós ali, naquele final de tarde tomando cachaça e discutindo futebol. Se o espírito não engana e a verdade não me mente ainda tínhamos tempo para filosofar: “Mais vale uma pinga no bucho que um canavial inteiro no terreno alheio”, sabiamente assim falou Delegado (porteiro e filósofo).
Entre um gole e outro, um espetinho, um punhado de farinha seca e lá surgia a causa de minha angústia: a razão do texto do Dr. Edlson Pinto, a moral da história.
Como um corisco, meu amigo num cochilo quase se estabacando no chão deu um pulo por cima da ligeireza, ficou de pé olhando-me firmemente pediu para eu lê o texto.  Com ar zombeteiro perguntou para qual time meu amigo torcia. respondi  usando linguagem de sinais) F-L-A-M-E-N-G-O. O cabra arreganhou os dentes num sorriso de deixar Gal Costa com vergonha, sapecou:
Cumpadi Brito, tu tá abestado mermo. Esse seu amigo aí não é mais Framengo ele alinhavou tudo bunitin nesse papel, só pra dizer num ama mais Framengo e tá procurando um novo amô. Falou e disse Delegado.
Como campeões da Taça Guanabara, nós botafoguenses estamos de braços e peito abertos para recebê-lo. Afinal, como dizem por aí: amigo é pra essas coisas. Saudações alvinegras meu bom Edilson Pinto.

