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10/09/08

21/12/09

Mito e realidade


A esta altura ninguém se importa mais com a decoração natalina da cidade, no começo do mês bastante criticada pelo mau gosto de algumas peças penduradas nos postes e até as figuras colocadas nos canteiros da BR-101 acusadas nos pequenos acidentes de desviar atenção dos motoristas. É que a poucas horas da celebração do Natal, muitos se voltam mesmo é para as festas que a partir de agora se estenderão até o Ano Novo e com direito a prorrogação pelo feriado de Reis Magos, na quarta-feira, 6 de janeiro.   O clima já envolveu a todos – o comércio não tem do que reclamar – e as reuniões de

confraternização vão se sucedendo – umas terminando em tristeza, como a ocorrida na madrugada deste domingo em uma granja de São Gonçalo do Amarante. Abraços – uns de tamanduá – se repetindo. Sorrisos – alguns de hiena - e os desejos – a maioria só da boca pra fora - de Feliz Natal. Tem ainda os cartões de Natal que agora chegam também pela internet, muitos em forma de mensagens, a maioria de reflexão sobre a festa que mobiliza toda a humanidade esta semana.

                  Uma dessas mensagens parece traduzir com mais força o clima da festa, vista por Ele mesmo. Entre as diversas versões, umas até assinadas, outras de autor desconhecido, a que mais desenha o cenário atual, começa com uma hipotética pergunta do aniversariante e o seu desdobramento: - Como você sabe, o Meu aniversário está chegando. Todos os anos tem festa em minha homenagem e creio que este ano acontecerá a mesma coisa. Nesses dias as pessoas estão fazendo muitas compras. No rádio, jornal e televisão saem muitos anúncios. Por toda a parte não se fala de outra coisa a não ser nos preparativos para o grande dia.

                  É bom saber que pelo menos um dia no ano algumas pessoas pensam um pouquinho em mim. Já faz muitos anos que começaram a comemorar o meu aniversário. No início parecia que as pessoas se davam conta e estavam agradecidas por tudo o que eu havia feito por elas, mas a maioria, hoje, não parece saber direito a razão de tanta festa. Apesar disso, gosto de ver as pessoas se reunirem e se divertirem. Fico feliz por ver tantas crianças sorrindo felizes. No ano passado, quando chegou a época do meu aniversário fizeram uma grande festa – coisas deliciosas na mesa, tudo bem decorado e havia muitos presentes – mas, sabem de uma coisa? Não me convidaram.

                  Imagine tudo preparado com antecedência, mas esqueceram de convidar o homenageado. A festa era para mim e quando chegou o dia, deixaram-me de fora. Na verdade, não estranhei, porque nos últimos tempos muitos me fecham a porta. Apesar de não ter sido convidado, achei que seria bom entrar de mansinho, sem fazer ruído e ficar num cantinho. Todos estavam bebendo, comendo e se divertindo quando, de repente, entrou um homem gordo com uma roupa vermelha e uma barba branca postiça, tentando imitar uma risada: “ho, ho, ho!”. Parecia ter bebido demais e deixou-se cair pesadamente numa cadeira e todos correram para ele gritando: “Papai Noel, Papai Noel!”, como se a festa fosse para ele.

                  Quando chegou meia-noite, todos começaram a abraçar-se. Estendi meus braços, esperando que alguém me abraçasse. Ninguém me abraçou. De repente, todos começaram a entregar presentes. Um a um os pacotes foram sendo abertos. Cheguei perto para ver se, por acaso, havia algum para mim e nada! Compreendi que estava sobrando na festa. Sai sem fazer barulho, fechei a porta e fui embora. Cada ano que passa é a mesma coisa: as pessoas só se lembram da ceia, dos presentes, das festas. Nem sequer mencionam o nome do aniversariante. Só dizem “Boas Festas”.

