Tentei dissecar cada parágrafo, cada sentença, cada oração, cada frase, cada letra e cada sílaba, nas entrelinhas. Buscando o sentido, o objetivo, a causa que levou meu amigo Francisco Edilson Pinto escrever “Cura Indesejada”. Cansado, exausto, desisti. Meus neurônios miravam a festa de Momo.
Cinco horas da tarde, calcei meu tênis Nike do alecrim, minha camisa da Adiddas da 25 de março e meu calção da Cyclone. Aqueci-me, voluntariamente sob livre espontânea pressão de Socorro, dirigi-me à caminhada rotineira de final de tarde. Na metade da ladeira do sol, encontrei meu amigo Delegado, “porteiro e filósofo”, me fitando perguntou o que estava havendo comigo. Constrangido não quis responde-lo.
Meu bom amigo, para me dá uma força, teve uma boa idéia, (afinal, amigo é pra essas coisas,) convidou-me para tomar uma meiota, resisti uma eternidade: 2 segundos.
O mundo girando sobre nossas cabeças e, nós ali, naquele final de tarde tomando cachaça e discutindo futebol. Se o espírito não engana e a verdade não me mente ainda tínhamos tempo para filosofar: “Mais vale uma pinga no bucho que um canavial inteiro no terreno alheio”, sabiamente assim falou Delegado (porteiro e filósofo).
Entre um gole e outro, um espetinho, um punhado de farinha seca e lá surgia a causa de minha angústia: a razão do texto do Dr. Edlson Pinto, a moral da história.
Como um corisco, meu amigo num cochilo quase se estabacando no chão deu um pulo por cima da ligeireza, ficou de pé olhando-me firmemente pediu para eu lê o texto. Com ar zombeteiro perguntou para qual time meu amigo torcia. respondi usando linguagem de sinais) F-L-A-M-E-N-G-O. O cabra arreganhou os dentes num sorriso de deixar Gal Costa com vergonha, sapecou:
Cumpadi Brito, tu tá abestado mermo. Esse seu amigo aí não é mais Framengo ele alinhavou tudo bunitin nesse papel, só pra dizer num ama mais Framengo e tá procurando um novo amô. Falou e disse Delegado.
Como campeões da Taça Guanabara, nós botafoguenses estamos de braços e peito abertos para recebê-lo. Afinal, como dizem por aí: amigo é pra essas coisas. Saudações alvinegras meu bom Edilson Pinto.
José Brito e Silva - Publicitário e cartunista
07/02/10
Sete vida
Ela resolvera criar um gato. Ou melhor, nada resolvera, tudo não passou de um acaso. Andava pela calçada entretida com sua própria solidão quando se deparou com um filhote de gato no meio-fio. Jamais gostara de gatos. Quando muito, sua afeição por animais limitara-se a um poodle que tivera quando adolescente e um trio de peixes beta que morreram por excesso de alimentação.
Portanto, surpreendeu-se interrompendo a caminhada para olhar o felino: era cinza, completamente cinza, o que conferia a seus olhos azulados uma tristeza infinita. Emitiu um miado indicando fome, certamente.
Quase reiniciara a caminhada quando olhou novamente para o gato; teria sido abandonado, com o ela mesma o fora? Talvez por essa associação de idéias, somada à compaixão, resolveu, com alguma repulsa, pegar o animal e levá-lo para casa.
Uma vez em seu apartamento, arrependeu-se do que fizera. O felino miava com desespero e tremia de fome. Pensou em ligar para uma miga que criava um par de gatos persas, mas, desistiu. Cortou em pedaços pequenos um peito de frango esquecido na geladeira e colocou em um pires no chão da área de serviço. O animal devorou a comida rapidamente e continuou miando. Ela lembrou-se que ele teria de beber água e colocou uma vasilha ao lado do pires. Tendo bebido a água, o gato encolheu-se em um canto perto da máquina de lavar e dormiu como guerreiro que sobrevive a uma encarniçada batalha.
Igualmente cansada e também sobrevivente, ela olhou o gato insone e teve vontade de chorar. Conseguiu controlar-se, tomou um banho e deitou no sofá tentando entender porque Roberto a deixara. Era certo que estavam brigando quase diariamente e também era certo que ela mesma pensava em separação. O que ela não conseguia aceitar era que ele tivesse feito as malas e partido, quase na calada da noite, sem uma conversa a mais, sem uma despedida, sem deixar que ela desabafasse tudo que lhe envenenava e sufocava.