José Brito e Silva - Publicitário e cartunista

07/02/10

Sete vida

Ela resolvera criar um gato. Ou melhor, nada resolvera, tudo não passou de um acaso. Andava pela calçada entretida com sua própria solidão quando se deparou com um filhote de gato no meio-fio. Jamais gostara de gatos. Quando muito, sua afeição por animais limitara-se a um poodle que tivera quando adolescente e um trio de peixes beta que morreram por excesso de alimentação.
Portanto, surpreendeu-se interrompendo a caminhada para olhar o felino: era cinza, completamente cinza, o que conferia a seus olhos azulados uma tristeza infinita. Emitiu um miado indicando fome, certamente.
Quase reiniciara a caminhada quando olhou novamente para o gato; teria sido abandonado, com o ela mesma o fora? Talvez por essa associação de idéias, somada à compaixão, resolveu, com alguma repulsa, pegar o animal e levá-lo para casa.
Uma vez em seu apartamento, arrependeu-se do que fizera. O felino miava com desespero e tremia de fome. Pensou em ligar para uma miga que criava um par de gatos persas, mas, desistiu. Cortou em pedaços pequenos um peito de frango esquecido na geladeira e colocou em um pires no chão da área de serviço. O animal devorou a comida rapidamente e continuou miando. Ela lembrou-se que ele teria de beber água e colocou uma vasilha ao lado do pires. Tendo bebido a água, o gato encolheu-se em um canto perto da máquina de lavar e dormiu como guerreiro que sobrevive a uma encarniçada batalha.
Igualmente cansada e também sobrevivente, ela olhou o gato insone e teve vontade de chorar. Conseguiu controlar-se, tomou um banho e deitou no sofá tentando entender porque Roberto a deixara. Era certo que estavam brigando quase diariamente e também era certo que ela mesma pensava em separação. O que ela não conseguia aceitar era que ele tivesse feito as malas e partido, quase na calada da noite, sem uma conversa a mais, sem uma despedida, sem deixar que ela desabafasse tudo que lhe envenenava e sufocava.
Acordou no dia seguinte, molhada de suor e torta da noite no sofá, com o gato lambendo seu tornozelo. Seu primeiro impulso foi de chutar o animal, mas, controlou-se e terminou comovida com os olhos tristes que a fitavam, a pedir comida, água e, talvez, um pouco de carinho. Não sabia como alimentá-lo. Durante dois dias dividiu com o bichano os restos de hambúrgueres e enlatados. Nas compras semanais incluiu ração para gatos. Percebeu que estava se afeiçoando ao pequeno animal, que cada vez mais mostrava menos melancolia nos olhos. Superou a repulsa inicial e passou a segurá-lo, descobrindo que se tratava de um macho. Já que não vou conseguir me livrar dele e vou mantê-lo aqui, é melhor que lhe dê um nome., pensou. Resolveu chamá-lo de Victor, em homenagem ao compositor chileno assassinado pela ditadura. Com o passar dos dias passou a chamá-lo de Vitinho, mas, por aquela razão enigmática pela qual surgem os apelidos, começou a tratá-lo como Zequinha. Gato tranqüilo e silencioso – quando bem alimentado – pouco ou nada alterou a vida da nova dona, salvo, talvez, a caixa de areia que tivera de providenciar, ajudada pelo zelador do prédio.
Zequinha passou a ser a única companhia na solidão de sua dona, que, por mais que passarem os dias, semanas, esperava que Roberto entrasse pela porta adentro. Desejava mostrar ao ex-marido o gato, por quem aprendera a nutrir carinho e respeito. Até que um dia Roberto ligou, mas, não para comunicar a volta para casa. Queria o divórcio, pois pensava em se casar novamente. Ela mergulhou em pranto e vodca, naquela noite em que sua alma parecia querer sair do corpo. No dia seguinte, ressacada, tentou se recompor para tomar decisões. Ainda enjoada, saiu do banheiro e viu Zequinha na mureta da varanda. Não acostumada ao equilíbrio inerente aos gatos, desesperou-se e correu na direção dele, que, por precaução ou susto, pulou para baixo, caindo do terceiro andar. Não teve coragem de olhar para baixo, imaginando o bicho de estimação em uma poça de sangue. Sentou-se ao sofá chorando, quando ouviu a campainha. Era o zelador com o gato, vivo, inteiro, na mão. Gato tem sete vidas, dona, sorriu.
Passou a amar Zequinha. Comprou-lhe uma cesta para dormir, rações mais saborosas, brinquedos. Dormia sentada no sofá acariciando a cabeça ou o pescoço do gato, que dormia junto com ela. Sentia-se mais sozinha do que nunca, sem família, sem amigos, sem Roberto. Tinha apenas o bichano, com nome de poeta e apelido carinhoso.
Até que um dia aconteceu tudo ao mesmo tempo. Roberto ligou comunicando que se casaria em breve e os papeis do divórcio estariam prestes e sair. Foi quando ela saboreava sorvete de nata na mesa da sala e viu Zequinha saltar pela janela. Nada demais, ele retornaria em breve, guiado pelo instinto e pela afeição, ou o zelador o traria de volta. Nada disso aconteceu. Passaram os dias e o gato não retornava. Primeiro ela se desesperou, depois procurou-o na rua, na vizinhança, e, por fim, se confirmou. Não nasci para ter nada nem ninguém, pensou. Alternava sorvete, comida enlatada e uísque barato em dias mortos, até que tomou a decisão, de forma serena e natural. Comprou, com a ajuda de uma amiga farmacêutica e uma desculpa esfarrapada, duas cartelas de Drazil. À noite, juntou os comprimidos todos – dezesseis – em um pires, armou-se de um copo d´água e outro de uísque, à espera da coragem necessária para a decisão final. Bebeu duas doses de uísque e sentiu o sangue se aquecer. Em seguida, lembrou de Zequinha, do aia em que, seduzida pelo olhar triste do gato, acolheu-o em sua casa. Ele poderia ter morrido na rua, atropelado, envenenado, mas, conseguiu sobreviver. Ele tinha sete vidas, divertiu-se. Porém, eu não tenho sete vidas, mas, apenas uma!, pensou Ficou um longo tempo imóvel, ouvindo o som desconexo dos apresentadores do telejornal. Em seguida levantou-se, foi até o banheiro, onde jogou os remédios no vaso sanitário e deu descarga. Suspirou e entrou no banho tentando lembrar se o restaurante oriental da esquina ainda estaria aberto àquela hora.