                  O Natal - não custa lembrar - é o Aniversário de Jesus Cristo que, para os cristãos, ainda vive, pois morreu e ressuscitou. Assim, não se trata de uma festa qualquer, mas a celebração daquele que é descrito como o Filho de Deus, o Rei dos reis, o Príncipe da Paz, o Cordeiro de Deus, o Salvador. Quanto a Papai Noel é uma figura natalina surgida em 1823, cujas atuais roupas vermelhas só apareceram no século 20, em uma tentativa da Coca-Cola de conquistar o público infantil.

                  Direito de pergunta: Você vai ter um Natal com Jesus ou com Papai Noel? Quem vai enfeitar as janelas de sua casa: um presépio com Jesus, Maria e José ou Papai Noel com suas renas e pinheiros cobertos de neve, em pleno verão nordestino? Quem dos dois existiu de fato e quem é apenas uma lenda? As crianças da sua família ouvirão falar mais de Jesus Cristo ou do Papai Noel? Se ainda não dá para decidir entre a realidade e o mito, convide os dois e Feliz Natal.

Wellington Medeiros
- Jornalista. 

15/12/09
Carta a Lucas

Querido filho,

Agora entendo perfeitamente o porquê de Machado de Assis, ter dito: “Não transmiti a ninguém o legado da nossa miséria...”. É claro que o Bruxo do Cosme Velho percebeu que este mundo não era digno das crianças... Agora entendo mais ainda, quando Nietzsche gritou para que todos ouvissem: “Deus está morto!... E nós o matamos. Como podemos nós, os assassinos entre os assassinos nos consolarmos?!”.Pois é... matamos Deus, quando aceitamos que o dinheiro público, ao invés de ir para os hospitais, fiquem alojados nas cuecas - e agora também nas meias - de centenas de milhares

de desonestos engravatados; matamos Deus, quando permitimos que pessoas morram de fome, enquanto essa mesma cambada de desonestos engravatados nos roubam diariamente; matamos Deus, quando deixamos as nossas crianças fora das escolas, pois o dinheiro foi desviado para pagar os mensalinhos e mensalões da vida...

Pois é meu filho, a humanidade - caminhando em passos de formiga e sem vontade-, se dirige, rapidamente, para sua autodestruição. Terremotos, tsunamis, enchentes, etc. etc. tudo isso, é nada mais nada menos do que o universo nos dizendo: “Pare! Reflita! Mude!”.

Veja meu filho, chegamos ao ponto de que ninguém aceita mais uma generosidade. No meu último artigo, em que dei de presente um lenço e um livro (“A arte da guerra”) aos derrotados pelo FLAMENGO, no brasileirão de 2009, sabe o que foi que recebi em troca? Uma enxurrada de e-mails mal criados! Principalmente dos torcedores do Vasco. É isso mesmo, meu filho: quanta ingratidão! Logo eu, que tanto admiro o desprendimento, o desapego e a falta de ambição do time crusmaltino, confesso que fiquei estarrecido com esse comportamento... eu não merecia isso... eu não merecia...

Até e-mails me chamando de louco, recebi. Mas, esquecem estes que me acusam, de que louco, segundo Chesterton, é aquele que perdeu tudo menos a razão. E razão tenho eu, quando ofereço de presente (eu sei: a gentileza neste mundo é um crime também) o livro “A arte da guerra”. Até por que, quando eles nos acusam de termos ganhado devido à ajuda do STJD, dos juízes, dos times do Corinthians e Grêmio, assim o fazem por desconhecerem o que diz Sun Tzu, na página 26: “O chefe habilidoso conquista as tropas inimigas sem luta; toma suas cidades sem submetê-las a cerco; derr ota o reinado sem operações de campo muito extensas. Com as forças inatas, disputa o domínio do império e com isso, sem perder um soldado, sua vitória é completa... esse é o método de atacar com estratagemas, de usar a espada embainhada”.