Acordou no dia seguinte, molhada de suor e torta da noite no sofá, com o gato lambendo seu tornozelo. Seu primeiro impulso foi de chutar o animal, mas, controlou-se e terminou comovida com os olhos tristes que a fitavam, a pedir comida, água e, talvez, um pouco de carinho. Não sabia como alimentá-lo. Durante dois dias dividiu com o bichano os restos de hambúrgueres e enlatados. Nas compras semanais incluiu ração para gatos. Percebeu que estava se afeiçoando ao pequeno animal, que cada vez mais mostrava menos melancolia nos olhos. Superou a repulsa inicial e passou a segurá-lo, descobrindo que se tratava de um macho. Já que não vou conseguir me livrar dele e vou mantê-lo aqui, é melhor que lhe dê um nome., pensou. Resolveu chamá-lo de Victor, em homenagem ao compositor chileno assassinado pela ditadura. Com o passar dos dias passou a chamá-lo de Vitinho, mas, por aquela razão enigmática pela qual surgem os apelidos, começou a tratá-lo como Zequinha. Gato tranqüilo e silencioso – quando bem alimentado – pouco ou nada alterou a vida da nova dona, salvo, talvez, a caixa de areia que tivera de providenciar, ajudada pelo zelador do prédio.
Zequinha passou a ser a única companhia na solidão de sua dona, que, por mais que passarem os dias, semanas, esperava que Roberto entrasse pela porta adentro. Desejava mostrar ao ex-marido o gato, por quem aprendera a nutrir carinho e respeito. Até que um dia Roberto ligou, mas, não para comunicar a volta para casa. Queria o divórcio, pois pensava em se casar novamente. Ela mergulhou em pranto e vodca, naquela noite em que sua alma parecia querer sair do corpo. No dia seguinte, ressacada, tentou se recompor para tomar decisões. Ainda enjoada, saiu do banheiro e viu Zequinha na mureta da varanda. Não acostumada ao equilíbrio inerente aos gatos, desesperou-se e correu na direção dele, que, por precaução ou susto, pulou para baixo, caindo do terceiro andar. Não teve coragem de olhar para baixo, imaginando o bicho de estimação em uma poça de sangue. Sentou-se ao sofá chorando, quando ouviu a campainha. Era o zelador com o gato, vivo, inteiro, na mão. Gato tem sete vidas, dona, sorriu.
Passou a amar Zequinha. Comprou-lhe uma cesta para dormir, rações mais saborosas, brinquedos. Dormia sentada no sofá acariciando a cabeça ou o pescoço do gato, que dormia junto com ela. Sentia-se mais sozinha do que nunca, sem família, sem amigos, sem Roberto. Tinha apenas o bichano, com nome de poeta e apelido carinhoso.
Até que um dia aconteceu tudo ao mesmo tempo. Roberto ligou comunicando que se casaria em breve e os papeis do divórcio estariam prestes e sair. Foi quando ela saboreava sorvete de nata na mesa da sala e viu Zequinha saltar pela janela. Nada demais, ele retornaria em breve, guiado pelo instinto e pela afeição, ou o zelador o traria de volta. Nada disso aconteceu. Passaram os dias e o gato não retornava. Primeiro ela se desesperou, depois procurou-o na rua, na vizinhança, e, por fim, se confirmou. Não nasci para ter nada nem ninguém, pensou. Alternava sorvete, comida enlatada e uísque barato em dias mortos, até que tomou a decisão, de forma serena e natural. Comprou, com a ajuda de uma amiga farmacêutica e uma desculpa esfarrapada, duas cartelas de Drazil. À noite, juntou os comprimidos todos – dezesseis – em um pires, armou-se de um copo d´água e outro de uísque, à espera da coragem necessária para a decisão final. Bebeu duas doses de uísque e sentiu o sangue se aquecer. Em seguida, lembrou de Zequinha, do aia em que, seduzida pelo olhar triste do gato, acolheu-o em sua casa. Ele poderia ter morrido na rua, atropelado, envenenado, mas, conseguiu sobreviver. Ele tinha sete vidas, divertiu-se. Porém, eu não tenho sete vidas, mas, apenas uma!, pensou Ficou um longo tempo imóvel, ouvindo o som desconexo dos apresentadores do telejornal. Em seguida levantou-se, foi até o banheiro, onde jogou os remédios no vaso sanitário e deu descarga. Suspirou e entrou no banho tentando lembrar se o restaurante oriental da esquina ainda estaria aberto àquela hora.