Cefas Carvalho - Jornalista e escritor

31/01/10

Boite Star

Hoje, 11 de agosto, de 2009, escascaviando meu baú de memórias, dei de cara com uma história já empoeirada, com vestígios de teia de aranha, algumas cenas sem muita nitidez, amareladas, outras corroídas, bolorentas pelo implacável tempo. Bati-lhe o pó, hei-lha:
Lá pelos idos dos anos 80, todas as sextas-feiras era prego batido e ponta virada: eu, Laércio Eugênio, Sandro, Marcelino, Galdino, Júnior Barba e MarcosPapel fazíamos motim, numa tentativa de avexar o editor, (Nilo Santos/Kléber Barros) no fechamento da capa do jornal Gazeta do Oeste.A estas alturas, nossas solitárias já estavam de bico aberto, pedindo desesperadamente uma dose de cana, devidamente acompanhada de um bom e suculento prato de mão-de-vaca, lá do Ponto Frio.
Em passos de tartaruga, com zelo metódico que lhe era peculiar, o velho Kléber (in memória) entregava a capa do jornal, na velocidade da luz, as palavras que podiam mudar opiniões, rumos políticos, sociais ou apenas informar o placar do jogo Barrigudos da Gazeta x Pingunços da Astecam, passavam por minha sala, sem a maior importância, rumo ao laboratório de fotolito. Enquanto o “cão” esfregava o zóio, nós, no mínimo, já tínhamos bebido umas 10 de meiotas. Chovesse ou fizesse lua, nossa pontualidade era inglesa: Ponto Frio, O Sujeito, O Sujeito, Ponto Frio.
Num belo, 20 de julho, dia do meu aniversário, soubemos de um “inferninho”, chamado Boite Star, que seria inaugurado, lá pras bandas do Alto de São Manoel. A caninga foi tão grande que o Nilão (Nilo Santos) não agüentou, decidiu fazer a capa, estilo jornal europeu: uma foto ocupando toda metade superior da página, uma manchete com letras garrafais e duas ou três manchetinhas. Pé na tabúa, lá fomos nós.
Gente saindo pelo ladrão, em frente a “boiti”, mundiça toda reunida, hora de enfrentar o porteiro. Laércio Eugênio Cavalcanti encabeça a lista indiana, dá uma carteirada: “imprensa”. O porteiro pega a carteira põe na mão espalmada e aperta com a outra:

- Pronto, imprensei. Agora, a bilheteria é daquele lado!  Diz o sujeito com o poder de um soldado, pensando ser coronel.

- Amigo, eu trabalho na Gazeta do Oeste, sou da imprensa! Argumenta o teimoso Laércio.

- Eu trabalho no Brasão e hoje sou porteiro dessa boiti! – Disse o porteiro zombando.

Sem saída, tivemos que gastar nosso rico dinheiro com os ingressos. Corriola junta, feito a cota, a soma não dava nem pra tomar um burrin com coca-cola. Cambada meio desanimada, quando Laércio Eugênio Cavalcanti chama o garçom, manda juntar três mesas, se senta na cabeceira e pergunta se tem cerveja gelada, afirmativamente o prestativo senhor responde que sim:

- Então, bote cerveja como quem bota milho pra jumento, hoje eu pago. Disse o endinheirado Laércio!

O garçom escancarou uma risada de orelha-a-orelha, olhando aquela ruma de papudim, pensou em se dá bem.
Entre uma beiçada e outra saíamos a “caça” de uma “lebre” para balançar o esqueleto. Laércio em uma dessas arrudiadas, em torno do salão, viu um casal encangado no canto da parede, num sarro que não passava um fio de cabelo entre os dois:

- Com licença. Disse Laércio Eugênio, batendo nas costa do rapaz.

- Que é isso bicho, cê doido, num ta vendo que a gente ta namorado? Falou o incrédulo rapaz.

- To vendo sim, mas eu só quero dançar com sua namorada! – Insiste Laércio.

- Ô bicho, assim vou ter lhe dar umas porradas, você ta abusando! – Disse o valentão.

- Eu não quero brigar com você. Só quero dançar com sua namorada – Persistiu Laércio Eugênio Cavalcanti.

Fuzuê formado, a turma do deixa-disso entra em ação, paz reina novamente. O Garçom pegando piaba num canto, em um desses cochilos cai da cadeira, com cara de pouco amigos, diz não ter mais bebida. Laércio Eugênio Cavalcanti pede a conta, prontamente atendido pelo dono:

- Aqui, deu R$ 500,00, vai pagar em cheque ou dinheiro? – Indagou o prestativo senhor.

- Em dinheiro! Tome R$ 5,00 depois eu pago resto – Falou o liso Laércio Eugênio Cavalcanti.

- É o quê seu cabra safado? Ou paga tim tim por tim tim ou leva uma camada de pau, depois mando todos vocês pro xilindró. Ameaçou o dono da boate.