Acusam-nos, por desconhecerem que temos uma arma ‘secreta’, descoberta pelo grande (mas, que poderia ser maior se não tivesse o péssimo gosto de torcer pelo Fluminense) Nelson Rodrigues: “Para o FLAMENGO, a camisa é tudo. Já têm acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o FLAMENGO não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.

É meu filho... para viver neste mundo - onde não existe o diabo e sim “homem humano”, como dizia Guimarães Rosa-, é preciso mais do que nunca ter sempre em mente as sábias palavras de Cristo: “Pai, perdoa-os! Pois eles não sabem o que fazem”... e não sabem mesmo, pois se soubessem já teriam mudado de time.

Um grande beijo daquele que te ama muito,

Edilson Pinto

Francisco Edilson Leite Pinto Junior - Professor, médico e escritor

Carta a um jovem aluno

Meu caro aluno,

Hoje escrevo para você: tão jovem e cheio de sonhos, que muito provavelmente ainda não parou para pensar sobre as suas últimas atitudes. Talvez, o ensinamento da terceira lei de Newton – a cada ação, existe uma reação de mesma intensidade em sentido inverso – esteja mesmo esquecido. E aí você tudo pode; você tudo faz; você nada teme... Imaturidade? É bem possível, afinal o grande Nelson Rodrigues já nos tinha alertado: “os jovens têm todos os defeitos das outras idades e mais ainda a imaturidade...”.
Portanto, somente ela, a imaturidade, pode explicarcomo alguém que ainda não terminou o curso médico, se aventure, “corajosamente” (ou seria irresponsavelmente?), a ocupar o lugar de plantonista médico no interior do Estado. Sabia que isto é crime penal? Está lá no artigo 282: “Exercer, ainda que a título gratuito, a profissão de médico, dentista ou farmacêutico, sem autorização legal... detenção, de seis meses a dois anos”.
Há cerca de um mês, o CREMERN, ao fazer uma fiscalização na cidade de Lagoa Nova, motivado por uma denúncia bem fundamentada, constatou a presença de um estudante se passando por médico. A população da cidade quando soube, ficou indignada e revoltada; os policiais militares, onde foi feito o boletim de ocorrência, ficaram mais ainda revoltados e Deus sabe o que teria acontecido, caso o estudante tivesse sido descoberto em pleno exercício ilegal da profissão... Outro fato que nos causou bastante tristeza, foi constatar que o hospital daquela cidade, com capacidade para quase quarenta leitos, encontrava-se totalmente ocioso, com suas camas vazias. Fico imaginando: qua ntos partos, quantas pequenas cirurgias, quantos atendimentos de clínica, etc. etc. poderiam ser realizados, caso tivesse uma equipe médica atuante e completa. Mas é claro que é muito mais cômodo, manter as ambulâncias bem abastecidas, para promover a ‘desova’ dos pacientes nos hospitais da nossa capital: pobre Clóvis Sarinho, pobre maternidade Januário Cicco, pobre Santa Catarina... pobre população do nosso Estado.
Pobre jovem estudante... Se hoje, é atrante receber uma mísera esmola para se passar por médico, talvez amanhã, seja bem diferente. Diz um pensamento budista: “se você quer saber como foi o seu passado, olhe para o seu presente; se você quer saber o seu futuro, olhe para o seu presente”. Portanto, amanhã, meu caro jovem aluno, quando estiveres formado, precisando de um emprego, é bem provável que este lugar esteja sendo ocupado por mais um jovem imaturo e irresponsável... é o danado da terceira lei de Newton, que ninguém consegue fugir.
Bem... finalizo, alertando-o: o CREMERN continuará a exercer o seu papel. Fiscalizando cada canto desse Estado; encaminhando todos os casos desse crime contra a população ao Ministério Público; enviando a todos os coordenadores do curso médico, cada um dos estudantes pegos para que se instaure processo administrativo; denunciando ao tribunal de contas os gestores, por uso indevido do dinheiro público, ao contratar profissionais não legalizados para exercerem a função de médico. Então, meu caro jovem aluno, muito mais como professor do que como conselheiro do CREMERN, eu lhe imploro: PARE ENQUANTO É TEMPO!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior

Professor, médico e escritor

30/11/09
Ao pó o que é do pó

Em 21 anos de profissão, aprendi que o título é o pai da matéria. Leitor lê a manchete, diziam os meus editores do tempo da máquina de escrever.