Cefas Carvalho - Jornalista e escritor
31/01/10
Boite Star
Hoje, 11 de agosto, de 2009, escascaviando meu baú de memórias, dei de cara com uma história já empoeirada, com vestígios de teia de aranha, algumas cenas sem muita nitidez, amareladas, outras corroídas, bolorentas pelo implacável tempo. Bati-lhe o pó, hei-lha:
Lá pelos idos dos anos 80, todas as sextas-feiras era prego batido e ponta virada: eu, Laércio Eugênio, Sandro, Marcelino, Galdino, Júnior Barba e MarcosPapel fazíamos motim, numa tentativa de avexar o editor, (Nilo Santos/Kléber Barros) no fechamento da capa do jornal Gazeta do Oeste.A estas alturas, nossas solitárias já estavam de bico aberto, pedindo desesperadamente uma dose de cana, devidamente acompanhada de um bom e suculento prato de mão-de-vaca, lá do Ponto Frio.
Em passos de tartaruga, com zelo metódico que lhe era peculiar, o velho Kléber (in memória) entregava a capa do jornal, na velocidade da luz, as palavras que podiam mudar opiniões, rumos políticos, sociais ou apenas informar o placar do jogo Barrigudos da Gazeta x Pingunços da Astecam, passavam por minha sala, sem a maior importância, rumo ao laboratório de fotolito. Enquanto o “cão” esfregava o zóio, nós, no mínimo, já tínhamos bebido umas 10 de meiotas. Chovesse ou fizesse lua, nossa pontualidade era inglesa: Ponto Frio, O Sujeito, O Sujeito, Ponto Frio.
Num belo, 20 de julho, dia do meu aniversário, soubemos de um “inferninho”, chamado Boite Star, que seria inaugurado, lá pras bandas do Alto de São Manoel. A caninga foi tão grande que o Nilão (Nilo Santos) não agüentou, decidiu fazer a capa, estilo jornal europeu: uma foto ocupando toda metade superior da página, uma manchete com letras garrafais e duas ou três manchetinhas. Pé na tabúa, lá fomos nós.
Gente saindo pelo ladrão, em frente a “boiti”, mundiça toda reunida, hora de enfrentar o porteiro. Laércio Eugênio Cavalcanti encabeça a lista indiana, dá uma carteirada: “imprensa”. O porteiro pega a carteira põe na mão espalmada e aperta com a outra:
- Pronto, imprensei. Agora, a bilheteria é daquele lado! Diz o sujeito com o poder de um soldado, pensando ser coronel.
- Amigo, eu trabalho na Gazeta do Oeste, sou da imprensa! Argumenta o teimoso Laércio.
- Eu trabalho no Brasão e hoje sou porteiro dessa boiti! – Disse o porteiro zombando.
Sem saída, tivemos que gastar nosso rico dinheiro com os ingressos. Corriola junta, feito a cota, a soma não dava nem pra tomar um burrin com coca-cola. Cambada meio desanimada, quando Laércio Eugênio Cavalcanti chama o garçom, manda juntar três mesas, se senta na cabeceira e pergunta se tem cerveja gelada, afirmativamente o prestativo senhor responde que sim:
- Então, bote cerveja como quem bota milho pra jumento, hoje eu pago. Disse o endinheirado Laércio!
O garçom escancarou uma risada de orelha-a-orelha, olhando aquela ruma de papudim, pensou em se dá bem.
Entre uma beiçada e outra saíamos a “caça” de uma “lebre” para balançar o esqueleto. Laércio em uma dessas arrudiadas, em torno do salão, viu um casal encangado no canto da parede, num “sarro” que não passava um fio de cabelo entre os dois:
- Com licença. Disse Laércio Eugênio, batendo nas costa do rapaz.
- Que é isso bicho, cê doido, num ta vendo que a gente ta namorado? Falou o incrédulo rapaz.
- To vendo sim, mas eu só quero dançar com sua namorada! – Insiste Laércio.
- Ô bicho, assim vou ter lhe dar umas porradas, você ta abusando! – Disse o valentão.
- Eu não quero brigar com você. Só quero dançar com sua namorada – Persistiu Laércio Eugênio Cavalcanti.