Neste momento chega Abel Rodrigues (irmão do Advogado Olímpio Rodrigues) acalma o dono do estabelecimento, se comprometendo em pagar a devida e dividida dívida, logo à tardinha. Garçons, seguranças e até o cozinheiro, já estavam em prontos pra arriar umas boas cipoadas nos boêmios. Fomos salvos pelo hetero Abel.

José Brito e Silva - Publicitário e cartunista

25/01/10

A cura indesejada

 

“Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure”
(Vinícius de Morais)

            Penso que São Paulo se equivocou ao dizer que o amor tudo crê, tudo espera e tudo suporta. Não é bem assim.  Afinal, o amor, como alertava Drummond, é bicho instruído. Portanto, ele pode pular o muro, subir na árvore em tempo de se estrepar: “Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que escore do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca/ às vezes sara amanhã”.

E o danado é que às vezes sara mesmo. Mas, e o amor é doença para sarar? Claro que é. Se não fosse, Camões não teria dito: “Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente”.
            Padre Antônio Vieira (duvido que alguém escreva melhor do que ele) também considerava o amor uma doença - que deveria ser incurável, mas, infelizmente, tem cura. E quais são os remédios do amor, segundo Padre Vieira? São apenas quatro, mas com um poder de curar extremamente potente...
O primeiro remédio é o tempo. Por isso que Cupido, deus do amor, é pintado como criança, pois “não há amor tão robusto que chegue a ser velho”. O passar das horas faz com que as flechas de Cupido percam a potência; que o amor que é cego passe a enxergar; que suas asas cresçam e ele voe para bem longe... o tempo gasta o ferro com o uso, diz Vieira, que dirá o amor! “O tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto...”.
O segundo remédio, para curar o amor, é a ausência. Ora, se com a proximidade as flechas de Cupido correm o risco de não nos atingirem, que dirá com a distância... “A ausência tem os efeitos da morte: aparta, e depois esfria... tudo esquecido, tudo frieza”. E o fogo que arde sem se ver, com a distância, vira um deserto polar.
O terceiro remédio é ainda muito mais poderoso do que os dois anteriores. O seu poder de ação é quase instantâneo: a ingratidão é mortal para o amor. “Se o tempo tira do amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo”. E o danado é que só os amigos são ingratos. Era por isso que Nelson Rodrigues dizia que “só os inimigos são fiéis”, já que estes nunca serão ingratos e nem nos trairão. Não foi a toa que Cristo se queixava de que semeando grandes benefícios nos corações dos homens, se colhia maiores ingratidões...
Por fim, se o amor foi capaz de resistir até aqui - embora duvido que exista amor que consiga vencer: o tempo, a ausência e a ingratidão-, chegou a vez do mais eficaz de todos os remédios, o que até hoje, ninguém deixou de sarar: o melhorar de objeto, que nada mais é do que conseguir um outro amor. “Dizem que um amor com um outro se paga”, alerta Vieira, “mas o certo é que um amor com um outro se apaga”... as estrelas conseguem brilhar nas trevas, no entanto, numa luz ainda maior que é o Sol, elas desaparecem, deixam de brilhar...
Infelizmente, o mundo está se curando do amor. Hoje, os relacionamentos são pelos celulares e internet, ou seja, ausentes e distantes. E com o passar do tempo serão tão frios que as terminações nervosas, que os unem, ficarão anestesiadas, e “o amor que não é intenso”, adverte Vieira, “não é amor”... Triste humanidade que não consegue debelar um vírus de uma gripe suína, mas que é extremamente “competente” para destruir o vírus do amor...

Francisco Edilson Leite Pinto Junior - Professor, médico e escritor

20/01/10

Sucessão Arbitrária

Alguém já imaginou uma situação em que uma das partes interessadas numa decisão é chamada para decidir a questão? Claro que o resultado só poderá estar viciado, será tendencioso e arbitrário. Pois é o que está ocorrendo com a auto-hemoterapia no Brasil. Não existe nenhuma norma que a proíba, mas está proibida pela ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que baseou sua decisão em parecer dado pelo CFM - Conselho Federal de Medicina.
Os defensores da técnica - que combate e cura doenças com a retirada de sangue da veia e aplicaçãoimediata no músculo - questionaram as decisões anunciadas no âmbito do Ministério da Saúde, solicitando que o assunto fosse analisado de forma completa, vez que até agora a decisão foi tomada com base em dados superficiais. Imaginem a quem o Ministério da Saúde, a pedido do Gabinete da Presidência da República, foi ouvir: exatamente aqueles que tinham se manifestado contra a aplicação da auto-hemoterapia. As opiniões são as mesmas e baseadas sucessivamente nas mesmas argumentações distorcidas.