Doce datilografia.

Funcionava como um polígrafo de escolher repórter.

Detector de mediocridades.

Na Olivetti, quem rascunhava analfabetês passava por um copidesque. Copidesque é uma palavra totalmenteoposta à imprensa de twitter.

Vi nêgo boçal de hoje dedilhando repercurção, voçê, platamforma.

O copidesque era um limpador de ortografia. Um corretor de português. Nenhum ignorante do idioma escapava.

Os grandes textos de Natal foram copidesques: Sanderson Negreiros,Luiz Carlos Guimarães, Nei Leandro, Berilo Wanderley, Woden Madruga, Rubens Lemos(o legítimo) ,Vicente Serejo . Adriano de Sousa(ele nasceu naqueles dias, mas insiste que não foi). Machadinho, o melhor repórter.

Peguei a prorrogação dessa época, chamada pelos entendidos de agora como a fase romântica do jornalismo.

Os entendidos até hoje confundem subliteratura com inteligência. Com saber escrever.

Sou do tempo do foca sem pauta.

E das velhas páginas de diagramação inundadas de emendas caligráficas.

É o jornalismo que guardo em mim.

Jornalismo de título, forte, igual ao da Veja recente.

“Quem cheira, mata."

Três palavras, uma vírgula.

A definição completa da Guerra Civil do Rio de Janeiro.

Quem cheira cocaína, paga o fuzil de quem mata a polícia.

Editor porreta.

Sabe escrever.

Imagine ele em Natal, terra em que traficante de escola é buona gente. Opina. Pede, recebe e se desloca. E tem preferência.

Taí um drama.

Taí um tema.

Rubens Lemos Filho - Jornalista e escritor

23/11/09
Tipos de assaltos

ASSALTANTE BAIANO
Ô meu rei… (pausa )
Isso é um assalto… ( longa pausa )
Levanta os braços, mas não se avexe não..( outra pausa )
Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado ..
Vai passando a grana, bem devagarinho ( pausa pra pausa )
Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não ficar muito pesado.
Não esquenta, meu irmãozinho, ( pausa )
Vou deixar teus documentos na encruzilhada .

ASSALTANTE MINEIRO
Ô sô, prestenção
issé um assarto, uai.
Levantus braço e fica ketin quié mió procê.
Esse trem na minha mão tá chein de bala…
Mió passá logo os trocados que eu num tô bão hoje.
Vai andando, uai ! Tá esperando o quê, sô?!

ASSALTANTE CARIOCA
Aí, perdeu, mermão
Seguiiiinnte, bicho
Tu te fu. Isso é um assalto .
Passa a grana e levanta os braços rapá .
Não fica de caô que eu te passo o cerol….
Vai andando e se olhar pra tras vira presunto
 
ASSALTANTE PAULISTA
Pô, meu …
Isso é um assalto, meu
Alevanta os braços, meu .
Passa a grana logo, meu
Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta pra
comprar o ingresso do jogo do Corintian, meu . Pô, se manda, meu
 
ASSALTANTE GAÚCHO
Ô gurí, ficas atento
Báh, isso é um assalto
Levanta os braços e te aquieta, tchê !
Não tentes nada e cuidado que esse facão corta uma barbaridade, tchê.
Passa as pilas prá cá ! E te manda a la cria, senão o quarenta e quatro fala.
 