Fuzuê formado, a turma do deixa-disso entra em ação, paz reina novamente. O Garçom pegando piaba num canto, em um desses cochilos cai da cadeira, com cara de pouco amigos, diz não ter mais bebida. Laércio Eugênio Cavalcanti pede a conta, prontamente atendido pelo dono:
- Aqui, deu R$ 500,00, vai pagar em cheque ou dinheiro? – Indagou o prestativo senhor.
- Em dinheiro! Tome R$ 5,00 depois eu pago resto – Falou o liso Laércio Eugênio Cavalcanti.
- É o quê seu cabra safado? Ou paga tim tim por tim tim ou leva uma camada de pau, depois mando todos vocês pro xilindró. Ameaçou o dono da boate.
Neste momento chega Abel Rodrigues (irmão do Advogado Olímpio Rodrigues) acalma o dono do estabelecimento, se comprometendo em pagar a devida e dividida dívida, logo à tardinha. Garçons, seguranças e até o cozinheiro, já estavam em prontos pra arriar umas boas cipoadas nos boêmios. Fomos salvos pelo hetero Abel.
José Brito e Silva - Publicitário e cartunista
25/01/10
A cura indesejada
“Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure”
(Vinícius de Morais)
Penso que São Paulo se equivocou ao dizer que o amor tudo crê, tudo espera e tudo suporta. Não é bem assim. Afinal, o amor, como alertava Drummond, é bicho instruído. Portanto, ele pode pular o muro, subir na árvore em tempo de se estrepar: “Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que escore do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca/ às vezes sara amanhã”.
E o danado é que às vezes sara mesmo. Mas, e o amor é doença para sarar? Claro que é. Se não fosse, Camões não teria dito: “Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente”.
Padre Antônio Vieira (duvido que alguém escreva melhor do que ele) também considerava o amor uma doença - que deveria ser incurável, mas, infelizmente, tem cura. E quais são os remédios do amor, segundo Padre Vieira? São apenas quatro, mas com um poder de curar extremamente potente...
O primeiro remédio é o tempo. Por isso que Cupido, deus do amor, é pintado como criança, pois “não há amor tão robusto que chegue a ser velho”. O passar das horas faz com que as flechas de Cupido percam a potência; que o amor que é cego passe a enxergar; que suas asas cresçam e ele voe para bem longe... o tempo gasta o ferro com o uso, diz Vieira, que dirá o amor! “O tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto...”.
O segundo remédio, para curar o amor, é a ausência. Ora, se com a proximidade as flechas de Cupido correm o risco de não nos atingirem, que dirá com a distância... “A ausência tem os efeitos da morte: aparta, e depois esfria... tudo esquecido, tudo frieza”. E o fogo que arde sem se ver, com a distância, vira um deserto polar.
O terceiro remédio é ainda muito mais poderoso do que os dois anteriores. O seu poder de ação é quase instantâneo: a ingratidão é mortal para o amor. “Se o tempo tira do amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo”. E o danado é que só os amigos são ingratos. Era por isso que Nelson Rodrigues dizia que “só os inimigos são fiéis”, já que estes nunca serão ingratos e nem nos trairão. Não foi a toa que Cristo se queixava de que semeando grandes benefícios nos corações dos homens, se colhia maiores ingratidões...
Por fim, se o amor foi capaz de resistir até aqui - embora duvido que exista amor que consiga vencer: o tempo, a ausência e a ingratidão-, chegou a vez do mais eficaz de todos os remédios, o que até hoje, ninguém deixou de sarar: o melhorar de objeto, que nada mais é do que conseguir um outro amor. “Dizem que um amor com um outro se paga”, alerta Vieira, “mas o certo é que um amor com um outro se apaga”... as estrelas conseguem brilhar nas trevas, no entanto, numa luz ainda maior que é o Sol, elas desaparecem, deixam de brilhar...
Infelizmente, o mundo está se curando do amor. Hoje, os relacionamentos são pelos celulares e internet, ou seja, ausentes e distantes. E com o passar do tempo serão tão frios que as terminações nervosas, que os unem, ficarão anestesiadas, e “o amor que não é intenso”, adverte Vieira, “não é amor”... Triste humanidade que não consegue debelar um vírus de uma gripe suína, mas que é extremamente “competente” para destruir o vírus do amor...