Os fatos se deram da seguinte forma: a enfermeira Maria Antonina de Sales, em nome dos usuários e defensores da auto-hemoterapia, enviou carta ao Presidente da República encaminhado junto abaixo-assinado que pede a liberação do uso da técnica no Brasil. O assunto foi encaminhado ao Ministério da Saúde, onde foi apreciado pela Coordenação Geral de Sangue e Hemoderivados. Agora a Secretária de Atenção à Saúde Substituta, do Ministério da Saúde, Cláudia R. da Silveira Bernardo envia resposta simplesmente reafirmando o que todo mundo já sabia, sem adotar qualquer providência que levasse a nova avaliação do assunto.

Mais estranho ainda é que o Ministério da Saúde trata do assunto como se fosse submisso ao Conselho Federal de Medicina, quando a realidade devia ser o contrário: o conselho profissional é que se submete às determinações do Poder Executivo. Desta forma, a sociedade brasileira está refém de uma decisão arbitrária, superficial e injusta, que proíbe a auto-hemoterapia comum, mas permite o seu uso nas salas de cirurgia através dos procedimentos denominados Tampão Sanguíneo Peridural e Plasma Rico em Plaquetas. A auto-hemoterapia comum, que está proibida, tem o custo de uma seringa, um pedaço de algodão e álcool. As que são permitidas têm preços que chegam até Cr$ 3.000,00 por aplicação.

A eficácia da auto-hemoterapia na cura de inúmeras doenças vem sendo comprovada há mais de cem anos. A cada dia surgem novos fatos que indicam essa verdade. O Ministério da Saúde, a ANVISA e o CFM, no entanto, parece que pararam no tempo, pois para todas as manifestações e solicitações, inclusive do Presidente da República, têm sempre a mesma resposta: a de que permaneceria o consenso segundo o qual a auto-hemoterapia não teria comprovação científica. Caso a questão fosse a julgamento em mãos isentas, a resposta seria outra; até porque seria levada em conta a verdade das inúmeras comprovações existentes.

Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br

13/01/10

Terra seca, rachando

Lá pelo final da década de 80, Mossoró já contava com seus talentos iniciando pela curiosidade e pela identificação na área de propaganda, publicidade e marketing. Antes mesmo de Rogério Dias e o seu irmão, Ivanaldo Xavier, oficializarem a Auge Propaganda, uma das agências pioneiras, dentro dos padrões legais e ajustada à necessidade de mercado do seu tempo. 
Nesse prisma, já era salutar a parceria, até porque ninguém envolvido com esse tino reunia condições financeiras para montar uma agência. Segundo, porque todo trabalho criativo e de abrangência, principalmente que vise persuadir um público alvo, depende dede quadros pessoais que formem o pendão norteador de um trabalho proposto.

Embalados pela magia dessa descoberta, eu, Laércio Eugênio e Brito e Silva começávamos a desenvolver algumas parcerias. Brito e Laércio, chargistas, desenhistas, bons na arte como são até hoje, só que com mais experiência. Juntei-me a eles para produzir os textos. Não havia os recursos da Internet como o hoje indispensável suporte do Google. Tudo era feito no peito e na raça. As artes eram pontilhadas no lápis, a diagramação na cola bastão. Para o aprimoramento líamos Torben Vestergard, Kim Schroder, Mena Barreto e outros do gênero. O resto era por nossa conta. 

Esses resquícios de doces lembranças foram para resgatar um episódio, entre tantos, que marcaram a nossa produtiva convivência no campo da criação. Há sempre de ter os episódios.

Acho que, intermediado pelo porreta comunicador, o camaradinha Caby Costa Lima, nós fomos sondados para executar uma campanha publicitária. O cliente desejava uma campanha completa, que envolvesse rádio, jornal, televisão e outdoor. Sentimos o peso da proposta, porém não fugimos à luta. Como não existia sede, a gente se reunia na casa uns dos outros, conforme as conveniências.