ASSALTANTE DE BRASÍLIA
Querido povo brasileiro, estou aqui no horário nobre da TV para dizer que no final do mês, aumentaremos as seguintes tarifas: Energia, Água, Esgoto, Gás, Passagem de ônibus, Imposto de renda, Lincenciamento de veículos, Seguro Obrigatório, Gasolina, Álcool, IPTU, IPVA, IPI, ICMS, PIS, COFINS…

Enviado por Paulo Sérgio Martins

04/11/09
Mateus 7: (1-5)

‘Que me permita acrescentar o filósofo alemão, Martin Heidegger – que certa vez disse: “Somos seres para a morte” – a essa frase, as seguintes palavras: “passando pela incoerência”. Então, é isso caro leitor: somos seres não só para a morte, mas também para colocar em prática a nossa incoerência.
Por isso, não me surpreende que o maior homem que já pisou neste planeta, Jesus Cristo, tenha, insistentemente, falado neste assunto. No capítulo 7 do evangelho de Mateus, os primeiros versículos abordam exatamente isso:“Por que reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista?Como ousas dizer ao teu irmão:deixa-me tirar o argueiro de tua vista’, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão”.
Pois bem! Feito o diagnóstico, cabe-nos agora, encontrar as causas dessa doença – a incoerência – pois só assim, poderemos estabelecer o tratamento adequado. Seria a incoerência, originada pelas circunstâncias?  Sim! Não vamos esquecer o que disse o grande escritor, filósofo espanhol, Ortega y Gasset: “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. E a circunstância, a ocasião, faz o ladrão (o PT sabe muito bem isso que estou falando...). A circunstância faz também o covarde, que num dia tem um discurso exaltado, revoltado, áspero, mas quando está na frente de quem ele se exaltou e se revoltou, muda o tom: fala manso e o que é pior: até defende, com unhas e dentes, o seu antigo desafeto...
Esse tipo de comportamento ocorre em todas as profissões, mas duvido que seja mais comum do que no meio médico. Afinal, se hoje, estamos sofrendo todas essas mazelas – baixos salários, condições subumanas de trabalho, etc. etc. – é porque os nossos pretensos “líderes” da classe médica, um dia, quando ainda não estavam na cadeira do poder, tinham um discurso aguerrido, bravo e duro contra os poderosos, mas, quando se torna um deles – um poderoso (de pés de barro, é bem verdade) – mudam o discurso, o conteúdo e o seu tom... Quando eu sou médico, apenas médico, eu critico, mas quando estou diretor de hospital, vereador, deputado, secretário de saúde, etc. etc. aí eu me transfor mo... e haja incoerência incoerente!
E essa incoerência incoerente é terrível, pois - diferentemente da incoerência defendida por Osho, o mestre budista, que certa vez disse: “Se você realmente quer desfrutar a vida em toda a sua riqueza, tem que aprender a ser incoerente, a ser coerentemente incoerente”-, ela, a incoerência não coerente, é aquela que permite que milhares de pessoas sejam mortas nos corredores dos nossos hospitais públicos, porque eu não tenho a coragem de continuar coerentemente coerente com o meu discurso que tinha antes de ocupar a cadeira do poder...
Então, caro leitor, já temos duas causas para a mudança tão rápida, extremante abrupta, do nosso comportamento: a circunstância e a cadeira do poder.  Porém, há outra causa muito mais forte, explicada pela física quântica: toda vez que inspiramos, colocamos para o interior do nosso organismo um trilhão de átomos que um dia podem ter sido também respirados por Cristo, Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, Hitler, Saddam Hussein... e o danado é que me parece que os átomos desses dois últimos têm sido responsáveis pelo ar- mau cheiroso, e bote fétido nisso - que estamos respirando na saúde do nosso estado...
Portanto, meu caro amigo, você que tem me acusado, constantemente, de incoerente, veja que a origem desse problema pode está em você mesmo, afinal não tenho cadeira do poder, nem pretendo “criar” circunstâncias para ocupá-la.  Portanto, só resta-nos acusar os átomos que estou respirando, quando estou perto de você... mas, não se preocupe, como cirurgião, será fácil resolver esse problema: usarei sempre a máscara cirúrgica, quando lhe encontrar, certo?
Francisco Edilson Leite Pinto Junior (edilsonpinto@uol.com.br)
Professor, médico e escritor

31/10/09
Militância babaca

A notícia na internet soava como um carão no entrevistado. O rapaz dizia ao jornalista que, na última segunda-feira, fora trabalhar em seu automóvel porque desconhecia a data cívica em que ninguém deveria circular de carro pelo bem da natureza.