Francisco Edilson Leite Pinto Junior - Professor, médico e escritor
20/01/10
Sucessão Arbitrária
Alguém já imaginou uma situação em que uma das partes interessadas numa decisão é chamada para decidir a questão? Claro que o resultado só poderá estar viciado, será tendencioso e arbitrário. Pois é o que está ocorrendo com a auto-hemoterapia no Brasil. Não existe nenhuma norma que a proíba, mas está proibida pela ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que baseou sua decisão em parecer dado pelo CFM - Conselho Federal de Medicina.
Os defensores da técnica - que combate e cura doenças com a retirada de sangue da veia e aplicaçãoimediata no músculo - questionaram as decisões anunciadas no âmbito do Ministério da Saúde, solicitando que o assunto fosse analisado de forma completa, vez que até agora a decisão foi tomada com base em dados superficiais. Imaginem a quem o Ministério da Saúde, a pedido do Gabinete da Presidência da República, foi ouvir: exatamente aqueles que tinham se manifestado contra a aplicação da auto-hemoterapia. As opiniões são as mesmas e baseadas sucessivamente nas mesmas argumentações distorcidas.
Os fatos se deram da seguinte forma: a enfermeira Maria Antonina de Sales, em nome dos usuários e defensores da auto-hemoterapia, enviou carta ao Presidente da República encaminhado junto abaixo-assinado que pede a liberação do uso da técnica no Brasil. O assunto foi encaminhado ao Ministério da Saúde, onde foi apreciado pela Coordenação Geral de Sangue e Hemoderivados. Agora a Secretária de Atenção à Saúde Substituta, do Ministério da Saúde, Cláudia R. da Silveira Bernardo envia resposta simplesmente reafirmando o que todo mundo já sabia, sem adotar qualquer providência que levasse a nova avaliação do assunto.
Mais estranho ainda é que o Ministério da Saúde trata do assunto como se fosse submisso ao Conselho Federal de Medicina, quando a realidade devia ser o contrário: o conselho profissional é que se submete às determinações do Poder Executivo. Desta forma, a sociedade brasileira está refém de uma decisão arbitrária, superficial e injusta, que proíbe a auto-hemoterapia comum, mas permite o seu uso nas salas de cirurgia através dos procedimentos denominados Tampão Sanguíneo Peridural e Plasma Rico em Plaquetas. A auto-hemoterapia comum, que está proibida, tem o custo de uma seringa, um pedaço de algodão e álcool. As que são permitidas têm preços que chegam até Cr$ 3.000,00 por aplicação.
A eficácia da auto-hemoterapia na cura de inúmeras doenças vem sendo comprovada há mais de cem anos. A cada dia surgem novos fatos que indicam essa verdade. O Ministério da Saúde, a ANVISA e o CFM, no entanto, parece que pararam no tempo, pois para todas as manifestações e solicitações, inclusive do Presidente da República, têm sempre a mesma resposta: a de que permaneceria o consenso segundo o qual a auto-hemoterapia não teria comprovação científica. Caso a questão fosse a julgamento em mãos isentas, a resposta seria outra; até porque seria levada em conta a verdade das inúmeras comprovações existentes.
Walter Medeiros - Jornalista - waltermedeiros@supercabo.com.br
13/01/10
Terra seca, rachando
Lá pelo final da década de 80, Mossoró já contava com seus talentos iniciando pela curiosidade e pela identificação na área de propaganda, publicidade e marketing. Antes mesmo de Rogério Dias e o seu irmão, Ivanaldo Xavier, oficializarem a Auge Propaganda, uma das agências pioneiras, dentro dos padrões legais e ajustada à necessidade de mercado do seu tempo.
Nesse prisma, já era salutar a parceria, até porque ninguém envolvido com esse tino reunia condições financeiras para montar uma agência. Segundo, porque todo trabalho criativo e de abrangência, principalmente que vise persuadir um público alvo, depende dede quadros pessoais que formem o pendão norteador de um trabalho proposto.
Embalados pela magia dessa descoberta, eu, Laércio Eugênio e Brito e Silva começávamos a desenvolver algumas parcerias. Brito e Laércio, chargistas, desenhistas, bons na arte como são até hoje, só que com mais experiência. Juntei-me a eles para produzir os textos. Não havia os recursos da Internet como o hoje indispensável suporte do Google. Tudo era feito no peito e na raça. As artes eram pontilhadas no lápis, a diagramação na cola bastão. Para o aprimoramento líamos Torben Vestergard, Kim Schroder, Mena Barreto e outros do gênero. O resto era por nossa conta.