Pegamos pressão, estávamos cheios de vontade. O cliente era o empresário Aurizilênio Leão Carlos, a empresa a EAPA Projetos Agrícolas. Marcamos o primeiro encontro para esse trabalho na casa de Laércio no conjunto Abolição. Era um período de inverno rigoroso e naquela noite despencava do céu mais uma chuva grossa. É tanto que como dependíamos de carona, eu e Brito chegamos atrasados, mas não seria aquele toró que iria impedir que a gente varasse a madrugada até produzir o maior número de peças para serem submetidas à apreciação.

Centralizamos a campanha na proposta da empresa em estimular os produtores rurais através dos seus projetos. A EAPA era a solução para alavancar o setor agrícola na região. Nessa linha idealizamos as peças para outdoor, jornal e rádio. Faltava a televisão.

O tempo corria na velocidade da água que caía do telhado em correntes clareadas pelos relâmpagos no compasso com as trovoadas. E a gente queimando pestana entre sucos, cafés com bolacha e cigarro. E a chuva que teimava em nos acompanhar sem perder o ritmo.

Foi então que, para a propaganda da televisão, alguém sugeriu que fosse feita uma fotografia de um terreno rachado pela seca, na tela, onde ao longe, surgiria a logomarca da empresa, amiudada, mas crescente ao avançar sobre a terra seca. E da forma em que, se observada de uma altura alpina lançasse uma luz por onde passasse, semeando a terra e fazendo brotar uma plantação. Na sintonia, um texto enaltecedor. Era aquilo. Estava tudo pronto.

Relaxamos realizados, mas antes que nós escolhêssemos o fotógrafo para colher a imagem da terra seca, eis que alguém lembrou:

_ Com essa chuvarada, onde diabos a gente vai encontrar uma terra seca, rachada?

A ideia virou água, literalmente e tivemos que mudar toda campanha, deixando-a para outro dia. Algumas peças ainda chegaram a ser veiculadas. Mas nada de televisão.

Gilberto de Souza
- Diretor de redação do Gazeta do Oeste - http://cadernomil.blogspot.com/

11/01/10

Mediterrâneo

Conheci o Mediterrâneo. O mar, não o resort pra bacana lá na Bahia. Meditarranée, sotaque de acarajé francês. Paraíso e salvação da futilidade abastada e proliferante. Estive no Mediterrâneo- a parte que emoldura a Itália, em menos de duas horas e voltei.
O seu infinito eu contemplei, águas de profunda solidão. Beleza de esplêndida melancolia como se a separar céu e oriental atlântico, houvesse apenas uma linha pontilhada pelo olhar de cada um.
Inigualável o meu passeio. Não vi ostentações, luxos nem farofadas. O Mediterrâneo é uma tentação que o
meu desprezo oceânico havia esquecido.Numa prateleira cheia de filmes do meu quarto.
O Mediterrâneo(o meu, pelo menos), foi um pacote que não custou mais do que 50 pratas numa loja de Brasília. Chegou e ficou empoeirado até que o tédio me empurrasse como num mergulho aventureiro.
A viagem que me renovou foi feita sem malas, bagagens, compras, check-ins ou comissários sempre iguais, nos trejeitos e recomendações. Vivem numa redoma invisível, as aeromaquiadas e os aeromoços, muito moços, tão afetados, quase moças, alguns rapazes.
Entre eles e nós, os passageiros, um abismo bem maior que o corredor separando poltronas.
Fui e cheguei sem sair da sala. No mar de espelho em penumbra, incerteza, desconfiança, admiração, ternura, esquecimento, amor, aproximação, distância,arrependimento.
Um carteiro, um poeta. Um filme.
Mário e o ídolo Neruda.
Mário, vivido por Massimo Troisi, morto por um ataque cardíaco um dia após encerradas as gravações.
Nem Nelson Rodrigues escreveria uma vida tão real.
Sentimento Mediterrâneo me inunda.
E eu cá, a expulsar meus sargaços interiores.