É o tipo da besteira factóide tão importante quanto discutir a influência do peixe vendido no Canto do Mangue, zona(em todos os sentidos) portuária de Natal, na questão diplomática em Honduras.
O velho Pernambuco, com aquela suada camisa de propaganda eleitoral de campanhas passadas há décadas, está (realmente), mais interessado no lenga-lenga reassume ou não fica Zelaya, do que em vender Aracanguiras, Ciobas e Cavalas monumentais.

O velho Pernambuco, com aquela suada camisa de propaganda eleitoral de campanhas passadas há décadas, está (realmente), mais interessado no lenga-lenga reassume ou não fica Zelaya, do que em vender Aracanguiras, Ciobas e Cavalas monumentais.

Data comemorativa, dia de protesto, engajamento 24 horas. Não me interesso a não ser em gozar. Eu não colaboro para poluir o meio ambiente, razão pela qual todos os motoristas deveriam ir a pé ou de bicicleta para o trabalho, facilitando a desenvoltura dos batedores de carteiras e assaltantes à mão armada.

Não sei dirigir, nunca vou aprender a guiar carro e se precisar ir a pé eu vou, mas só se eu quiser ou precisar, se alguém quiser me impor eu tomo um táxi, chamo alguém pra levar meu carro ou subo num ônibus. Detesto a hipocrisia forçada e o desvio que o marketing de pipoca quer levar a todos dos problemas fundamentais.

Aguardo agora o Dia do Twitter, quando cada homem, mulher, menino e menina, seja da cidade ao sertão, acessará – com um fuzil apontado ao crânio - um computador para saber que o vizinho está cozinhando feijão, viu Ana Maria Braga, depois foi ao banheiro, comprou o gás. Ou então que a balzaquiana a-do-rou os Desafinados no cinema. Cópia insossa da Bossa nova cinematográfica.

Meus tios achavam que era proibido proibir.

Eu sou contra qualquer militância politicamente oportunista.

Mudo se algum dia for crime usar celular.

Sobretudo atender ligação.

Pena capital, com direito a injeção letal de conversas grampeadas.

Rubens Lemos Filho - Jornalista e escritor


24/10/09

A Barata

O bicho, enorme, asqueroso, entre o preto e o marrom, passeava pela casa, imponente, como se fosse seu dono. Para não confessar a minha filha o medo que tenho de barata, disse a Sofia que a barata se chamava Kafka e que estava nos fazendo uma visita. Besteira, mamãe, você está falando isso para disfarçar seu medo!, respondeu, do alto da sabedoria que seus seis anos lhe davam. Irritada, decidi pegar a vassoura para matar a intrusa, mas, quando ela atravessou a sala rapidamente, pelo tapete, dei dois passos para trás e quase tropecei na mesa de jantar. Viu, mãe, você está morrendo de medo!, zombou Sofia.Desafiada e já nervosa – com a barata e com a petulância da menina – perguntei se ela não tinha medo. Respondeu que não. Então por que não mata você a barata?, provoquei. Primeiro porque matar insetos é tarefa das mães, não das filhas. Segundo, porque você disse que era uma visitante. Desisti da vassoura e bebi um copo d´água para me acalmar. Não sabia se repreendia minha filha ou se tentava achar a barata debaixo do sofá. Decidi pela segunda opção, mas, após afastar o sofá, virar o tapete e quase derrubar a cortina, não tive sucesso. Sentei no sofá, fora do lugar, e comecei a chorar, baixinho. Sofia veio em minha direção e me abraçou. Mamãe, eu retiro o que disse. Matar baratas não é tarefa para as mães, mas para os pais!, sorriu. Não segurei o choro e desabei a cabeça entre as mãos. Sofia alisou delicadamente meus cabelos. Mamãe, o papai vai voltar? Não, minha filha, ele foi de vez. Tem certeza, mãe? Tenho sim, filhinha. Então vamos nós duas matar esta barata, mãe. Como é mesmo o nome dela? Kafka!, sorri. Por que este nome estranho? É uma brincadeira com o escritor muito famoso que escreveu um livro sobre um homem que se transformava em uma barata gigante. Que coisa estranha, mãe! Um dia você me conta essa história? Conto sim, juro!, sorri, voltando a sentir a alma tranqüila. Neste momento, a barata saiu de trás da cortina, parando como que para nos olhar. Sofia correu para ela pelo lado esquerdo e ela, Kafka, sem alternativas, correu para a minha direção. Golpeei-a com a vassoura, uma, duas, três vezes até que vimos, eu e Sofia, os restos do inseto esmagado e um líquido esbranquiçado no tapete. Nojo? Que nada! Nos abraçamos, morrendo de rir de nós mesmas.