Esses resquícios de doces lembranças foram para resgatar um episódio, entre tantos, que marcaram a nossa produtiva convivência no campo da criação. Há sempre de ter os episódios.
Acho que, intermediado pelo porreta comunicador, o camaradinha Caby Costa Lima, nós fomos sondados para executar uma campanha publicitária. O cliente desejava uma campanha completa, que envolvesse rádio, jornal, televisão e outdoor. Sentimos o peso da proposta, porém não fugimos à luta. Como não existia sede, a gente se reunia na casa uns dos outros, conforme as conveniências.
Pegamos pressão, estávamos cheios de vontade. O cliente era o empresário Aurizilênio Leão Carlos, a empresa a EAPA Projetos Agrícolas. Marcamos o primeiro encontro para esse trabalho na casa de Laércio no conjunto Abolição. Era um período de inverno rigoroso e naquela noite despencava do céu mais uma chuva grossa. É tanto que como dependíamos de carona, eu e Brito chegamos atrasados, mas não seria aquele toró que iria impedir que a gente varasse a madrugada até produzir o maior número de peças para serem submetidas à apreciação.
Centralizamos a campanha na proposta da empresa em estimular os produtores rurais através dos seus projetos. A EAPA era a solução para alavancar o setor agrícola na região. Nessa linha idealizamos as peças para outdoor, jornal e rádio. Faltava a televisão.
O tempo corria na velocidade da água que caía do telhado em correntes clareadas pelos relâmpagos no compasso com as trovoadas. E a gente queimando pestana entre sucos, cafés com bolacha e cigarro. E a chuva que teimava em nos acompanhar sem perder o ritmo.
Foi então que, para a propaganda da televisão, alguém sugeriu que fosse feita uma fotografia de um terreno rachado pela seca, na tela, onde ao longe, surgiria a logomarca da empresa, amiudada, mas crescente ao avançar sobre a terra seca. E da forma em que, se observada de uma altura alpina lançasse uma luz por onde passasse, semeando a terra e fazendo brotar uma plantação. Na sintonia, um texto enaltecedor. Era aquilo. Estava tudo pronto.
Relaxamos realizados, mas antes que nós escolhêssemos o fotógrafo para colher a imagem da terra seca, eis que alguém lembrou:
_
Com essa chuvarada, onde diabos a gente vai encontrar uma terra seca, rachada?
A ideia virou água, literalmente e tivemos que mudar toda campanha, deixando-a para outro dia. Algumas peças ainda chegaram a ser veiculadas. Mas nada de televisão.
Gilberto de Souza - Diretor de redação do Gazeta do Oeste - http://cadernomil.blogspot.com/
11/01/10
Mediterrâneo
Conheci o Mediterrâneo. O mar, não o resort pra bacana lá na Bahia. Meditarranée, sotaque de acarajé francês. Paraíso e salvação da futilidade abastada e proliferante. Estive no Mediterrâneo- a parte que emoldura a Itália, em menos de duas horas e voltei.
O seu infinito eu contemplei, águas de profunda solidão. Beleza de esplêndida melancolia como se a separar céu e oriental atlântico, houvesse apenas uma linha pontilhada pelo olhar de cada um.
Inigualável o meu passeio. Não vi ostentações, luxos nem farofadas. O Mediterrâneo é uma tentação que o
meu desprezo oceânico havia esquecido.Numa prateleira cheia de filmes do meu quarto.
O Mediterrâneo(o meu, pelo menos), foi um pacote que não custou mais do que 50 pratas numa loja de Brasília. Chegou e ficou empoeirado até que o tédio me empurrasse como num mergulho aventureiro.
A viagem que me renovou foi feita sem malas, bagagens, compras, check-ins ou comissários sempre iguais, nos trejeitos e recomendações. Vivem numa redoma invisível, as aeromaquiadas e os aeromoços, muito moços, tão afetados, quase moças, alguns rapazes.
Entre eles e nós, os passageiros, um abismo bem maior que o corredor separando poltronas.
Fui e cheguei sem sair da sala. No mar de espelho em penumbra, incerteza, desconfiança, admiração, ternura, esquecimento, amor, aproximação, distância,arrependimento.
Um carteiro, um poeta. Um filme.
Mário e o ídolo Neruda.
Mário, vivido por Massimo Troisi, morto por um ataque cardíaco um dia após encerradas as gravações.
Nem Nelson Rodrigues escreveria uma vida tão real.