Rubens Lemos Filho
- Jornalista e escritor

Era uma vez

Ciço Moço era um caboclo de quase 2 metros de altura, uma lapa de negão, quer dizer: negão-sul-amaricano-afro-decendente-da-mamãe-áfrica.  O Cabra tinha pra mais de légua de beiço, um sorriso escancarado, como cancela de fazenda abandonada, ornamentava sua cara de mentiroso do pé roxo, o sujeito era uma figura ímpar. Como dizia uma tia minha que nasceu morta: uma alma boa, não fazia mal a uma mosca.
Por volta das cinco e meia (5h30), Ciço Moço botava seu tamborete na esquina da casa para espiar o sol deitar-se por entre a mata seca e as águas do açude Grotão. Ritual, que repetia de domingo a domingo,porém, antes do último raio de sol desaparecer, o rádio anunciava a Hora da Ave Maria, Ciço então espichava os zuvido até a janela e de joelhos bodejava, sabe-se lá o que, só se entendia o final ladainha: que nos proteja do malamém!
De rabo de olho, Ciço dava espiada averiguando se vinha alguém, nada. A angústia lhe fazia reboliço nos seus miolos, mas, antes de da tristeza empalidecer sua pele escura, a meninada começava a chegar: um sambudo, dois sambundos, três sambundos, em poucos de segundos a platéia estava formada. Todos sentados no chão, de frente para Ciço:

- Ciço conta uma história pra gente!  Com olhar de pidão, suplicava Chiquin.

- Eu não. Ouvi dizer que me chamaram de mentiroso! – Respondia Ciço, sabendo que sua fiel platéia não sairia dali sem ouvir uma de suas estórias.

- Num foi nóis, não! Responderam em coro, os barrigudinhos.

- Olhem, nada nessa vida é de graça. Vocês me dizem uma coisa, depois, eu conto o conto que a Caipora me disse ontem de noite. Ciço Moço aguçando a curiosidade dos catarrentos.

- Tem uma coisa, mas, mamãe disse que é fofoca e, é feio fofocar. Falou Cizin.

- Se é fofoca, num quero nem saber, mas já que você insiste, pode contar. Diz Ciço.

- Minha irmã perdeu o cabaço, o namorado dela fugiu pra capital. Desconfiado, Cizin confessou.

- Vigi Maria. Vamos deixar o caboço da sua irmã de lado, essa história morre aqui. Sentenciou o distante Ciço, que já estava de mala e cuia atrás da dita cuja: “to precisando arriar o óleo, amanhã mesmo vou fazer uma visitinha, a irmã do Cizin, inté que ela é jeitosinha...”

Assustado com a zuada da bruguelada gritando, o “voador” Ciço aterriza. Ajeita-se no tamborete, acende seu cigarro de palha, dá umas três baforadas, dispara uma silênciosa bufa, balança o fundo da calças liga sua afiada e mentirosa língua: Era uma vez...

José Britro e Silva - Cartunista e Publicitário

21/12/09

Sai 'Folioduto', entra 'Fabioduto'