Cefas Carvalho - Jornalista, poeta e escritor

13/10/09
A bosta de Chico

Conheço música ou qualquer outro tipo de manifestação cultural, com a mesma desenvoltura que falo de física quântica. A minha pequenina e raquítica mente, de infância desnutrida lá no sertão do Cabugi, não me permite mergulhar numa conversar mais profunda com qualquer cantor de botequim, com certeza nos primeiros 30 segundos estarei trocando Vinicius de Moraes por Bartô Galeno, ou mesmo me irritando, querendo provar que Edith Piaf é a Gretchen.
Meus desmilinguidos conhecimentos são enormes, minha ignorância é de cavalar gigantismo. Talvez, por isso mesmo, posso meter meu bedelho onde quero, sem medo de errar. Se acertar alguma coisa já saio no lucro. Empurro sim, meu dedão no angu dos outros.
Certa vez confessei para meu amigo Cid Augusto. Num bilhete, imprimi todo meu nebuloso conhecimento de música:
Caro amigo Cid Augusto.
Estou ouvindo um carro-de-som tocando uma música com um refrão que não consigo entender: Só as cachorras, as popozudas...
Amigo, essa música é pras cachorras mesmo?
Cid Augusto, com sua paciência de monge tibetano, levou mais de ano tentando me convencer que “aquilo” não era para cachorras, e sim pras “cachorras”.  Até hoje não entendi a diferença. Mas...
Juro por Deus e por nossa-senhora-dos-músicos-desafinados, que nem mesmo minha pós-mobral não agüenta, se irrita com a arrogância dos ignorantes. Outro dia estava ouvindo Baticum, de Chico Buarque com interpretação do Lenine, quando fui surpreendido com zumbido de 5.65:

- Que bosta é essa? Perguntou-me um entendido de música.

- É a bosta de Chico... Respondi a queima-buca.

- De Chico Soldado? Provocou-me, o ignorante.

- Não, é de Chico Buarque de Holanda, cantada por Lenine. Respondi com olhar de vampiro.

- Ah! Nem reconheci Chico, mas esse Lenine ainda está vivo?

- Tá! Mas, já deve ter uns de 140 anos. Tentei devolver.

- Vigi Santíssima, então ele é o homem mais velho do mundo. Deve ter ganhado uma bolada do Guinness. Vomitou o salafrário.

- É ganhou! Respondi, desistindo de provocar-lhe algum constragimento.

Para a prosa não descambar, num musicídio ou pior: feder igual ao Rio Mossoró. Aumentei o som, pedi desculpas...

- Vai fazer o que? Persistente perguntou.

- Vou continuar ouvindo bosta. Descontei...Ou pensei.

Aumentei ainda mais o volume do PC, sapequei: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia..

José Brito e Silva - Publicitário e chargista

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