Sentimento Mediterrâneo me inunda.
E eu cá, a expulsar meus sargaços interiores.
Rubens Lemos Filho - Jornalista e escritor
Era uma vez
Ciço Moço era um caboclo de quase 2 metros de altura, uma lapa de negão, quer dizer: negão-sul-amaricano-afro-decendente-da-mamãe-áfrica. O Cabra tinha pra mais de légua de beiço, um sorriso escancarado, como cancela de fazenda abandonada, ornamentava sua cara de mentiroso do pé roxo, o sujeito era uma figura ímpar. Como dizia uma tia minha que nasceu morta: uma alma boa, não fazia mal a uma mosca.
Por volta das cinco e meia (5h30), Ciço Moço botava seu tamborete na esquina da casa para espiar o sol deitar-se por entre a mata seca e as águas do açude Grotão. Ritual, que repetia de domingo a domingo,porém, antes do último raio de sol desaparecer, o rádio anunciava a Hora da Ave Maria, Ciço então espichava os zuvido até a janela e de joelhos bodejava, sabe-se lá o que, só se entendia o final ladainha: que nos proteja do malamém!
De rabo de olho, Ciço dava espiada averiguando se vinha alguém, nada. A angústia lhe fazia reboliço nos seus miolos, mas, antes de da tristeza empalidecer sua pele escura, a meninada começava a chegar: um sambudo, dois sambundos, três sambundos, em poucos de segundos a platéia estava formada. Todos sentados no chão, de frente para Ciço:
- Ciço conta uma história pra gente! Com olhar de pidão, suplicava Chiquin.
- Eu não. Ouvi dizer que me chamaram de mentiroso! – Respondia Ciço, sabendo que sua fiel platéia não sairia dali sem ouvir uma de suas estórias.
- Num foi nóis, não! Responderam em coro, os barrigudinhos.
- Olhem, nada nessa vida é de graça. Vocês me dizem uma coisa, depois, eu conto o conto que a Caipora me disse ontem de noite. Ciço Moço aguçando a curiosidade dos catarrentos.
- Tem uma coisa, mas, mamãe disse que é fofoca e, é feio fofocar. Falou Cizin.
- Se é fofoca, num quero nem saber, mas já que você insiste, pode contar. Diz Ciço.
- Minha irmã perdeu o cabaço, o namorado dela fugiu pra capital. Desconfiado, Cizin confessou.
- Vigi Maria. Vamos deixar o caboço da sua irmã de lado, essa história morre aqui. Sentenciou o distante Ciço, que já estava de mala e cuia atrás da dita cuja: “to precisando arriar o óleo, amanhã mesmo vou fazer uma visitinha, a irmã do Cizin, inté que ela é jeitosinha...”
Assustado com a zuada da bruguelada gritando, o “voador” Ciço aterriza. Ajeita-se no tamborete, acende seu cigarro de palha, dá umas três baforadas, dispara uma silênciosa bufa, balança o fundo da calças liga sua afiada e mentirosa língua: Era uma vez...
José Britro e Silva - Cartunista e Publicitário
21/12/09
Sai 'Folioduto', entra 'Fabioduto'
Parece até que o “capitão” Rodrigues Neto está fazendo escola. Questionado recentemente por um repórter Novo Jornal, o presidente da Fundação Capitania das Artes disparou que estava “cagando e andando” para os eventuais críticos de sua controvertida maneira de gerir a coisa pública. A partir daí a coisa desandou a feder e parece ter contaminado considerável parte do borboletário verde da prefeita Micarla de Sousa.
Outra razão não há que justifique o escandaloso fato de a Prefeitura do Natal ter que desembolsar a “módica” quantia de R$ 221 mil pela apresentação dopadre-cantor Fábio de Melo, na noite véspera do Natal, no estádio Machadão. Só para se ter uma ideia, o último show do cantor Roberto Carlos na cidade, este ano, custou à iniciativa privada a bagatela de R$ 150 mil. E olha que ele desembarcou aqui de “aero-rei” trazendo consigo todo o equipamento, pessoal de apoio e músicos, a hospedagem já incluída.