Parece até que o “capitão” Rodrigues Neto está fazendo escola. Questionado recentemente por um repórter Novo Jornal, o presidente da Fundação Capitania das Artes disparou que estava “cagando e andando” para os eventuais críticos de sua controvertida maneira de gerir a coisa pública. A partir daí a coisa desandou a feder e parece ter contaminado considerável parte do borboletário verde da prefeita Micarla de Sousa.
Outra razão não há que justifique o escandaloso fato de a Prefeitura do Natal ter que desembolsar a “módica” quantia de R$ 221 mil pela apresentação dopadre-cantor Fábio de Melo, na noite véspera do Natal, no estádio Machadão. Só para se ter uma ideia, o último show do cantor Roberto Carlos na cidade, este ano, custou à iniciativa privada a bagatela de R$ 150 mil. E olha que ele desembarcou aqui de “aero-rei” trazendo consigo todo o equipamento, pessoal de apoio e músicos, a hospedagem já incluída.
Em sua coluna na Tribuna do Norte, ontem, o jornalista Woden Madruga – a pretexto de comentar o futebol – abriu um generoso parêntese para o momentoso assunto: “E por falar em futebol, o padre Fábio de Melo é o craque da semana. Cracão. Faturou, por menos de uma hora no Machadão, 221 mil reais. Dinheiro bancado pela Prefeitura de Natal, que tem um saco maior que o de papai noel. Tardinha de ontem na calçada do Cova da Onça, mestre Gaspar fazia comparações:
- Adriano, o Imperador do Flamengo, tem salário mensal de 400 mil reais, apontado como o mais alto do futebol carioca e um dos maiores do país. Para botar toda essa grana no bolso, Adriano tem que jogar duas vezes por semana ou oito por mês. Isso quer dizer exatamente que cada vez que joga (e são 90 minutos com intervalo de 15) Adriano recebe 50 mil paus. O padre Fábio não cantou mais de 50 minutos e o seu cachê foi de 221 mil reais. Adriano bota no Maracanã 80 mil pessoas; padre Fábio não conseguiu atrair ao Machadão nem 15 mil.”
Batizado pelos internautas de “Fabioduto”, o indecoroso cachê tem rendido para a verve popular até mais que as chuvas para o próprio Madruga, um incorrigível perseguidor de nuvens. Observador atento de nossas mazelas culturais e políticas, o poeta Laélio Ferreira registrou o lamentável episódio em forma de versos tragicômicos. Partindo do mote “Na parede trave a bunda /Padre Fábio está chegando”, ele glosou sem medo de ser feliz:
Nas Boas-Festas abunda
a fama do sacerdote…
- O bonitão come brote,
na parede trave a bunda!
Arranjou-se uma barafunda
e a coisa foi engrossando:
muito dinheiro rolando,
muita conversa-fiada…
- Proteja a traseira amada,
Padre Fábio está chegando!

O sacolejo natalino da batina mais alegre e dispendiosa do Brasil tem rendido que não acaba mais. Na blogosfera, então, nem se fala. A começar pelo jornalista Ricardo Noblat, que traçou um comparativo dos mais altos cachês cobrados pelo show-business brasileiro e lançou o desafio: “Você entregaria sua alma aos cuidados do padre Fábio?” Nem foi preciso responder. O borboletário verde ficou numa agitação que só vendo. Mas o lugar mais apropriado para quem quer inteirar-se do assunto, todavia, continua sendo o blog da jornalista Laurita Arruda Câmara.
Transformada involuntariamente no principal holofote do “Fabioduto”, a titular do Território Livre foi publicamente desancada pelo bad boy Eugênio Bezerra, o controvertido “assessor especial” da prefeita Micarla de Sousa. Ele ameaçou detonar de seu twitter um suposto “babado forte” envolvendo a vida privada da moça, caso ela não parasse de abordar o escândalo, mas terminou por confirmar o adágio popular de que “cão que ladra não morde”. Acovardou-se diante da enorme repercussão negativa da ameaça que fizera e que originou toda a polêmica.
Do blog de Laurita, aliás, extrai-se um comentário de fatura especulativa mas não menos interessante. Sobrescrito pelo internauta Elves Alves, eis o seu inteiro teor:
“Tá no prelo da Gráfica Manimbu, da Fundação José Augusto, um cordel curiosamente intitulado “A facada do padre e a cagada do capitão”. [Grifo nosso] Uns especulam que trata-se do escândalo natalino conhecido como “Fabioduto”, ou seja, o cachê escorchante de R$ 221 mil cobrado pelo padre Fábio de Melo à prefeitura de Natal; outros dizem que é sobre a doutrina filosófica (”Filosofia da vaca”) instaurada pelo presidente da Capitania das Artes, o impávido “capitão” Rodrigues Neto, que disse estar “cagando e andando” para os eventuais críticos de sua glamurosa gestão. Pelo sim, pelo não, prefiro apostar nas duas hipóteses, menos que o autor da obra venha a ser o cordelista Crispiniano Neto, presidente da FJA. Assim já seria demais, né…?”
Ora, se é.
Incontinência fecal à parte, o “Fabioduto” tem lá a sua parte positiva. Na tentativa desesperada de represar a sua repercussão, fazendo valer até mesmo ameaças veladas e intimidações anacrônicas, os debochados mandarins do Palácio Felipe Camarão terminaram por revelar que, pelo menos na seara cultural, o seu modus operandi é idêntico ao do Governo do Estado: secreto e guardado a sete chaves. Realmente é um governo que, se “andando” está, é num passo quase imperceptível, mas que está “cagando” copiosamente, disso não resta a menor dúvida.

Paulo Sérgio Martins - jornalista             

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