Em sua coluna na Tribuna do Norte, ontem, o jornalista Woden Madruga – a pretexto de comentar o futebol – abriu um generoso parêntese para o momentoso assunto: “E por falar em futebol, o padre Fábio de Melo é o craque da semana. Cracão. Faturou, por menos de uma hora no Machadão, 221 mil reais. Dinheiro bancado pela Prefeitura de Natal, que tem um saco maior que o de papai noel. Tardinha de ontem na calçada do Cova da Onça, mestre Gaspar fazia comparações:
- Adriano, o Imperador do Flamengo, tem salário mensal de 400 mil reais, apontado como o mais alto do futebol carioca e um dos maiores do país. Para botar toda essa grana no bolso, Adriano tem que jogar duas vezes por semana ou oito por mês. Isso quer dizer exatamente que cada vez que joga (e são 90 minutos com intervalo de 15) Adriano recebe 50 mil paus. O padre Fábio não cantou mais de 50 minutos e o seu cachê foi de 221 mil reais. Adriano bota no Maracanã 80 mil pessoas; padre Fábio não conseguiu atrair ao Machadão nem 15 mil.”
Batizado pelos internautas de “Fabioduto”, o indecoroso cachê tem rendido para a verve popular até mais que as chuvas para o próprio Madruga, um incorrigível perseguidor de nuvens. Observador atento de nossas mazelas culturais e políticas, o poeta Laélio Ferreira registrou o lamentável episódio em forma de versos tragicômicos. Partindo do mote “Na parede trave a bunda /Padre Fábio está chegando”, ele glosou sem medo de ser feliz:
Nas Boas-Festas abunda
a fama do sacerdote…
- O bonitão come brote,
na parede trave a bunda!
Arranjou-se uma barafunda
e a coisa foi engrossando:
muito dinheiro rolando,
muita conversa-fiada…
- Proteja a traseira amada,
Padre Fábio está chegando!
O sacolejo natalino da batina mais alegre e dispendiosa do Brasil tem rendido que não acaba mais. Na blogosfera, então, nem se fala. A começar pelo jornalista Ricardo Noblat, que traçou um comparativo dos mais altos cachês cobrados pelo show-business brasileiro e lançou o desafio: “Você entregaria sua alma aos cuidados do padre Fábio?” Nem foi preciso responder. O borboletário verde ficou numa agitação que só vendo. Mas o lugar mais apropriado para quem quer inteirar-se do assunto, todavia, continua sendo o blog da jornalista Laurita Arruda Câmara.
Transformada involuntariamente no principal holofote do “Fabioduto”, a titular do Território Livre foi publicamente desancada pelo bad boy Eugênio Bezerra, o controvertido “assessor especial” da prefeita Micarla de Sousa. Ele ameaçou detonar de seu twitter um suposto “babado forte” envolvendo a vida privada da moça, caso ela não parasse de abordar o escândalo, mas terminou por confirmar o adágio popular de que “cão que ladra não morde”. Acovardou-se diante da enorme repercussão negativa da ameaça que fizera e que originou toda a polêmica.
Do blog de Laurita, aliás, extrai-se um comentário de fatura especulativa mas não menos interessante. Sobrescrito pelo internauta Elves Alves, eis o seu inteiro teor:
“Tá no prelo da Gráfica Manimbu, da Fundação José Augusto, um cordel curiosamente intitulado “A facada do padre e a cagada do capitão”. [Grifo nosso] Uns especulam que trata-se do escândalo natalino conhecido como “Fabioduto”, ou seja, o cachê escorchante de R$ 221 mil cobrado pelo padre Fábio de Melo à prefeitura de Natal; outros dizem que é sobre a doutrina filosófica (”Filosofia da vaca”) instaurada pelo presidente da Capitania das Artes, o impávido “capitão” Rodrigues Neto, que disse estar “cagando e andando” para os eventuais críticos de sua glamurosa gestão. Pelo sim, pelo não, prefiro apostar nas duas hipóteses, menos que o autor da obra venha a ser o cordelista Crispiniano Neto, presidente da FJA. Assim já seria demais, né…?”
Ora, se é.
Incontinência fecal à parte, o “Fabioduto” tem lá a sua parte positiva. Na tentativa desesperada de represar a sua repercussão, fazendo valer até mesmo ameaças veladas e intimidações anacrônicas, os debochados mandarins do Palácio Felipe Camarão terminaram por revelar que, pelo menos na seara cultural, o seu modus operandi é idêntico ao do Governo do Estado: secreto e guardado a sete chaves. Realmente é um governo que, se “andando” está, é num passo quase imperceptível, mas que está “cagando” copiosamente, disso não resta a menor dúvida.
Paulo Sérgio Martins - jornalista
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